Crônica: Sobre as voltas que o vento dá

Quando eu era pequena, gostava de me sentar na rede da casa de campo dos meus pais e de balançar conforme o vento batia no final da tarde. Gostava de observar o horizonte com as cores que surgiam no céu, vendo as transformações intensas de nuances no entardecer. Aquele crepúsculo que se descortinava na minha frente, bem ao redor do cenário campestre com uma misteriosa casinha isolada, me trazia um misto de paz e calmaria que eu mal consigo descrever. Era meu momento de plenitude, de tranquilidade.

Sempre gostei de sentir a brisa intensa do vento no final da tarde. Era como se, inconscientemente, eu soubesse que mudanças boas aconteciam. Aquele barulhinho do farfalhar das árvores, o cheiro que saía dos pequenos bosques que se acumulavam naquele condomínio e a visita de pequenos pássaros no quintal da casa.

Crédito: Seth Schwiet/Unsplash
Crédito: Seth Schwiet/Unsplash

Eu me lembro de um, em particular, de asas pretas e de um canto sutil, que nos visitava mais ou menos nesse horário. A essa hora, minha mãe já colocava o café pra coar na cozinha e ia para o quintal para receber o pequeno visitante. Os dois conversavam de um jeito curioso, como se pudessem se entender naquela mistura de pios e de vozes delicadas. Um belo dia, o pássaro alçou um voo sem retorno e minha mãe confessou, com um suspiro triste: “Ele me lembrava meu pai. Seu avô adorava pássaros e também tinha um pássaro preto pra fazer companhia”.

Aquilo martelou na minha cabeça. Como seria perder alguém a quem tanto se ama e admira, nessa volta de encerrar um ciclo da vida e se despedir? Nunca havia passado por uma perda forte, mas anos mais tarde passaria a entender um pouco da dor e da saudade que minha mãe carrega dentro de si.

Naquele tempo de climas instáveis, natureza, casa de madeira e visitas esporádicas, ficávamos por dias sem receber a presença de absolutamente ninguém. Com isso, criávamos nossas estratégias de sobrevivência. Ela entre a sala, a cozinha e os livros, eu entre meus pequenos contos de fadas, cantorias do lado externo da casa e brincadeiras solitárias de dentro do quarto, de onde surgiam frases decoradas de cenas de desenhos animados e figurinos montados em peças que eu construía para mim mesma. Para me apresentar para mim e mais ninguém.

Crédito: Dawid Zawiła/Unsplash
Crédito: Dawid Zawiła/Unsplash

No entanto, um belo dia, sentada na rede do quintal da casa, sentindo o peso do vento e observando as cores do crepúsculo, ouvi a voz do meu padrinho em uma das visitas em grande escala que recebíamos aos finais de semana. Estávamos cercados de parentes, e ele interrompeu meu devaneio para me convidar para ouvir uma de suas histórias inesperadas, junto com meus outros primos.

Ele dizia coisas que casavam com aquele momento poético do entardecer. Falava sobre como o vento nos dizia coisas impressionantes sobre a própria vida e sobre o que está além dela. E do alto de sua imaginação (ou conhecimento, vai saber), nos disse que quando o vento bate, é sinal de que algum ente querido que faleceu e foi para longe está no dando sinais de que está por perto. Que o vento é nada menos do que a presença de quem se foi.

– Você, por exemplo – ele dizia, apontando para mim – Está sentindo agora a presença do seu avô.

Crédito: Marko Blažević/Unsplash
Crédito: Marko Blažević/Unsplash

Aquilo ficou na minha cabeça, de um jeito forte. Pouco me importava se fosse uma espécie de conto ou poesia naquela tarde cercada de ventanias, ou se ele nos dizia algo para nos confortar do medo que surgia quando o vento batia forte no meio daquela casa de campo isolada do mundo.

Meus primos naquele momento, tão sorridentes e tranquilos, me chamaram para dizer:

– Vem aqui! Vem sentir o seu avô.

E ficamos ali, em uma espécie de fila para fechar os olhos e sentir o peso e o cheiro do vento. Cada qual com seus próprios pensamentos, suas imaginações constantes.

A realidade é que, até hoje, o vento tomou um significado diferente pra mim. E quando a ventania surge de uma forma caótica, quase como um furacão, meu coração me diz que, tal como pensava a Ana Terra de Érico Veríssimo, algo extraordinário acontece. Ou simplesmente está para acontecer.

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