Crítica de Cinema: “A Bela e a Fera” leva um pedacinho da Broadway para as telonas

Quem nunca se emocionou com algum clássico da Disney que atire a primeira pedra. Ainda que existam polêmicas com a necessidade de se retratar princesas tão dependentes de príncipes, fadas e finais (quase) felizes, é inegável que o estúdio sempre foi referência na produção de animações bem construídas, repletas de frases de efeito e músicas bem elaboradas, que grudam na cabeça.

Talvez um dos maiores trunfos da companhia de seu fundador, Walt, tenha sido a adaptação de um antigo conto francês, cuja primeira versão é atribuída à escritora Gabrielle-Suzanne Barbot. Ao longo dos anos, a história ganhou diferentes adaptações até chegar no formato que conhecemos hoje e, em 1991, ganhar uma premiada animação, levando pra casa duas estatuetas do Oscar (Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original), três Globos de Ouro (Melhor Comédia ou Musical, Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original) e cinco fucking Grammys, além de indicações importantes como a de Melhor Filme. O sucesso foi certeiro, eclodiu entre crianças, adolescentes e adultos do mundo inteiro e, posteriormente, passou a ocupar os palcos grandiosos da Broadway em uma peça que seria importada para os teatros mais grandiosos do mundo inteiro.

Bela (Emma Watson) tem uma relação linda com o pai, Maurice | Crédito: Divulgação
Bela (Emma Watson) tem uma relação linda com o pai, Maurice (Kevin Kline)| Crédito: Divulgação

Falar de A Bela e a Fera é também retomar certas polêmicas quanto aos aspectos contraditórios das princesas Disney e sobre as acusações de que o conto seria um endeusamento da chamada Síndrome de Estocolmo, onde a vítima passa a nutrir simpatia e até amor pelo seu agressor (aqui, ele assumiria o papel de sequestrador). Aliás, como uma atriz tão feminista e engajada quanto Emma Watson poderia assumir o papel de uma princesa frágil e que vive sob esse manto sombrio? Na minha concepção, Emma não poderia estar mais certa ao aceitar o papel dessa protagonista – e a nova adaptação para os cinemas acertou em cheio ao atualizar a força de Bela e manter tudo o que mais encantou na animação de 26 anos atrás.

Minha primeira concepção é a seguinte: Bela não é e nunca foi uma princesa frágil que está à procura de um príncipe encantado e que precisa ser salva de algum cotidiano extremamente desconfortável. Diferentemente da maioria dos contos de fadas, a Bela e a Fera foi, aliás, escrito por uma mulher e dá uma voz mais firme à princesa protagonista. Ela é, aliás, uma pessoa simples, amorosa, que vive com o pai inventor, possui uma personalidade livre e à frente do seu tempo e, além de tudo, sabe muito bem se defender sozinha das investidas de um sujeito machão, machista, convencido e insuportável (leia-se Gaston). Seu traço mais marcante é a leitura constante, o ar culto e os sonhos de se mudar da pacata vida do interior, sem nunca ter imaginado que alguém chegaria para salvá-la disso, mas sim assumindo inteiramente a responsabilidade de batalhar pelo o que deseja. Tanto aqui como no conto de Gabrielle a personagem central tem uma postura firme e sabe fazer suas próprias escolhas. Aliás, para mim e para muitas meninas, a Bela era um exemplo a ser seguido no desenho justamente pela paixão que tinha pelos livros – característica com a qual muitas pequenas sonhadoras acabam por se identificar. Além disso, que moça nunca se sentiu uma estranha no ninho, um pequeno pontinho fora da curva e com vontade de ter muito mais pra sua vida, sem abrir mão de si mesma? Isso é coisa de mulheres fortes e desafiadoras!

Cena de
Os objetos animados de “A Bela e a Fera” poderiam ter ficado um exagero. Mas o resultado foi fascinante! | Crédito: Divulgação

Aqui na nova adaptação, Bela tira as sapatilhas para calçar botas e compartilha com o pai, Maurice (o ótimo Kevin Kline), a paixão pelo ofício de inventora e de se arriscar em belos trabalhos manuais. Ao assumir sua posição como prisioneira da Fera (vivida por Dan Stevens e com bons recursos de computação gráfica) no castelo, ela aparece ainda mais desafiadora do que na versão original da animação, criando formas de escapar do castelo e tendo desentendimentos mais escancarados com o príncipe enfeitiçado. A essência, no entanto, permanece no longa metragem dirigido por Bill Condon, que acerta em cheio na afinação do elenco (com vozes bem bonitas e aparições surpresas de Ewan McGregor, Emma Thompson e Ian McKellen), no figurino e nas tomadas escuras que preservam a melancolia e o romantismo da história. Basicamente: o trunfo do filme está em manter a essência da animação com toques deliciosos da música e do encantamento vistos nos palcos da Broadway. A montagem, por fim, se aproxima mais do feito conquistado por O Fantasma da Ópera de 2004 (dirigido por Joel Schumacher e com um surpreendente Gerard Butler no papel principal), transmitindo um bom musical nas telas, do que das recentes live-actions da companhia – e passa facilmente com um rolo compressor em cima de adaptações recentes como Alice no País das Maravilhas e Cinderela.

Das provocações à cumplicidade:
Das provocações à cumplicidade: “A Bela e a Fera” é uma lição sobre a transformação do amor | Crédito: Divulgação

Defendendo a personagem: não há nada de Síndrome de Estocolmo, já que não há agressividades diretas notadas pela Fera e nem mesmo um papel intenso de sequestrador, o que me faz questionar de estamos mesmo problematizando as questões certas em pleno século XXI (bora cutucar o que incomoda de verdade, minha gente?). Aqui, a relação dos dois é mais pautada nas provocações, que, por vezes, ganham traços cômicos, do que na agressão verbal e na intimidação. Aliás, nenhum dos ataques de raiva da Fera parece afetá-la diretamente. A personagem assume a culpa por um suposto erro do pai, mas nunca tem sua liberdade verdadeiramente maculada e retorna ao castelo duas vezes por livre e espontânea vontade: uma para cuidar dos ferimentos da Fera depois de um ataques de lobos e a segunda para libertá-lo, juntamente com seus criados, das invasões lideradas por um ciumento e dolorido Gaston. Aliás, o papel de Luke Evans (novamente dando vida a um personagem de fábulas, como visto em O Hobbit: Uma Jornada Inesperada e em Drácula: A História Nunca Contada) merece destaque, já que o ator cumpre bem a sua função. Além disso, a inserção de dois personagens homossexuais na história, sendo um deles o parceiro de Gaston, Le Fou, foi uma manobra bem acertada e abordada, assim como a inserção de personagens de diferentes raças. Dentre eles, destaca-se a afinadíssima atriz Audra McDonald como o da soprano/Guarda-Roupa.

Ah, que fofurice! ♥ | Crédito: Divulgação
Ah, que fofurice! ♥ | Crédito: Divulgação

Ao contrário do que algumas críticas podem fazer parecer, a live-action de A Bela e a Fera acerta ao preservar sua animação e encanta mostrando como os personagens do desenho ficam como atores de carne e osso. Números musicais como o da abertura do longa e o do jantar encantam com seus efeitos e riqueza de detalhes. A preservação histórica do figurino e da maquiagem são outro acerto, já que o espectador é nitidamente levado para o século XVII na França.

A graça dos elementos novos dados ao filme ficam por conta do longa metragem francês de 2014, com os ótimos Vincent Cassel e Léa Seydoux nos papeis principais. A esse, cabe o trunfo de levar aos fãs o gosto que é finalmente ter um de seus desenhos preferidos da infância ganhar contornos da vida real. E deixar a imaginação voar ainda mais!

VAI LÁ:
A Bela e a Fera (2017).
Direção: Bill Condon.
Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Kevin Kline, Josh Gad, Ewan McGregor, Emma Thompson, Audra McDonald, Ian McKellen, Stanley Tucci, Gugu Mbatha-Raw, Hattie Morahan, Adrian Schiller, Gerard Horan, Lynne Wilmot, Michael Jibson.
Roteiro: Evan Spiliotopoulos e Stephen Chbosky.
Trilha Sonora: Alan Menken.
Produção: David Hoberman, Todd Lieberman e Don Hahn.
Classificação: ♥♥♥♥♥ (Excelente).

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