Crítica Musical: O divertidíssimo show da Miley Cyrus em SP

Ela é divertida, tira sarro de si mesma e sabe o que faz em cima do palco. Quando me perguntam sobre o show da Miley Cyrus em São Paulo, que presenciei na última sexta-feira (26), essas são as primeiras definições que me vêm à cabeça. Pra não falar de outras reflexões que uma cantora desse porte e com essas atitudes me fazem ter em um cenário cada vez escasso de pessoas que se permitam ouvir e se deixar levar.

Não sou a maior fã de seus trabalhos como cantora, mas a respeito e digo que cada minuto com ela valeu minha noite e me arrancou muitas gargalhadas. Acho que, antes de tudo, ela tem a credibilidade de cutucar as pessoas com seus shows e leva os créditos como cantora e compositora. Quero dizer: ela é realmente afinada. Ela se porta confortavelmente no palco. Ela tem uma proposta que destoa de muitas cantoras pop que surgiram nos últimos tempos pelo simples fato de que sua escandalosa ausência de roupas não tem como objetivo principal parecer sexy e atraente, mas, sobretudo, para fazer rir.

Antes de esclarecer meus pontos positivos em relação à sua apresentação, quero fazer um adendo em relação à chuva de críticas que surgem de todos os lados quando o nome dela vem à tona. Primeiramente: esqueçam de uma vez por todas as imagens atreladas à Hannah Montana e à pureza disfarçada e inexistente da Disney. As pessoas crescem e querem ir ao mundo. Querem ter o direito de se libertar de qualquer imagem infantil. Outro dia li no Facebook que Miley era uma péssima influência. Francamente: em pleno século XXI as pessoas ainda se preocupam com o impacto negativo que um artista pode ter por simplesmente ter o direito de amadurecer?

Miley sp 2014
Crédito: Flavio Moraes / G1

Segundo: ela é duramente criticada por motivos que, se você parar para refletir, verá que o quanto soa idiota. Cortar o cabelo comprido, mudar o visual e usar roupas curtas. Mulheres, como sabe-se bem, ainda são massacradas por qualquer pedaço de pele a mais exposta diante de olhos que julgam. Nesse caso, toda nudez ainda é duramente castigada. É claro que quando se trata do showbiz, há que se fazer uma reflexão quanto à proposta apresentada. Seria simplesmente o direito de fazer o que se quer com o corpo ou uma jogada de marketing dos poderosos da indústria para fazer vender mais? No caso de Miley, a última sugestão cai como uma luva em cima da hipocrisia. Se o público geral não estivesse tão preocupado em domar as mulheres com panos, talvez sua carreira tivesse ido para outro lado. Ou talvez não. Dado o conforto que ela tem no papel, diria que ela está na direção certa e que, futuramente, terá mais um grande leque de opções em relação à sua música.

No Brasil, as apresentações da cantora foram diferenciadas. Não se viu a superprodução de cenário e figurinos que marcaram a turnê Bangerz Tour mundo afora. Mas a presença de palco da moça, a voz e o carisma ganharam pontos a mais e seguraram o público que ocupou apenas parte da Arena Anhembi. Ela faz graça o tempo todo. Brinca com expressões e coreografias, fala palavrões, conversa, cativa. Seu amadurecimento musical é notável, embora eu acredite que certas músicas de seus antigos trabalhos ainda caberiam em suas apresentações, tais como Obsessed e When I Look At You.

Mas é claro que o estigma de boa moça ainda é um risco e assombra seu direito de seguir e frente, então ela resume seu passado em boas versões de Can’t Be Tamed e Party In The USA. Não que o público pareça sentir falta: as músicas de seu último disco são cantadas em coro, sobretudo os hits Adore You, We Can’t Stop e Wrecking Ball. Os bons covers de Beatles, Dolly Parton e Etta James deixam nítida toda a boa extensão vocal da moça. Só achei que faltou meu cover favorito de Lilac Wine, de Jeff Buckley. Mas tudo bem…

Mais do que divertir com suas montagens toscas de frangos rebolando nos telões, ela se permite arriscar. Testar os melhores caminhos de prender a atenção do público com seu trabalho. Desejo de todo o coração que sua carreira só avance. E que os lamentos em relação ao seu corpo, sua virada na vida e seu corte de cabelo passem. Porque né, minha gente: disco arranhado não tem sonoridade e só serve pra irritar. Fica a dica.

SETLIST
SMS (Bangerz)
4×4
Love Money Party
Maybe You’re Right
FU
My Darlin’
Do My Thang
#GetItRight
Can’t Be Tamed
Adore You
Drive
Lucy in The Sky with Diamonds  (The Beatles cover)
I’ll Take Care of You (Etta James cover)
Jolene (Dolly Parton cover)
23 (Mike Will Made-It cover)
On My Own
Someone Else
We Can’t Stop
Wrecking Ball

ENCORE
Party in The USA

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