Análise: vestibular da Fuvest reflete urgência na reforma educacional

Sou uma pessoa de grandes sonhos, que se realiza em diferentes ramos de comunicação e artes e que se sente bem estudando constantemente, mergulhando a cabeça nos livros, escutando outras pessoas e adquirindo conhecimentos por aí. Foi esse um dos motivos que me levaram a, há exatamente um ano, voltar a prestar vestibular com o intuito de voltar para uma sala de aula.

O processo não foi fácil. Prestar vestibular nos moldes tradicionais exige um foco gigantesco e um esforço mental que praticamente nos deixam à beira do colapso. São centenas de matérias acumuladas do período do Ensino Médio que contemplam não só o conteúdo da grade obrigatória, mas também matérias de atualidades que variam conforme os anos. Isso pra não falar das questões interdisciplinares, que exigem múltiplos conhecimentos – como vemos no Enem e em algumas questões abordadas na primeira e na segunda fase daquele que ainda é considerado o maior vestibular do país. Pois sim: já que os resultados da primeira fase do famigerado exame estão sendo divulgados nessa segunda-feira (18/12), o tema de hoje é nada menos do que a prova da Fuvest e um compartilhamento sobre minha experiência com ela.

Por uma educação menos decoreba e mais deliciosa de se praticar | Crédito: rawpixel.com/Unsplash
Por uma educação menos decoreba e mais deliciosa de se praticar | Crédito: rawpixel.com/Unsplash

Parando pra analisar minha experiência educacional como um todo, posso dizer que não teve uma fase da minha vida nesse quesito no qual eu não tenha sido monumentalmente desafiada, a começar pela minha alfabetização: como comecei a ler e a escrever com quatro anos, acabei entrando na Pré-Escola antes do período previsto – e passei toda a minha vida do Ensino Fundamental e Médio estando um ano adiantada. E não: eu não recomendo. Primeiro porque crianças têm um certo ritmo de adaptação. Segundo porque estar com colegas que estejam no mesmo patamar é fundamental pra evitar sensações de menos valia e cobranças que possam interferir no processo de aprendizagem. Como futura educadora, recomendo que pais e professores estejam sempre atentos ao desempenho individual de cada criança sem, contudo, desestimular as mesmas a se enturmar com os colegas e desempenhar atividades coletivas.

Passados os perrengues da vida no ciclo básico de educação, a vida no ensino superior não teve folga. Por ter me formado aos dezesseis anos, eu me cobrava muito pra ter um diploma universitário o quanto antes. Ingressei na faculdade de Relações Internacionais por ter tido um desempenho satisfatório no vestibular da Belas Artes, mas não durei nem bem uma semana no curso e logo pedi minha transferência pro Jornalismo. Gostei do curso e me identifiquei em partes com a carreira que, mais tarde, eu passaria a amar com todas as suas dores e desafios. Do jornalismo pra cá, foram quatro anos desde a minha formação para que eu retornasse às salas de aula tradicionais cursando algo que eu sempre quis fazer. Nesse caso: o curso de Letras, que sempre foi um forte chamativo pra mim graças à sua base teórica e às chances de estudar outros idiomas, além de  me aprofundar em literatura. Prestei vestibular pra faculdade pública mais de quatro vezes desde que saí do Ensino Médio, das quais três delas fui aprovada para a segunda fase. Mas foi somente no ano passado, com a cabeça fria e sem o excesso de cobrança, que consegui entrar no curso que eu tanto almejei.

Formato atual do vestibular pouco valoriza aptidões individuais e deixam alunos à beira do colapso | Crédito: Josefa nDiaz/Unsplash
Formato atual do vestibular pouco valoriza aptidões individuais e deixam alunos à beira do colapso | Crédito: Josefa nDiaz/Unsplash

Por quê resolvi escrever sobre o exame depois de aprovada e com um ano cursado na Universidade de São Paulo (USP)? Por quê me corta o coração ver uma quantidade tão absurda de estudantes esforçados e em potencial se rebaixarem e reduzirem seus conhecimentos, obtidos em anos e mais anos de uma vida escolar que pouco valoriza suas aptidões, a um exame curto e que pouco analisa sua formação enquanto seres humanos. Com todos os meus esforços acadêmicos, posso dizer que, estando dentro da universidade, vejo o quanto esse sistema de avaliação deixa passar batido uma série de habilidades valorizadas dentro do ambiente das universidades públicas, dos quais destacam-se capacidades de análises críticas e de coletividade.

A começar: nosso sistema ainda é baseado na decoreba como principal fonte de análise de conhecimentos. De uma forma geral, o exame da universidade mais concorrida do país não leva em consideração capacidades de analisar e interpretar textos e organizar raciocínios, já que logo de cara os alunos se deparam com uma série absurda de noventa questões de múltipla-escolha que exigem horas inumanas de leitura e concentração em um ambiente cercado por fiscais, que te acompanham até para ir ao banheiro. Certa vez um professor comparou esse formato com o de uma prisão, o que eu não acho que seja assim tão absurdo em sua essência: a regra do esforço máximo pra se ter liberdade. Nesse caso, a liberdade de estudar em uma instituição de qualidade e destacar-se no meio acadêmico e no mercado de trabalho.

Vestibular tradicional valoriza modelo ultrapassado do mercado de trabalho | Crédito: rawpixel.com/Unsplash
Vestibular tradicional valoriza modelo ultrapassado do mercado de trabalho | Crédito: rawpixel.com/Unsplash

O exame é pouco dinâmico e praticamente não mudou desde a consolidação de seu formato. É preciso estudar e estudar como se não houvesse amanhã não somente as matérias que permeiam o ciclo básico da área escolhida, mas também aquelas nas quais se têm maior dificuldade – e que ficam intocadas durante o período destinado ao Ensino Superior. Nesse ponto, o Enem, que foca em questões interdisciplinares e com temas atuais tanto nas questões de múltipla-escolha como na redação, está muito à frente. Ainda assim, com o respaldo dos ganhos obtidos a partir das inscrições no vestibular, é nítido o quanto ainda estamos longe de um sistema unificado para o vestibular. Na prática, lá dentro da USP, como já apontaram pesquisas, é indiferente a forma de ingresso no desempenho do aluno. Ingressantes da Fuvest, do Sisu e do sistema de cotas não possuem, em absoluto, qualquer influência de seus resultados nos vestibulares nas notas obtidas nas matérias do curso escolhido.

Por quê eu acredito no quanto precisamos falar sobre reforma educacional com urgência? Eu explico. Primeiramente: não se pode exigir de um aluno extremamente jovem e recém-saído do Ensino Médio um conhecimento amplo acerca de temas diversos não só de matérias obrigatórias do ciclo, mas também de Atualidades. Muitas das questões de humanas aplicadas nos exames eu só obtive conhecimento ao longo de anos de vida acadêmica e estudando fora do ambiente escolar, tendo contato com obras literárias que divergem daquelas exigidas no vestibular. O exame ainda é focado primordialmente na atenção de alunos que mal saíram da adolescência e já se sentem pressionados a escolher uma carreira para toda a vida adulta. Há pouco maturidade pra contemplar obras tidas como clássicos da Literatura Brasileira, mas não por desmerecimento do jovem: é porque as mesmas realmente necessitam de maior maturidade para serem apreciadas. Enquanto isso, novos autores que falam diretamente para o público jovem são desvalorizados em detrimento de títulos antigos e que pouco dialogam com a realidade experimentada por grande parte dos estudantes que buscam uma oportunidade nas universidades públicas, sobretudo aqueles oriundos de escolas públicas e que vivenciam as agruras de viver nas comunidades.

Estudar preciso ser algo prazeroso, e não um ato de tortura | Crédito: Ben White/Unsplash
Estudar preciso ser algo prazeroso, e não um ato de tortura | Crédito: Ben White/Unsplash

Segundo porque o próprio mercado de trabalho é contraditório e segue um formato de esgotamento mental que não acompanha os avanços da tecnologia, da economia criativa e das novas formas de se trabalhar. Empresas exigem profissionais jovens e formados com a mesma facilidade que se dispõem a pagar pouco por seus esforços máximos dentro do ambiente acadêmico. Esses mesmo jovens sofrem tanto preconceito dos recrutadores graças à pouca idade como com um nível máximo de exigência para serem sempre um grande diferencial. O sossego não acaba com o vestibular, já que as empresas também estimulam a competitividade em detrimento da coletividade. As universidades ainda valorizam um sistema educacional que forma indivíduos para trabalharem em empresas que exigem cartões de ponto, cumprimento rígido de atividades em horários comerciais diários, ignorando mudanças nítidas em ambos os cenários e os debates acalorados ao redor do mundo sobre a necessidade de mudar a forma de trabalhar e estudar.

Foi mais um ano onde o acúmulo de estudantes à beira de um ataque de nervos pelos horários apertados dos exames, que exigem uma pontualidade cômica de se acompanhar em uma cidade conhecida por sua imprevisibilidade, lamentaram-se pelo alto grau de conhecimento exigido em um prazo curto de vivência. A educação, que deveria trabalhar para se tornar mais inclusiva, parece resistir em prol da exclusividade de alguns poucos cidadãos que podem se dar ao luxo de obter uma educação de qualidade extrema e que, para tanto, exige um desembolso estratosférico. No mais, por experiência própria: a vivência em uma universidade pública é concorrida pelo fato de que, lá dentro, as atividades contempladas não casam com o padrão dos exames. Estudar na USP pra mim é a realização de um sonho não pelo prestígio da universidade e pelo ego inflado de ter passado em um exame, mas porque lá eu encontrei o respaldo de estudantes que me abraçaram em momentos difíceis, que se propõem a ajudar e a debater sobre assuntos diversos, provas e trabalhos que mais exigem conhecimentos amplos adquiridos a partir de conversas com os docentes e de leituras diversas do que no velho “decorei-passei”.

Educação precisa valorizar a coletividade | Crédito: Alexis Brown/Unsplash
Educação precisa valorizar a coletividade em detrimento da cega competitividade| Crédito: Alexis Brown/Unsplash

Aos alunos decepcionados com o desempenho: não se culpem e nem se diminuam por isso. Vocês são mais do que esse objeto quadrado de análise de conhecimentos. E a gente aqui de dentro segue na batalha pra proporcionar mais inclusão e abraços coletivos que resultem em uma educação menos maçante e mais deliciosa de se praticar. ♥

Em breve: vídeos com dicas preciosas pra quem deseja estudar em casa pro vestibular sem os excessos de cobrança dos cursinhos e como passar pra segunda fase. 

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