Evanescence em SP: por quê Amy Lee deveria ser referência para as próximas gerações

Quando falamos em música contemporânea, muitas vezes vêm à nossa cabeça algum grupo indie, uma cantora pop, uma dupla sertaneja e até um cantor ou cantora de funk. Todos eles com hits estourados nas maiores paradas de sucesso, playlists sugeridas aos montes no Spotify e vídeos com milhões de acessos no YouTube. O novo nunca deveria ser associado ao ruim, pois nem sempre o antigo é sinônimo de qualidade. Mas todos esses números absurdos seriam mesmo a tradução perfeita de qualidade musical?

A resposta é: não. Nem nunca foi. Quantidade não é sinônimo de qualidade, como diria o ditado. E apesar de termos hoje grandes nomes da música que nos presenteiam com composições de qualidade e bons números, ainda estamos muito longe de fazer valer o conceito de arte atribuído a essas notas. No universo da música pop, cantoras do porte de Beyoncé e de Lady Gaga fazem valer cada repercussão e cada título de honraria com suas potências vocais e performances memoráveis, muitas delas bebendo de fontes que variam entre o soul de Aretha Franklin e as provocações de Madonna, uma referência em poder feminino e domínio de voz e corpo. Cantar e dançar é coisa que pouquíssimas pessoas conseguem, e menos ainda querem aprender. Apesar de acharmos divertido muitas das faixas divulgadas pelas grandes gravadoras e produtores musicais famosos, estamos mesmo dando play em alguma dessas músicas com o intuito de despertar em nós mesmos algum tipo de emoção que vá além do riso fácil e uma dancinha cômica? Qual é o valor da complexidade da música?

Evanescence em São Paulo | Crédito: Willian Siqueira
Evanescence em São Paulo | Crédito: Willian Siqueira

Ontem, durante a apresentação do Evanescence em São Paulo, em uma noite bem fria e que super casava com a atmosfera gótica que acometeu o Espaço das Américas, comecei a refletir sobre os valores simbólicos desse tipo de arte em cada nota estendida dessa cantora americana, taxada como musa de adolescentes mal compreendidos do início dos anos 2000. Ah, esses rótulos… Por trás da melancolica da juventude e das letras com um certo ar poético, Amy Lee é a síntese performática do que muitos jovens deveriam tomar como exemplo ao entrar em um palco. Com isso, não quero defender uma apresentação perfeita, já que à banda falta um pouco mais de simpatia e entrosamento com o público (no sentido de comunicação direta) e pontualidade (foram quarenta minutos de atraso, o que provocou vaias significativas por parte do público). Mas uma postura expressiva, teatral, com direito a figurino elaborado e uma capacidade vocal impressionante.

Quando estourou, lá nos idos de 2003 com o hit Bring Me To Life, o Evanescence era uma banda majoritariamente conduzida pelos então parceiros Amy Lee e Ben Moody. As menções a Deus em algumas das canções do álbum de estreia Fallen, como Torniquet, conferiram a eles um espaço reservado nas prateleiras de CDs de música gospel, posteriormente retirados com as entrevistas públicas e cheias de palavrões da vocalista. No caminho oposto, o Evanescence nunca teve a pretensão de adotar esse tipo de rótulo pouco embasado de rock cristão, mas bebia da fonte de bandas de metal sinfônico, como o Nightwish. A própria Amy, aliás, já anunciou que a ex-vocalista Tarja Turunen (hoje em uma bem-sucedida carreira solo) era uma inspiração para ela. Ainda assim, o grupo pegou carona no sucesso estrondoso no New Metal, ainda que suas canções pouco lembrassem à de seus parceiros do Korn, com quem Amy viria a firmar uma parceria em um belo acústico. Ao invés disso, o som do Evanescence parecia um pouco mais experimental, entre o metal e o clássico.

Evanescence em São Paulo | Crédito: Camila Honorato
Evanescence em São Paulo | Crédito: Camila Honorato

Depois disso, as brigas com os antigos integrantes da banda valeram uma interrupção brusca da antiga formação, parcerias rompidas, expulsões e fofocas. Amy assumiu de vez a frente do grupo com o título desagradável de “mandona”, assinou todas as composições do segundo disco, levou a banda novamente aos topos das paradas de sucessos com músicas como Lithium e Call Me When You’re Sober. Anos mais tarde, com hiatos, contratou uma mulher de solos potentes para assumir a guitarra virtuosa da banda, aumentando a participação feminina no grupo e mostrando que a alemã Jen Majura é realmente uma presença de cair o queixo – e talvez a parceira de palco com quem ela mesma mais possui entrosamento nas apresentações, como ficou nítido no show de ontem.

O álbum homônimo de 2011, diferentemente dos outros dois lançados em estúdio, foi o que menos provocou burburinho na grande mídia. Ainda que músicas como What You Want e My Heart Is Broken tenham alcançado bom reconhecimento, é nítido que está longe da grande repercussão provocada pelos tempos de My Immortal. Uma pena, já que esse é de longe o disco mais maduro e de maior peso do Evanescence. Ao grupo, sobrou os questionamentos estapafúrdios de “Já não foi a época deles”? Como se a música tivesse prazo de validade e tempo reservado para seu sucesso. Vivemos de hits passageiros, e não de obras atemporais.

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Evanescence em São Paulo | Crédito: Camila Honorato

Depois de ser mãe, lançar projetos paralelos, com direito a um disco infantil pra celebrar a nova fase, Amy Lee retorna aos palcos com uma voz mais densa e grave, sem perder o lirismo que a levou ao estrelato. Antes de mais nada, sua veia de artista completa fica sobressaltada em cada minuto da sua performance dramática, no piano impecavelmente tocado e em suas expressões teatrais. Amy não se restringe a um único espaço do palco, mas sabe usá-lo a seu favor e parece mais do que familiarizada com ele. Durante suas intensas performances vocais, a admiração por parte do público veio em forma de gritos e palmas em notas estendidas de Lithium e o falsete de Your Star.

O setlist da apresentação soube mesclar cada um dos momentos da carreira do Evanescence. Nele, houve espaço para faixas antigas como Everybody’s Fool, Imaginary e Whisper, além dos já mencionados hits estrondosos, as mais “recentes” A New Way To Bleed, Made Of Stone e The Other Side e um momento bem único no piano, onde a cantora tirou de letra uma música de sua fase independente e pré-Fallen: Breathe No More, que aparece no álbum ao vivo Anywhere But Home.

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Evanescence em São Paulo | Crédito: Camila Honorato

O que quero dizer em defesa do Evanescence é que eles são uma banda que merece ir além do seu rótulo de melancolia adolescente. O grupo tem um peso musical que pouco se escuta no rock de hoje – e que com certeza deveria servir de inspiração para outras figuras femininas tomarem seu espaço, sem definições pré-estabelecidas e sub-gêneros. Antes de tudo, Amy Lee é uma figura inspiradora pela sua força como artista e sua postura de auto-suficiência. Ela canta e impressiona com isso, indo além do oco que se tornou o excesso de firulas nos palcos e ausência de potância vocal e complexidade. É uma mulher que atrai pela beleza de seu conjunto como artista e que provoca encantamento.

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Evanescence em São Paulo | Crédito: Camila Honorato

Ainda que tenha sido prejudicado em determinados momentos pelas falhas de mixagem sonora (com excesso de volume na bateria e ausência nas guitarras, além de oscilações durante a apresentação do grupo) e pela iluminação mal elaborada do palco, onde o jogo de luz e sombras poderia ter sido melhor aproveitado para favorecer o peso das canções, o Evanescence soube intercalar o sentimento de nostalgia com o retorno, em promessas silenciosas de novidades e de que ainda tem muito a fazer para contribuir com a indústria fonográfica. Restou a nós, fãs, um sentimento profundo de agradecimento. E esperança.

SET LIST

  1. Everybody’s Fool
  2. What You Want
  3. Going Under
  4. The Other Side
  5. Lithium
  6. Even in Death
  7. My Heart Is Broken
  8. Made of Stone
  9. Haunted
  10. New Way to Bleed
  11. Take Cover
  12. Breathe No More
  13. My Immortal
  14. Your Star
  15. The Change
  16. Disappear
  17. Call Me When You’re Sober
  18. Imaginary
  19. Bring Me to Life

ENCORE

   20. Whisper

Evanescence em São Paulo
Avaliação Final: ♥♥♥♥ (Muito Bom).

 

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2 Comments Add yours

  1. Lucas Silvestre Cândido says:

    uau, adorei ler – e me reconhecer – na sua experiência, camila! acompanho a banda desde a fase “adolescente melancólia” dela, e nunca deixei de admirar e me inspirar neles, até hoje, assim como você. obrigado pelas sinceras palavras 🙂

    1. camilahonorato says:

      Que comentário maravilhoso! Obrigada pelo carinho, Lucas! Um beijo!

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