Resenha Literária: “Como Eu Era Antes de Você”, de Jojo Moyes

Best seller, com milhões de exemplares vendidos ao redor do mundo, muitos fãs apaixonados e uma adaptação cinematográfica a caminho. Olha, posso falar? Quando a gente entra pro mundo da comunicação e estuda com os mais diferentes tipos de assuntos e pessoas, muitas dessas coisas que encantam muita gente acaba ficando em segundo plano. E por quê? Porque bem: a gente acha bom questionar tudo e torcer o nariz para o que todo mundo gosta. E eu posso falar? Essa é a coisa mais idiota que um jovem, ou qualquer outra pessoa, pode fazer na vida.

Conheci Jojo Moyes, a autora aclamada de Como Eu Era Antes de Você, só recentemente. Eu olhava pra capa do livro, achava a sinopse fofa e nunca tomava impulso pra levá-lo pra casa. Nunca tive problemas com livros assim, que vendem aos montes. Nunca mesmo. Sempre amei ler e acredito que, como muitas coisas na vida, esse é um ramo que temos que nos dar a oportunidade. Sempre comprei best sellers porque acho que vale a pena conhecer, e um deles pode te prender e realmente te fazer sonhar com coisas boas. É pra isso que eu acredito que a leitura sirva, primordialmente.

Eis que um dia me rendi. E me surpreendi com essa escritora inglesa, que também já foi jornalista, com sua criatividade e sua narrativa madura. O texto é envolvente, sem muitos floreios e com conflitos se desenvolvendo em poucos capítulos.

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Eu, toda feliz, segurando esse livro fofo na mão ❤ | Crédito: Camila Honorato

A essa altura do campeonato, muita gente já deve ter ouvido falar do livro. Mas antes que ele ganhe mais plateias com o filme que está pra estrear (com a fofa da Emilia Clarke e o fofo do Sam Clafin, dois atores que admiro e gosto muito), vou explicar pra algumas pessoas que não o conhecem sobre o que se trata. A história centraliza em Louisa Clark, uma garçonete sem muitas ambições e que mora com a família inteira em uma casinha simples em uma pequena cidade da Inglaterra, e em William Traynor, um ex-empresário rico e poderoso que vê sua vida mudar completamente ao sofrer um acidente com uma moto, que o deixou tetraplégico.

A vida de ambos muda quando seus caminhos se cruzam. Ao perder o emprego, Lou se vê obrigada a repensar sua vida com as poucas oportunidades que suas escolhas lhe trouxeram. Um namoro raso e com pouco companheirismo. Uma vida pacata e sem grandes ambições. Sem muitas qualificações, ela acaba sendo contratada por Camila Traynor, mãe de Will, como uma cuidadora especial. Em suma: suas funções são entreter e animar a vida de um homem que perdeu a vontade de fazer qualquer coisa, que tem um humor difícil de lidar e cuja língua afiada parece ter uma resposta pronta pra tudo.

O livro tem muitas coisas boas, além de momentos verdadeiramente emocionantes. A impressão que eu tive, antes de tudo, é de como a vida de pessoas tetraplégicas e com outras delimitações físicas é difícil, não só pela adversidade em si, mas pela falta de serviços públicos de qualidade que possam facilitar a locomoção e até seu entretenimento. Pessoas públicas brasileiras que sofrem com isso, tais como o escritor Marcelo Rubens Paiva e a psicóloga e política (e maravilhosa) Mara Gabrilli, denunciam frequentemente a dificuldade de andar com suas cadeiras em lugares públicos, além das instalações escassas em diversos setores.

É fato: o mundo precisa aprender a lidar melhor com a deficiência, porque não são poucas as pessoas que tem essas limitações. Elas precisam de espaços de qualidade, elas têm o direito de ter acesso a shoppings, museus e motéis como qualquer pessoa. São cidadãos, ora essa! É um absurdo ver coisas como calçadas mal cuidadas, espaços com pouca ou nenhuma facilidade. Mas principalmente, o que me deixa mais abismada, é a falta de compaixão das pessoas. Compaixão é muito diferente de ter pena. Compaixão é uma coisa boa, que alimenta coisas boas e nos faz evoluir. Sem a compaixão, nós retrocedemos e dificultamos nossas relações com as pessoas, nosso entendimento da vida e de suas adversidades e boas motivações. A compaixão é uma das qualidades fundamentais que nos movem. E se você fecha os olhos diante de uma pessoa que tem dificuldades de entrar em um ônibus, por exemplo, é porque tem alguma coisa errada.

Uma vez eu presenciei a dificuldade de um cadeirante de subir em um transporte público, mesmo com o suposto acesso facilitado que o mesmo tinha. Além de uma plataforma muito mal cuidada, ainda tinha o agravante de pessoas quererem atravessar sua entrada, por causa da pressa e de outra baboseira qualquer. Fiquei olhando indignada juntamente com outras pessoas que tentavam puxar a cadeira e conduzi-lo para o espaço certo, enquanto um bando de condenados bufava porque não conseguia sair do ônibus e outros saiam contrariados do espaço e da cadeira RESERVADA (ênfase forte aqui) para deficientes físicos. Pelo amor de Deus, né gente.

Outra reflexão que o livro deixa é sobre enfrentar os baques fortes e difíceis que a vida nos dá. Não pretendo dar grandes detalhes pra não estragar as surpresas, prometo. Mas logo de cara, fica muito claro que Will fora uma pessoa intensa, que amava viajar, praticar esportes, trabalhar, viver. Um acidente pode ser algo extremamente complicado de se lidar, assim como tantas situações complexas e que não estão no nosso alcance, que não conseguimos racionalizar. E nisso você pode incluir outras doenças, como câncer, depressão, e tantas outras coisas que mudam completamente os rumos de nossas vidas.

Eu vejo muitas pessoas dizendo: “Mas poxa, como é que fulano de tal se entregou assim? Como é que essa pessoa não reage, não consegue viver a vida e se reerguer?”. E aí a gente se depara com outra situação extremamente complicada: a falta de empatia com o sofrimento dos outros. É muito fácil apontar o dedo e criticar, apontar a pessoa como fraca, sentir revolta pela aparente falta de reação. Mas e quando se trata se oferecer ajuda, erguer a mão e perguntar: como posso ser útil? Posso ajudar você em alguma coisa? Posso te trazer alguma coisa ou fazer algo que possa te acalentar? Eu costumo dizer o inverso do ditado: de más intenções, o inferno está cheio. Porque algumas coisas são complexas, exigem um desembaraçar de nós muito mais intenso. E não cabe a ninguém julgar.

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Foto de divulgação do filme Como Eu Era Antes de Você, com roteiro da própria Jojo Moyes e estrelado pelos fofos Emilia Clarke e Sam Clafin | Crédito: Divulgação

A autora também propõe uma ideia bacana, segundo o que eu interpretei e refleti. Essa ideia bacana é a da ambição. E quando eu digo ambição não estou falando em riqueza, porque muita gente infelizmente associa esse termo a luxos e até a coisas ruins, como se o “ser ambicioso” fosse sinônimo de fazer qualquer coisa para conseguir o que quer, invejar o que o outro tem pra conseguir melhor.

Eu me pergunto quando a ambição se tornou tão mal falada. Imobilizado pela cadeira e pessimista, mas com pequenos pontos de sede de vida ainda enterrados dentro de si, Will fica impressionado com a falta de ambição de sua cuidadora e de como ela tem uma imagem distorcida de si mesma. Como não consegue enxergar sua inteligência, como não consegue projetar sua vida para algo diferente de morar em um cubículo com a família inteira e assistir ao namorado atleta falar sobre si mesmo.

A ambição muitas vezes está associada a querer tomar um café em uma cidade bacana, em sonhar com mergulhos em um mar aconchegante, em estudar sobre algum tema que lhe faça bem e desperte o seu interesse – e que, veja bem, nem sempre está associado a um diploma. Aliás, isso é o que menos importa. Ambição é uma coisa que também está ligada a buscar pela própria felicidade e melhorar a qualidade de vida.

Em resumo: o livro é, antes de qualquer coisa, uma história de amor. Não uma história de amor idealizada, mas um amor como a própria essência o define: complexo, cheio de camadas a serem desvendadas. Mas, acima de tudo, acolhedor, forte, companheiro. O amor que define o livro não é meramente sonhar com alguém que tome as rédeas da sua vida e que torne tudo um mar de rosas pra você. Isso é um amor idealizado que não condiz com a realidade. Jojo Moyes teve a delicadeza de mostrar que o amor está em pequenas atitudes que façam a diferença, e até a impulsionar a pessoa que você ama a se bastar sem a sua presença.

É um livro onde dois personagens se completam de uma forma fascinante. Uma mulher com trejeitos atrapalhados, roupas excêntricas e um jeito divertido de falar, que traz um frescor novo a um homem que outrora tinha o controle de tudo em sua vida. É um livro sobre tantas coisas, com um realismo sutil e muitas mensagens ocultas de otimismo, apesar de tudo.

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A autora Jojo Moyes – uma escritora maravilhosa, criativa e que com certeza vai transformar seu dia | Crédito: Divulgação

Eu juro: é lindo! Vale cada parágrafo. E eu não vejo a hora desse filme estrear!

VAI LÁ
Como Eu Era Antes de Você (livro)
Autora: Jojo Moyes
Classificação: ♥♥♥♥♥ (Excelente)
Melhor lugar pra comprar: Submarino

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