Crítica Musical: Scalene e a turnê apoteótica do novo álbum “magnetite”

Aqui nesse espacinho que eu compartilho com vocês, alguns textos acabam chamando mais atenção do que eu poderia prever. É engraçado como a gente, enquanto produtora de conteúdo, tem a certeza de que alguns textos vão fazer um sucesso enorme e o resultado aponta pro oposto. Aqui mesmo: eu me surpreendo de constatar que os textões de maior audiência são crônicas e poemas de minha autoria, resenhas literárias e críticas musicais. Então bora trazer pra cá o que mais chama o coração de vocês, certo? Até porque, escrever sobre música, a minha paixão, é uma das coisas mais maravilhosas do meu ofício de jornalista.

Há algumas semanas, tive o prazer de ser convidada pela Agência Inker para acompanhar de perto o show da nova turnê do álbum magnetite, do Scalene, em São Paulo, no Cine Joia. O resultado foi impressionante: de longe, um dos shows mais energéticos que já presenciei – tanto pelo lado da banda como na recepção do público. Esse último, aliás, foi o que mais fez valer a noite.

Arte da capa do disco "magnetite", do Scalene | Crédito: Divulgação
Arte da capa do disco “magnetite”, do Scalene | Crédito: Divulgação

Calcados em um início de carreira discreto como pede o protocolo do cenário independente no Brasil, os meninos do Scalene tiveram uma virada a mais em um sucesso já em notável expansão com a participação no programa SuperStar, da Rede Globo (aliás, meu povo, por favor voltem com o formato antigo pra gente descobrir mais bandas ao invés de ver ator global, por favor). Com a explosão de hits como Danse Macabre e Surreal, inclusos no ótimo álbum de estreia Real/Surreal de 2013, a banda repercutiu no cenário do rock nacional e ganhou mais visibilidade. Na ocasião, pude assistir ao show de abertura que a banda fez para o Raimundos em São Paulo – e constatei que gostei muito mais da apresentação deles do que de seus conterrâneos.

De lá pra cá, os jovens de Brasília (sempre essa cidade pra revelar expoentes significativos, não é mesmo?) gravaram uma música em parceria com os potiguares do Far From Alaska (a ótima Relentless Game, que eu particularmente acho que tem uma batidinha bem sensual antes da explosão dos vocais impressionantes de Emily Barreto nos refrões) lançaram o disco Éter, fizeram turnês pelo Brasil e só cresceram. Foi desse sucesso que brotou o lançamento do novo álbum e a recepção calorosa do público.

A recepção calorosa do show do Scalene em São Paulo reflete a ascensão da banda | Crédito: Camila Honorato
A recepção calorosa do show do Scalene em São Paulo reflete a ascensão da banda | Crédito: Camila Honorato

Na ocasião do show do Cine Joia, a banda soube intercalar bem o setlist de suas composições mais conhecidas (tais como Histeria, Náufrago e Amanheceu),  juntamente com as faixas conturbadas e cheias de peso do magnetite. Aliás, o último álbum é a tradução do amadurecimento musical do Scalene. Pra mim, os caras sempre foram a personificação perfeita do que o rock nacional precisa em termos de peso, identidade e qualidade. Agora, então, nem se fale: o último disco sabe intercalar bem a poesia das letras, algumas delas de protesto, com peso e afinação. No que diz respeito à competência dos vocais de Gustavo Bertoni, é um verdadeiro alívio ver que, ao contrário do que se propaga entre as línguas comodistas, nosso cenário sobrevive e é cheio de artistas bacanas.

A apresentação, aberta com a excelente extremos pueris, avançou bem com cartão-postal e vultos, alcançando um de seus mais altos momentos (se é que dá pra classificar algum que não tenha sido) com distopia – cujo clipe está aí embaixo e é só clicar no play pra acompanhar. De todo o setlist, só senti falta da inclusão de Karma mesmo, que é uma das minhas favoritas de Real/Surreal. Como não podia deixar de ser, teve participação da Emily e invasão no palco com artistas amigos ao final daquela loucura toda. Loucura, esta, que segue em apresentações bem-sucedidas pelo Brasil afora.

Se liguem porque, ao que tudo indica, o crescimento dos caras vai continuar avançando. Os bate-cabeças e a recepção impressionante do público são um sinal bem claro disso. E a quem interessar possa: tanto as músicas quanto o título do álbum estão em letras minúsculas para fazer jus ao significado da palavra magnetite, que, na definição da banda, “é um estado de viver ciente e responsável pelas causas e consequências energéticas de nossas ações”. E isso, em letras minúsculas, é falar em voz baixa e chamando atenção para o conteúdo. Pá! ♥

Scalene em São Paulo | Crédito: Camila Honorato
Sim: eles estão cada vez melhores | Crédito: Camila Honorato

Fique atento!

A banda se apresentou com outros dois grupos excelentes em São Paulo, que valem uma pausa daquelas pra ouvir. Se liga:

  • Aloizio e a Rede: o músico brasiliense mistura o rock com elementos bem próprios que caracterizam a música brasileira. A rede do nome é o apoio dado pelos músicos que integram a sua banda, mas a bem da verdade: o som é tão acolhedor que mais parece uma rede de balanço em um quintal de uma casa de campo. As letras são extremamente honestas, a voz é um dengo só e o conjunto da obra vale cada segundo. Não deixe de ouvir o álbum Esquina do Mundo completinho.

  • Baleia: com dois álbuns de estúdio gravados, o grupo carioca faz uma mescla tão grande de estilos em suas músicas que a definição que a própria banda faz de seu som realmente os define com perfeição: o gênero do “pós-mimimi”. Também, pudera: aqui você vê instrumentistas que se intercalam para tocar instrumentos diversos e formar uma batucada que ora parece indie, ora um pop transcendental, ora alguma coisa inventada para definir o que é a brasilidade da nossa música contemporânea. A voz dos vocalistas, Sofia e Gabriel Vaz, é um casamento perfeito. Tanto Quebra Azul quanto Atlas são discos que você precisa escutar antes de morrer.

  • Gustavo Bertoni: me choquei de saber que muitas pessoas que escutam o Scalene ainda não ouviram o projeto solo do talentoso vocalista Gustavo Bertoni, com músicas gravadas em inglês. O disco The Pilgrim, de 2015, é um projeto mais delicado e que deixam a voz melódica do artista em evidência. Escute no Spotify e se prepare pra relaxar lindamente.  E preste atenção em Midnight Train, de longe a minha favorita.

Depois me contem nos comentários o que vocês acham desses bandões e deem um salve se estiverem acompanhando a turnê do Scalene em outras cidades. Fechou? 😉

VAI LÁ
Álbum magnetite, do Scalene
Avaliação Final: ♥♥♥♥♥ (Excelente).

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