Sobre o caos, a arte da alma e a natureza insubstituível: o que não nos pertence?

O caos é um velho novo conhecido. Não faz muitos anos que o mundo lida com a obscuridade de faróis coloridos, prédios a se perderem de vista, ruas absorvidas pelo cinza melancólico.

Crédito: Ranggi Manggala/StockSnap (Menina da Estrada)
Crédito: Ranggi Manggala/StockSnap

De uns tempos pra cá, algumas mudanças se fizeram notar de maneira absoluta. Avenidas são ocupadas por telas de LED das propagandas, incentivando consumos exacerbados. Por outro lado, becos ocultos, ruas menores e até grandes extensões de faixas cinzas, brancas e amarelas ganham as cores exageradas dos grafites. É a alma dos artistas explodindo – sobretudo daqueles que lutam contra as bocarras gigantescas de automóveis e arranha-céus tentando engoli-los.

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Crédito: Tom Eversley/ISO Republic

Cada alma humana precisa encontrar uma forma de explorar e expressar a arte que é sua por direito, dada como uma dádiva divina. Ela é natural, está enraizada nas nossas camadas mais profundas, de diversas e belas formas. Aliás, o que é natural faz falta.

Sempre haverá uma parte do ser humano que precisará do verde, daquele espaço que acalma e otimiza os sentimentos mais negativos, que nunca nos pertenceram e nunca nos pertencerão. Não há sentimento mais artístico e profundo do que pisar na grama, apreciar a proximidade das roseiras, sentir o cheiro das plantas e das flores do campo.

Crédito: Chad Madden/StockSnap (Menina da Estrada)
Crédito: Chad Madden/StockSnap

Nunca haverá sentimento da mais tenra completude se ele não estiver acompanhado do canto dos pássaros, da cavalgada nas costas de um cavalo, do toque das cascas das árvores, da pata de um cachorro, do pio noturno de uma coruja e do orvalho da manhã. Uma parte da natureza humana sempre precisará das águas salgadas do mar, das entradas dos bosques e da visão inebriante das colinas e das montanhas.

Crédito: Daiga Ellaby/ISO Republic (Menina da Estrada)
Crédito: Daiga Ellaby/ISO Republic

Não há engano no sentimento de vazio e angústia provocado pela grandiosidade exacerbada das cidades e da ansiedade ridícula. A alma dos artistas estoura muitas vezes em formas de protesto contra o vazio das palavras, de esculturas horrendas, manifestações sem sentido e jogadas no vazio. O excesso nos priva da criatividade, do mergulho profundo do autoconhecimento. Mergulhar em si torna-se um ato ainda mais temeroso e complicado do que realmente é. Dá espaço para inúmeras manifestações de medo.

Crédito: Alexandru STAVRICĂ/StockSnap (Menina da Estrada)
Crédito: Alexandru STAVRICĂ/StockSnap

O caos pode até funcionar como fonte de inspiração para trabalhos diversos. Mas é, no final do túnel escuro, um grito de socorro no abismo. É na natureza e no convívio profundo e tranquilo com o ser humano que reside o verdadeiro impulso da criatividade – e do acolhimento da calmaria ao qual temos pleno direito.

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