“13 Reasons Why”: o meu por quê

Hesitei muito antes de escrever esse texto. Não por quê acredite que seja um fardo compartilhar minha própria história com as pessoas ou porque acredite que essa parte da minha vida deva ser guardada a sete chaves. Vejam bem: não sou a favor de sempre se pregar que deixar à mostra assuntos de cunho pessoal é uma coisa insuportável e desnecessária, como se trancafiar esse segredo fosse a coisa mais saudável do mundo. Como artista e escritora, gosto de transbordar. E transbordar significa falar de mim mesma. Dos meus demônios mais escuros e escondidos.

O motivo de hesitar em escrever sobre esse texto é unicamente a dor que isso me provocaria, e não nos outros. Quando registrei esse site e retomei a minha escrita, eu vivia um momento de superação. Nesse contexto, estipulei como meta escrever quase sempre sobre assuntos positivos e agradáveis, protocolo que quebrei com a publicação de um texto sobre Ditadura Militar (já que os recentes apelos conservadores criaram um desconforto enorme em mim). Não tenho o menor problema em compartilhar meu passado, a não ser a tristeza que me bate de lembrar de certos assuntos. Mas hoje eu precisava falar. Não só por ter, há alguns dias, completado a maratona dessa série sobre a qual todo mundo fala no momento, mas também por ter rememorado sentimentos tristes que me acometiam na solidão. Sim, eu tive um gatilho. Porque eu, assim como vários adolescentes ao redor do mundo, já fui uma Hannah Baker. E meu gatilho veio de uma forma inesperada, fora dos perigos psicológicos dessa série tão delicada. E o meu sintoma verborrágico acionou. Ou eu vomito palavras, ou explodo dentro de mim. E essa segunda opção, depois de tudo que aprendi, não é viável. Nem um pouco viável.

No começo do ano passado, como vocês, leitores mais fiéis puderam acompanhar, fui diagnosticada com uma depressão severa que quase me corrompeu. No começo, passei pela fase de negação da doença e, posteriormente, da importância que ela teve na minha vida. Depois de muito negar, entendi finalmente que ela surgiu como uma tempestade, e que enfrentá-la me deixou mais forte. Não completamente imune ao medo de que essa mesma chuva incontrolável possa surgir desavisada, mas mais serena e sábia para controlá-la no caso dela resolver me visitar. O que pouca gente sabe é que, durante meus períodos de crise mais intensa, muitos episódios de uma realidade distante do Ensino Fundamental me vieram à mente. Era como se a minha mente doente e traiçoeira me levasse até o momento onde eu mais me senti desprotegida e fragilizada na minha vida para mostrar o quão desimportante eu era.

O meu lado Hannah Baker

13 Reasons Why | Crédito: Divulgação
Quem tem uma Hannah Baker dentro de si, entende bem a dor da personagem | Crédito: Divulgação

Eu não tinha estabilidade emocional. Era uma criança introspectiva e difícil. Passada as confusões desimportantes da infância no jardim, onde mordi algumas crianças pra resolver problemas, caí em mim em uma escola que me despertou para a crueldade que pode existir dentro de criaturas tão pequenas e inofensivas. Eu, que estava um ano adiantada e era mais nova do que os outros pentelhos da minha sala, me vi como alvo de risadas silenciosas e piadas infames. Era motivo de chacota pela falta dos meus dentes da frente, constantemente deixada de lado nos trabalhos de classe por ser mais na minha. O ambiente escolar nunca foi exatamente acolhedor para pessoas tímidas. E, sendo assim, eu até dava meu lanche para os colegas na esperança de que isso fosse me fazer mais querida por eles – e me tornasse uma possível amizade. Ledo engano. E inda perdi minha bela maçã-do-amor.

Na família, eu era uma nômade com meus pais. A gente nunca parava quieto em uma única casa. E de São Paulo, fomos parar em uma casa isolada em um condomínio fechado no Embu-Guaçu (SP). Troquei a escola chata por uma outra mais acolhedora, onde eu podia passar tardes na biblioteca sem ser julgada, andar em uma ampla área verde escolar em Itapecerica da Serra (SP), cercada por cavalos. Podia praticar esportes, dançar sapateado, fazer aulas de yoga. Podia sentar no gramado e esquecer da vida nas longas horas de ensino integral que eu tinha. Consegui conversar com pessoas que achavam a minha idade um diferencial e que me acolheram. E ainda assim, eu não estava feliz. Queria estudar de novo em São Paulo, no colégio em que os meus antigos colegas da cidade grande sonhavam em conseguir entrar. Queria estar do lado de uma prima, por quem eu tinha uma grande admiração. E consegui. E foi um dos maiores erros da minha vida.

Da terceira à oitava série, salvo alguns episódios de exceção, minha vida naquele lugar era o que eu podia chamar de personificação do inferno. Eu não me adaptava. Tinha dificuldades em me enturmar, dificuldades com o sistema rígido e religioso da escola, dificuldade com o excesso de lições de casa, com a maldita da matemática e com professores que não entendiam minhas necessidades. Virei alvo frequente de piadas porque não conseguia resolver exercícios na lousa e, por causa disso, chorava de vergonha. Fui apelidada de chorona. Ficava isolada em um canto, sem saber reagir quando fofocas e brigas idiotas surgiam. No âmbito pessoal, fui morar de favor e passei por vários apartamentos e casas de aluguel com meus pais. Fingia que estava tudo bem, mas sentia o peso do mundo cair nas costas quando minha mãe perguntava chorosa depois de uma reunião de pais sobre o por quê de eu não conseguir fazer amigos. Ela se sentia impotente. Eu me sentia idiota por decepcioná-la. Preferia a companhia dela ao dos alunos estranhos da minha classe.

13 Reasons Why | Crédito: Divulgação
A solidão pode ser um fardo bem difícil de carregar | Crédito: Divulgação

Quando entrei na quarta série, senti que ela chegou pela primeira vez. Talvez tenha sido o primeiro sintoma não diagnosticado por um médico, mas onde eu sabia que tinha alguma coisa errada. Desenvolvi fobias, fui acometida por uma insônia tenebrosa que me impossibilitava de dormir mesmo quando passava Xuxa e os Duendes na televisão. Cada música popular que eu escutava me conectava a um “eu” isolado, diferente e doente do mundo. Eu acho que foi ali que a depressão surgiu pela primeira vez. No meio de uma Copa do Mundo, do Brasil campeão pela quinta vez, da minha primeira comunhão, do meu dez aplaudido pela professora de história sobre um trabalho espetacular sobre a história dos índios. Por fora, tudo estava numa boa. Por dentro, eu sangrava como em relatos de guerra e desmembramento de quadros desconhecidos. Mal conseguia me concentrar na matéria de Ciências sobre o surto da dengue. E constantemente me via em cenários de terror quando ouvia uma versão melancólica da Sandy cantando We’ve Only Just Begun, dos Carpenters. A Karen Carpenter morreu de anorexia, eu pensava com tristeza ao ouvir o trecho: “And when the evening comes we smile”. Eu não sorria. Eu só tinha nove anos.

Descobri uma redenção na música, nas vozes de artistas que me acolheram naquela fase ruim e me deram um respiro de alívio. Balançava a cabeça ouvindo Red Hot Chilli Peppers. Comecei a andar de skate por causa da Avril Lavigne. Passava horas comparando as vozes do vocalista do Creed e do Pearl Jam, até descobrir que o Eddie Vedder era o amor musical da minha vida e que eu adorava ver a ilustração que unia dois amantes cheios de piercings no encarte do álbum Vitalogy, que incluía uma das minhas músicas favoritas de todos os tempos, Better Man. Em contraponto, Marisa Monte me inspirava a cantar. E eu descobria minha sexualidade assistindo Presença de Anita escondido dos meus pais. As relações interpessoais começaram a melhorar um pouco, mesmo quando eu fui advertida por agredir fisicamente um garoto com um lápis – tudo pra revidar, de forma infantil e pouco evoluída, a violência física e verbal de um pré-adolescente folgado. Eu descobri a maquiagem da minha mãe, morava em um condomínio onde, diferentemente da escola, as pessoas gostavam de mim com os meus defeitos e não me alertavam com fofocas. Ainda assim, preferimos ignorar os conselhos do meu antigo pediatra e não procuramos um psicólogo.

13 Reasons Why | Crédito: Divulgação
Quem nunca pensou em gravar uma fita de despedida pode se considerar um privilegiado – ou um por quê | Crédito: Divulgação

A quinta e a sexta séries foram relativamente tranquilas. Até que na sétima, eu comecei a enumerar alguns porquês. Algumas fofocas se alastravam sem que eu tivesse controle – e muitas vezes conhecimento – sobre elas. Eram intrigas de que “você está imitando a Fulana” (sendo que essa pessoa qualquer era tudo que eu não queria ser na minha vida) e mentiras sobre “Você falou mal de Cicrana” (sendo que eu nunca havia me interposto entre as frases que eram atribuídas a mim). O alvo do meu suposto ataque não acreditou na minha defesa. Eu passei a escutar coisas como “Eu não gosto de você” – e aquilo foi pesando acima de mim. “Você finge ser o que não é, nem curte essas bandas de verdade”. “Sua risada é escandalosa e escrota demais”. “Você colocou aparelho e só faltou sair mostrando pra todo mundo da escola” (eu mal abria a boca de vergonha do sorriso metálico). “O Fulano só faltou deitar no chão de tanto rir por causa do seu alfinete na orelha”. “Nossa, como o seu cabelo está ridículo”. “Você está usando boné só pra imitar a Fulana, não pode!” (boné é patenteado). “Credo, você vai em shows dessa banda?”. “Você é poser, essas bandas não são pra você”. “Quem você está pensando que é?”. “Sua roupa não está legal”. “Eu sou sincera, falo tudo na cara. E você não é minha amiga e eu não gosto de você”. “Eu sou barraqueira mesmo, não chega perto de mim se não você vai apanhar”.

Foda-se.

Dois anos se passaram e eu acreditava que as coisas podiam melhorar. Mas esses comentários continuavam me atormentando. Agi errado e por impulso muitas vezes, porque sou um ser humano e não estou imune a isso. Quem sofre bullying não está completamente alheio a atitudes impulsivas e erradas. Mas quando fofocas são postas no seu colo sem que você possa intervir na mentira, isso te afeta e te torna impotente. Você sente que sua força se esvai. Me apaixonei pela primeira vez em anos e escutei desse paquera que ele “ia ficar com a Fulana”, mesmo quando ele já sabia dos meus sentimentos. Eu não entendi nem um pouco quando ele interrompeu um flerte pra anunciar que queria beijar justamente uma das meninas que mais faziam fofocas ao meu respeito. Doeu feio. E eu me desequilibrei.

Me isolei porque me sentia mais segura passando intervalos com livros e me sentando no banco da frente da perua escolar, ouvindo meu MP3, do que no meio da roda das fofocas que tanto me faziam mal. Comecei a conversar com pessoas tidas como nerds e fracassadas, e me surpreendi com o tanto de coisas boas aquelas pessoas tinham por dentro, e que nenhuma fofoca ou piada maldosa realmente poderia defini-las. Vi pessoas que tocavam instrumentos, que sonhavam com carreiras sólidas e complexas, que tinham planos incríveis para o futuro e ambições deliciosas de se ouvir. Entre uma conversa e outra, acabei me afeiçoando a duas garotas que, amigas inseparáveis, me deram abertura para passar os intervalos com elas, ao invés de me isolar dentro do meu já conhecido mundo interior. Durou duas semanas, tempo suficiente pra que elas me abordassem e dissessem que preferiam que eu não ficasse tão próxima assim, porque eu já começava a incomodar aquele mundo de amizade que elas mesmas haviam construído só entre elas.

Foi a primeira vez que pensei em suicídio. A vez onde eu senti que, não importava o esforço que eu fizesse, jamais seria considerada uma persona insubstituível na vida de alguém. Eu não era bem quista nem com os meus supostos novos amigos. O que eu tinha de valor?

Me fortaleci com palavras escritas em segredo, músicas grunge no conforto do meu quarto, diálogos no colo da minha família. A serenidade do meu pai, o carinho da minha mãe, a alegria da minha irmã e o barulho gostoso das patinhas do meu cachorro passeando pelo apartamento me davam a certeza de que eu não poderia interromper meu ciclo e de que havia muita coisa que eu poderia realizar. Verbalizei, pela primeira vez em muitos anos, que eu precisava mudar de escola. Não conseguiria fazer o Ensino Médio e sacrificar meus planos da universidade no meio de tanta falta de concentração provocada por intrigas, desentendimentos, fofocas, bullying e piadas de mau gosto. E foi aí que tudo mudou. E a Hannah Baker saiu de dentro de mim para devolver a identidade sonhadora da Camila que, por pouco, não se perdeu nas orações vazias daquela escola católica.

O que me salvou – e poderia ter salvado a Hannah

13 Reasons Why | Crédito: Divulgação
Como a gente torceu por esses dois! | Crédito: Divulgação

Como vocês já puderam perceber com o desabafo desse texto, a série me engatilhou. Eu tive um sentimento profundo de tristeza vendo cada uma das cenas que falavam sobre solidão, sobre o sentimento de insignificância e os pensamentos constantes de morte. De que, talvez, o mundo fosse melhor sem a minha presença. No meio desses conflitos aparentemente inofensivos, eu já havia experimentado horas e horas sem comer, arranhava a minha pele nas minhas crises de choro para provocar dor em mim mesma, me forçava a vomitar a comida, me sentia reduzida aos comentários de que eu não era bonita e magra o suficiente, mesmo quando tudo me apontava que as coisas estavam dentro dos conformes (minha saúde era ótima e não tinha nada de errado com a minha aparência). Eu não desenvolvi algo pior no campo da automutilação e da bulimia porque minha mãe interviu, mesmo que indiretamente e sem saber de muitos detalhes que se passavam na minha cabeça. As fofocas faziam com que eu me sentisse culpada, mesmo sabendo que não era eu aquela pessoa que tantas adolescentes desequilibradas procuravam definir. Eu era algo mais. E felizmente descobri isso a tempo.

Quando eu mudei de escola, eu experimentei já no primeiro dia de aula o que eu nunca havia conseguido sentir em anos e anos dentro do Carandiru Infantil e Católico. As pessoas puxavam assunto comigo, me poupando de tomar uma iniciativa sacrificante para uma timidez mal trabalhada. Eu criei o hábito de tirar as dúvidas que eu tinha sobre as matérias nas quais tinha mais dificuldade, porque os professores criaram uma abertura muito maior e que me permitia sentir que minha pergunta era importante, e não a personificação da estupidez estudantil. Meu jeito fechado e as respostas ríspidas viraram uma piada gostosa na boca dos meus colegas, e eu senti que meus defeitos eram bons. Que ser a pessoa que eu era podia ser divertido. Que os textos que eu escrevia emocionavam o professor de artes e redação, que meu gosto por leitura podia se transformar em blog e diários, que eu não precisava ter vergonha de gostar das minhas músicas. Eu tinha o melhor corpo docente do planeta. Os melhores amigos que eu poderia sonhar. Um ambiente onde se respeitavam as diferenças, mesmo com tanta bagunça. Eu podia descarregar um dia ruim nas aulas de teatro. Podia optar por ginástica ao invés de jogar um vôlei desengonçado na aula de Educação Física.

13 Reasons Why | Crédito: Divulgação
Você não sabe o peso que uma atitude estúpida pode ter na vida de alguém. Não seja um por quê | Crédito: Divulgação

Esse ambiente tranquilizador e acolhedor é o que faltou para Hannah, e para tantas outras meninas e meninos que passam por situações semelhantes. Mesmo na escola infantil, com tantas coisas ruins acontecendo, eu podia ter colo com os amigos dos condomínios onde morava, o que aliviou o sentimento horrível de menos valia que eu tinha. Mas essa mudança foi fundamental pra mim. Dentro da nova escola, no segundo dia de aula, a lembrança que se cravou na minha memória foi a de uma menina morena, de cabelos cacheados e sorriso fácil me dizendo: “Ah, não! Você não vai passar o intervalo sozinha. Bora dar uma volta aí!”. Essa pessoa se tornou uma ótima psicóloga, a quem eu recorri quando tive crises de depressão recentemente para tirar dúvidas sobre psicoterapia. E foi nesse mesmo ambiente que me afeiçoei por uma ruiva e por uma moça branquinha de cabelos castanhos (minha melhor amiga até hoje), que fizeram cada segundo ali valer a pena. O significado de amizade tinha alcançado um novo valor, sem o peso de fofocas e piadas de mau gosto. Até hoje, mantenho contato com muitas pessoas que transformaram meu conceito de ambiente escolar. E viveria tudo outra vez com eles. Aquilo realmente valeu a pena.

À Hannah, realmente faltou alguém que tocasse um “chega pra lá” nas fofocas maldosas e estendesse a mão para mostrar que ela não estava sozinha. Faltou a interferência dos pais nas atividades rotineiras, já que o tempo todo vemos pouca participação deles no cotidiano da filha e nas atividades escolares – nada que ultrapasse o trivial e, por consequência, uma ausência de interferências e limites impostos. Faltou um acompanhamento e campanhas rígidas da escola contra o bullying, além de promover atividades inclusivas, palestras sobre a importância de falar sobre depressão e suicídio na adolescência. O cenário é, infelizmente, recheado de muitos erros presentes no nosso cotidiano, aqui do lado de fora e na vida real.

A série como um todo – análise e crítica

13 Reasons Why | Crédito: Divulgação
’13 Reasons Why’ peca em alguns momentos, mas acerta na mensagem final | Crédito: Divulgação

13 Reasons Why é a adaptação de um livro publicado pelo autor norte-americano Jay Asher e cuja primeira edição data de 2007. Assim como retratado na série, o pano de fundo é um caso triste de suicídio na adolescência, na qual a sua protagonista, Hannah Baker (vivida com competência pela jovem australiana Katherine Langford), grava treze fitas antes de cometer o ato explicando os motivos que a levaram à desistência total.

De um modo geral, a série tem mesmo uma abordagem infanto-juvenil e, no início, apresenta os motivos da adolescente de uma forma pouco aprofundada, o que leva o espectador a se perguntar se realmente houve algum ponto forte do roteiro que justificasse sua morte. Aqui está onde a série pecou, já que Hannah Baker, além de problemas interpessoais na escola, também tinha nítidos problemas psicológicos, tais como tendências à depressão e à ansiedade. A falta de um delineamento psicanalítico da história como um todo traz essa dúvida perigosa e que não deveria acontecer em nenhum momento, já que o suicídio é uma pauta que choca e necessita da conscientização firme de que qualquer atitude estapafúrdia pode interferir seriamente na qualidade de vida de alguém – como eu mesma relatei com a minha experiência dolorosa de infância acima.

O acerto, no entanto, se deu primordialmente com o desenrolar lento de fatos importantes, que provocam um impacto e tanto com os motivos de perseguição, fofocas e, por fim, estupro e automutilação resultantes em suicídio. O papel de Dylan Minnette como Clay Jensen é um acerto, já que o personagem provoca expectativas quanto a suas atitudes e uma forte empatia com seu jeito carinhoso. Aqui, ele surge como um potencial ‘salvador’ se não fosse por um porém: ele também está nas fitas. Os motivos são, enfim, uma das descobertas mais tristes da série, a personificação de como a personagem principal realmente se sentia isolada e despedaçada por dentro.

Ainda, nem todos os personagens citados por Hannah em sua trajetória são plenos vilões. Aqui, figuras como Zach Dempsey (Ross Butler), Sheri Holland (Ajiona Alexus) e Ryan Shaver (Tommy Dorfman) mostram-se como pessoas de alma grandiosa, mas que tiveram escolhas erradas na hora errada – como todos nós temos. A atriz Amy Hargreaves foi um dos pontos altos da série no papel de Lainie Jensen, a advogada e mãe de Clay. Entre outros aspectos técnicos, a trilha-sonora casa perfeitamente com a história. Além disso, a escolha variada de atores valeu como um ponto positivo e tanto, já que ela quebrou muito com o protocolo primordialmente branco ao mesclar personagens de diversas etnias (as belas atrizes Ajiona Alexus e Alisha Boe, que vive Jessica, são ótimos exemplos disso).

13 Reasons Why | Crédito: Divulgação
A desistência pode ser evitada – e ninguém merece conviver com essa dor | Crédito: Divulgação

Para além do burburinho provocado sobre o suicídio, que estendeu os debates até os mais recentes casos atribuídos ao polêmico e questionável jogo da Baleia Azul, a série também foi duramente criticada por desrespeitar algumas recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) quanto à abordagem do tema. Uma delas foi a encenação escancarada, violenta e sem cortes do ato final da morte da protagonista, o que quebrou com a indicação de evitar cenas do tipo, sob o risco de choque e encorajamento de quem sofre com pensamentos destrutivos, e de atribuir culpados para a consumação de um suicida. Aqui, tenho as minhas ressalvas: muitas vezes, para falar sobre um assunto sério e arriscado, como é o suicídio (um caso que precisa ser debatido amplamente, já que representa riscos extraordinários e é de interesse da saúde pública) há que lançar mão de recursos sonoros e visuais diretos – um choque que escancara a realidade e, apesar de nem sempre ser recomendado, nesse caso se faz necessário. Além disso, nem sempre um suicida tem seu pensamento completamente relacionado a assuntos pessoais e associado a sérios transtornos psicológicos – e aqui vale o recado: uma atitude extrema, um ato falho, uma invasão de privacidade e uma violência, seja ela verbal ou física, pode, sim, ter o poder de empurrar alguém para o abismo. Um suicídio pode, sim, ser um assassinato indireto. Nunca, em hipótese alguma, queira ser um dos responsáveis. Não seja na sua vida um ‘porquê’ trágico da vida de alguém.

De uma forma geral, a série cumpre com o prometido e vale, sim, o seu burburinho. Ela chama a atenção para algo importante, que precisa ser discutido e evitado. O cuidado fica aos supostos gatilhos: se, de início, parecem faltar motivos para que Hannah Baker deixe esse mundo, o retrato cru do ambiente hostil escolar, das relações falhas e agressivas e de violências horrendas pode despertar em você um sentimento de familiaridade com um passado que você preferia que nunca tivesse acontecido, como foi o meu caso. Se insistir, tenha em mente que é importante ter alguém pra conversar, uma atividade pra te distrair e um consolo de que tudo passou e passa. Você não está sozinho. E é uma tristeza enorme saber que outras Hannahs não tiveram a oportunidade de descobrir isso.

Seja, você, um transformador do bem. Um porquê de ascensão, ao invés de destruição.

VAI LÁ
13 Reasons Why
Série Original Netflix
Autor Original da Obra Literária: Jay Asher.
Criação e Realização: Brian Yorkey.
Elenco: Katherine Langford, Dylan Minnette, Christian Navarro, Brandon Flynn, Alisha Boe, Justin Prentice, Miles Heizer, Ross Butler, Devin Druid, Amy Hargreaves, Kate Walsh, Derek Luke, Bryan D’Arcy James e mais.
Roteiro: Brian Yorkey, Diana Son e Elizabeth Benjamin.
Direção: Kyle Patrick Alvarez, Carl Franklin, Gregg Araki, Helen Shaver, Jessica Yu e Tom MacCarthy.
Produção: Selena Gomez.
Produção Executiva: Tom McCarthy, Selena Gomez, Michael Sugar, Steve Golin, Diana Son e Brian Yorkey.
Classificação Final: ♥♥♥♥ (Muito Bom).

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2 Comments Add yours

  1. Tati says:

    Minha opinião sobre o seriado é igual a sua.
    Também tenho alguns porques na minha vida, e também me é doloroso falar sobre o assunto.
    E que bom que você teve ajuda de pessoas maravilhosas e conseguiu seguir em frente.

    1. camilahonorato says:

      Oi, Tati, obrigada pelo seu carinho! O que me dói é saber que muitas pessoas não conseguem o privilégio de receber essa ajuda. Então tudo o que está ao meu alcance para ajudar, propagando informações, eu faço com o maior prazer. Eu imagino que tenha sido doloroso demais pra você os porquês. Mas a gente é maior que essas atitudes horríveis e se reergue. ♥ Um beijão!

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