Crítica de Cinema: Por quê “It – A Coisa” está fazendo tanto sucesso?

Quem tem medo de palhaço? Quem teve medo de palhaço na infância? E mais: quem tem fobia de palhaço a ponto de não aguentar sequer ver uma figura dessas?

Eu já tive medo na infância. Mas hoje olho para essas figuras com a certeza de que pessoas que carregam traumas e fobias das mesmas têm lá seus motivos. O palhaço quando é sarcástico extrapola todos os limites da confiança. Nesse sentido, ele é uma criatura bizarra que confunde. E quem não inspira confiança e confunde acaba repelindo pessoas. Ainda mais quando se faz isso com a intenção bruta de cutucar, como tantas figuras de terror que carregam a famigerada maquiagem branca e o nariz vermelho.

Mas se, afinal de contas, o medo e a fobia de palhaços está tão presente na nossa cultura, porque um filme de terror, um remake de um sucesso antigo da sétima arte, provoca tanta comoção, bate recordes de bilheteria, cativa público e crítica e tem uma continuação anunciada com louvor? Está claro que It – A Coisa tem seus grandes méritos. E é nisso aqui que vamos focar.

A tenebrosa casa de Pennywise - Crédito: Divulgação
A tenebrosa casa de Pennywise – Crédito: Divulgação

1. As pessoas são obcecadas pelo ideal do medo e de superá-los

Filmes de terror sempre causam essa pontada de curiosidade porque nós, seres humanos, somos curiosos com tragédias, com observar algo dando errado, pela adrenalina do medo e pela confiança supérflua de que vamos superá-lo a qualquer custo, e que temos que fazer isso nos expondo gradativamente à causa desses anseios e enfrentar esse medo grotesco de imediato. A bem da verdade, no nosso dia-a-dia, essa abordagem pode tanto dar muito certo como pode gerar mais traumas e inseguranças, o que mostra a abordagem arriscada que nos metemos quando fazemos isso, ao invés de entendermos a causa de nossos medos e nos afastarmos saudavelmente daquilo que nos faz mal (sorry, comportamentais, mas eu acredito na psicanálise).

Só que é justamente nesse enfrentamento do medo que mora uma parte considerável do roteiro de It – e que toca tão profundamente nas pessoas. A coisa sobrenatural que ataca crianças e que mora nos esgotos da cidade de Derry brinca com todos os medos de suas vítimas, aparecendo para elas quando as mesmas encontram-se sozinhas e desprotegidas e assumindo a forma das figuras que elas mais temem. O terror psicológico gera um burburinho na orelha, compensando no filme os sustos óbvios e que são entregues nos barulhos e na trilha sonora que os precedem. As pessoas que estão indo às salas de cinema querem tanto tomar sustos como ver crianças espantando-se com uma ameaça psicopata que se alimenta de seus medos. O medo gera insegurança, pavor, curiosidade e uma vontade brusca de superá-lo. É isso que os espectadores fazem, bem como todas as crianças envolvidas na luta contra Pennywise.

O Clube dos Otários ensina  uma lição de coragem e amizade no filme | Crédito: Divulgação
O Clube dos Otários ensina uma lição de coragem e amizade no filme | Crédito: Divulgação

2. A coulrofobia está em alta

Faz um tempo que palhaços ameaçadores vêm tomando conta do nosso cenário, isso desde o universo do entretenimento até as famosas pegadinhas de palhaço assassino, que foram espalhadas em vídeos insanos na internet e provocou aquela sensação de “se eu cruzo com isso na rua, desmaio”. Sendo assim: como esperar que essa sensação de pavor coletivo por essa figura não se manifeste?

A bem da verdade: é de se entender que figuras artísticas e circenses, que trabalham com clown como forma de arte branda e para divertir, estejam cada dia mais decepcionados e revoltados com os rumos que a figura tomou depois de ter suas origens calcadas nos palcos e em interpretações teatrais. Mas na outra ponta, a figura sarcástica e de emoções controversas é o sinônimo perfeito de susto. E toda essa histeria coletiva era o cenário perfeito para resgatar um filme cult de terror dos anos 1990, sendo ele mesma assinado por um dos maiores mestres do gênero: Stephen King.

3. Stephen King sabe escrever sobre o medo como poucos o fazem

“Here’s Johnny!”. Quem não se lembra dessa clássica e tenebrosa cena de O Iluminado, um dos grandes clássicos, dirigido pelo mestre Stanley Kubrick e reprovado, olha só, pelo próprio autor da obra. Para King, os personagens não refletiram as reais nuances psicológicas que ele próprio criou para sua obra escrita, sobretudo com sua Shelley, cuja interpretação dada pela atriz Wendy Torrance, que rendeu rusgas entre ela e o diretor, foi atribuída por King como uma figura que enfraqueceu sua personagem feminina e camuflou toda a sua coragem.

A lista de obras-primas e aclamadas pelo público de Stephen King é extensa. Ele é famoso, respeitado. E resgatar uma de suas obras em uma época onde o gênero do terror é tão pouco bem representado com longas metragens de direção e roteiro duvidosos (vide o resgate de O Chamado e afins). O mérito dele é saber brincar justamente onde o terror mora: no psicológico das pessoas, tocando fundo em suas mentes.

"You'll float too"! | Crédito: Divulgação
“You’ll float too”! | Crédito: Divulgação

4. Mais do que um filme de terror, é um filme sobre amizade

A sinopse primordial as pessoas já conhecem: a cidade de Derry sofre com os ataques e sumiços misteriosos de crianças, em especial do menino Georgie (Jackson Robert Scott), que é abordado pela figura no esgoto da cidade em um dia chuvoso quando seu barquinho cai dentro de um bueiro. Inconformado com o sumiço do irmão, Bill (Jaeden Lieberher) reúne seus amigos do Clube dos Otários do colégio para investigar o que aconteceu, e aos poucos A Coisa vai retornando para poder incomodar os garotos com aparições irreais, brincadeiras insanas e recheadas de terror psicológico para se alimentar do medo que elas carregam.

O bacana nisso tudo é ver que o filme soube trazer à tona os problemas pelos quais muitas crianças enfrentam de forma dolorosa e horrenda: abusos sexuais dos próprios familiares (como acontece com a personagem Beverly, a única menina do grupo), bullying, negligência dos pais e outros. E isso mostra como essas mesmas crianças machucadas podem se reunir com seus problemas para enfrentá-los juntos e se fortaleceram, mostrando o real significado da amizade. E isso é uma coisa que se sobressai no roteiro.

O próprio Pennywise, com atuação brilhante de Bill Skarsgård | Crédito: Divulgação
O próprio Pennywise, com atuação brilhante de Bill Skarsgård | Crédito: Divulgação

Com tudo isso, It – A Coisa também ganha pelo grande mérito de suas interpretações, desde as crianças do elenco ao temido Pennywise, visto que o ator Bill Skarsgård (por fora, um delicioso galã com uma leve cara de psicopata) soube muito bem vestir cada uma das nuances do palhaço, desde seus ataques aos seus sarcasmos, valendo-se de truques próprios de atuação para dar ao personagem um aspecto mais sinistro. Alguns efeitos especiais pecam e afetam os sustos das salas de cinema, bem como a trilha e os barulhos sacados que denunciam de imediato que algo está por vir. Ainda assim, a história sabe tocar, principalmente, onde o medo realmente reside: na mente.

VAI LÁ
It – A Coisa
Direção: Andy Muschietti
Elenco: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher, Finn Wolfhard, Jack Dylan Grazer, Sophia Lillis, Jeremy Ray Taylor, Wyatt Oleff, Chosen Jacobs, Nicholas Hamilton, Owen Teague, Jackson Robert Scott, Stephen Bogaert, Steven Williams, Ari Cohen, Megan Charpentier, Javier Botet.
Roteiro: Cary Fukunaga, Gary Dauberman, Stephen King.
Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch.
Produção: David Katzenberg, Roy Lee, Dan Lin, Seth Grahame-Smith, Barbara Muschietti, David Neustadter.
Distribuição: Warner Bros.
Classificação Final: ♥♥♥♥ (Muito Bom).

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