Conto: Grosserias de um homem tolo

Ela tinha um sorriso leve e sincero. Calma, caminhou entre livros até chegar à cafeteria, onde pediu duas generosas fatias de bolo: uma para ela, outro para o amado.

O amado, no entanto, tinha um peso no olhar. Não era leve como ela, mas sustentava rugas entre as sobrancelhas que denunciavam um estado de espírito rancoroso. Sentou-se bruscamente, mal prestando atenção que a mulher lhe perguntava qual dos dois pedaços mais lhe apetecia. Pegou um prato como uma coisa qualquer, olhar baixo e atento em alguma reportagem mal escrita de uma revista em decadência. Ela, ainda leve, sentou-se à sua frente, comeu o bolo e puxou assunto.

Palavras delicadas eram essas que surgiam dela. Palavras delicadas típicas de quem deseja conversar, perguntar a quem se ama como foi o dia e se é possível torná-lo ainda mais ensolarado e sorridente. Ele permanecia mudo, bufando entre uma pergunta e outra, impaciente por nada que valesse a pena. Como se o mundo fosse acabar entre uma linha e outra de qualquer reportagem grotesca e sem importância. Como se isso fosse mais importante do que erguer os olhos para quem estava à sua frente.

Em um dado momento, eis que esse mesmo homem ataca a serenidade de quem o queria bem:

– Não está vendo que eu não estou a fim de conversar? Que saco! Cala a boca e me deixa ler!

Crédito: Spencer Selover/StockSnap
Crédito: Spencer Selover/StockSnap

A mágoa chegou aos olhos dela. Sua leveza se esvaiu.

– Pra que gritar? Fique sozinho, então, com sua grosseria.

E levantou abandonando o prato de bolo, já cheio de migalhas. Caminhou lentamente e desceu a escada até sumir por entre os inúmeros livros nas prateleiras.

Ele, por fim, conseguiu ler. Pra que gritar? Não contente, ainda, permanecia com a mesma expressão irritada, mesmo abandonado. Mas não era isso que tanto almejava? Leu mais algumas linhas sem importância, pediu um chá e deixou o corpo duro em cima do banco da cafeteria.

Olhei para ele à distância. Só conseguia pensar na urgência que as pessoas têm para fazer absolutamente nada. Em como relações boas terminam por tão pouco. Basta uma palavra mal dita para fazer valer o pensamento do egoísta.

Porque é isso que o tolo faz: provoca sua solidão angustiante pela banalidade.

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