Crônica: Mulheres incríveis também sofrem rejeição

É duro quando a gente assume que tem uma autoestima boa, principalmente quando analisa as qualidades mais impressionantes que se tem. Não só os atributos físicos, mas a inteligência acima da média, a alta capacidade de discutir lances de jogos esportivos em uma mesa de bar, o conhecimento aprofundado em games, em línguas, arte, literatura… Aquela capacidade impressionante que você tem de contorcer o seu corpo, de cantar como uma deusa dos palcos, de interpretar papeis com a maestria de uma vencedora do Oscar.

O que pesa é que nem quem está contemplada no combo de “mulherão da porra” está imune ao que todo mundo pode sofrer um belo dia, sem aviso prévio e de uma forma ainda mais brusca que uma tempestade repentina em um dia de verão. Aquele famigerado “não”, aquele telefonema não atendido, aquela promessa não cumprida e aquela incapacidade de olhar no olho e de dizer que acabou. Nem as mulheres incríveis e que contemplam qualidades impossíveis de serem enumeradas estão livres de, um dia, não serem valorizadas como merecem e não serem correspondidas.

Você pinta, escreve, canta, dança... Não deixe que uma migalha tire isso de você | Crédito: Matthew Henry/StockSnap
Você pinta, escreve, canta, dança… Não deixe que uma migalha tire isso de você | Crédito: Matthew Henry/StockSnap

A situação é complicada. Foi ensinado aos homens que “o não eles já têm” ao investirem tempo em uma conquista. Mas a nós, o conceito principal é o de aceitar que devemos ser uma princesa indispensável, nos moldes do que todo ser dos contos de fadas deve ser. E veja bem, isso não tem nada a ver com nossos gostos e nossa capacidade de entortar olhos e de encantar as pessoas, mas tão somente de entender que somos seres humanos que, muitas vezes, não somos correspondidas em nossas paixões. E que o peso de uma rejeição, seja ela qual for, consegue ultrapassar o de uma lança atravessando o nosso coração.

A Cinderela pode simplesmente ter seu sapatinho de cristal quebrado na escadaria do palácio, sem que o príncipe se preocupe em devolvê-lo (mas convenhamos que só o fato de ter de prová-lo no pé de milhares de donzelas para ter certeza do rosto que viu no baile já é, por si só, uma atitude que reflete total desmerecimento). A Bela Adormecida poderia simplesmente ter dormido pela eternidade sem que aquele rapaz do bosque se interessasse o suficiente para despertá-la com um beijo (o que também, veja bem, não é lá a melhor maneira de acordar, tendo o beijo de um ser que você conheceu há pouco na floresta enquanto o desavisado, olha só, interrompia a sua cantoria. Que irritante!).

Transforme a energia do "abandono" em uma nota. E seja feliz com as coisas mágicas que você é capaz de produzir | Crédito: Matthew Henry/StockSnap
Transforme a energia do “abandono” em uma nota. E seja feliz com as coisas mágicas que você é capaz de produzir | Crédito: Matthew Henry/StockSnap

E a Bela, pobre dela: só o fato de ter sido aprisionada dentro de um castelo mórbido como uma moeda de troca pela liberdade de um pai confuso já denota, a princípio, a rejeição mais triste pela qual uma mulher pode passar: a rejeição da sua própria liberdade, do seu direito de ir e vir e de manifestar seu desejo de voltar.

Não quer dizer que sejamos menos. Mas a incompatibilidade infelizmente existe e, assim como a dor se manifesta em suas formas grotescas, também vale refletir que não vale a pena investir nossa energia em convencer o outro de um valor inestimável (que, acredite, você tem de sobra). Vale mais a pena cozinhar aquele prato divino que você sabe fazer como ninguém, ainda que seja só pra você mesma, que vale a pena se derramar em palavras de uma forma despretensiosa, que vale a pena desenhar belas formas e deixar o talento aflorar.

Os aclamados mulherões fazem isso: transformam as energias, se reconectam com elas mesmas e, no final, terminam impressionando o mundo e vendo belezas extraordinárias outra vez | Crédito: Rawpixel.com/StockSnap
Os aclamados mulherões fazem isso: transformam as energias, se reconectam com elas mesmas e, no final, terminam impressionando o mundo e vendo belezas extraordinárias outra vez | Crédito: Rawpixel.com/StockSnap

Não é que você seja menos. Dói um pouco descobrir que nem tudo o que carregamos é o suficiente para fazer com que alguém deseje ficar. Mas os dias ensinam que a compatibilidade uma hora surge, que o valor prevalece e que, quando o amor acontece, cada uma de suas formas enaltece.

Ensinaram a nós, mulheres, que precisamos nos fazer indispensáveis na vida de possíveis companheiros. E o “não” torna-se ainda mais difícil de digerir e de refletir, relevar, deixar soltar. Esqueceram de nos ensinar de uma forma completa que devemos ser indispensáveis para nada menos do que, olha só, nós mesmas. Mas nunca é tarde para que a gente pegue o caminho certo da nossa força e redescubra que os nossos valores são nossos, e que ninguém é capaz de tirá-lo. ♥

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3 Comments Add yours

    1. camilahonorato says:

      Que bom que gostou, Karol! Sinta-se abraçada. Estamos juntas. ♥

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