Crônica: O charme das pessoas desastradas

Não é por mal que a louça quebra ou que aquele copo de bebida escorra o líquido todo pela mesa. São apenas os ossos do ofício, da cabeça avoada e do corpo desobediente que insiste em ganhar vida própria.

Acho que a palavra “desastre” se tornou meu sobrenome desde os três anos de idade – ou menos. Digo menos porque não consigo me lembrar de qualquer fragmento do que eu costumava ser antes disso. Quando apareço diante de alguma situação mais delicada, que envolva objetos quebráveis e cuidados especiais com as pessoas, logo escuto uma risadinha e um alerta de cuidado chegando perto das minhas orelhas.

Ora essa, que culpa eu tenho se meu dedo entra dentro do olho de alguma pessoa na qual eu tento delicadamente fazer um carinho? Qual o problema de quebrar tantas taças de vinho ao perder o equilíbrio ou lavar a louça? Pra que existe vidro e tantos outros objetos quebráveis, afinal de contas?

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Crédito da Ilustração: Amello

Já escutei aquelas piadas infames sobre um elefante dentro de uma loja de cristal, mas meu charme é bem outro e quem compreende essa sina sabe bem do que eu estou falando. Estamos mais pra uma equilibrista bêbada em cima de uma cordinha sem vergonha, mas sem esquecer da maquiagem e do figurino lindão e colorido do circo. A gente tem um olhar meio perdido no tempo, no espaço e nos horizontes. A mente inquieta fica tentando localizar mil pensamentos criativos ao mesmo tempo em que tenta equilibrar uma xícara quentinha de café nas mãos. E meu Deus: como a gente amaldiçoa essas divagações quando aquele líquido quente escorre pelas mãos e acaba com a graça de se perder dentro de si.

Sou PhD em bater dedinhos nas quinas das portas, bater a cabeça quando me levanto, tropeçar em objetos espalhados pelo chão, pisar no osso da cachorra… Na infância e na adolescência, joelho machucado era como uma tatuagem de pin up dos tempos modernos. A gente até criava um carinho por eles, porque ela representava nossas tentativas heroicas de correr em descidas, andar com objetos de rodinhas, vide aquele patins surrado e aquele skate mal acabado. O meu skate, na realidade, tinha uma bela ilustração de uma criança sorrindo e cheia de hematomas. Uma singela homenagem dos meus pais a esse jeitão fofo que caracteriza uma parte da minha personalidade.

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Crédito da Ilustração: Al Brulé

Acontece que o desastre tem um charme delicioso. Como não querer dar uma lambidinha naquela mancha de molho shoyu no decote da camisa branca? Como resistir a uma calça furada no lugar errado porque a gente teve a indelicadeza de colocar um tecido nas pernas sem lembrar que sim, ele rasga! Preste atenção, moça!

Ou não preste! Confesso que não seria a mesma pessoa sem isso. Não teria histórias pra contar, imprevisibilidades incontáveis e previsibilidades divertidíssimas. A gente nunca sabe quando esse ladinho cômico vai atacar, e isso é o mais fascinante de tudo, porque a gente se diverte com esse riso que surge de repente em situações inusitadas.

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Crédito da Ilustração: Elvgren

Por trás de uma pessoa desastrada, pode ter certeza de que existe uma cabecinha vibrante pensando na próxima frase de um poema, no próximo desenho de flores a ser pintado em um quadro, no presente da melhor amiga, no restaurante pra jantar com o boy magia, na sobremesa da janta… Tudo isso pra distribuir amor por aí. Chato do Universo, que não soube nos dar o dom de equilibrar tantas coisas boas de uma vez só.

O charme de uma pessoa desastrada é ter um amor gigantesco pelo riso e pela surpresa agradável. O desastre vem cercado de carinho e de boas intenções. A gente jura! ♥

Crédito da Ilustração da Capa: Gil Elvgren

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2 Comments Add yours

    1. camilahonorato says:

      Yay! 😀

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