Memórias de Confinamento #3 – Au Pair

Eram seis horas da manhã quando eu ouvi a porta do teu quarto se abrir. Duas horas antes, eu já estava insone. O bolo na minha garganta – o sinal da minha tensão frequente por ter você sempre em casa – já me deixava em estado de alerta.

O medicamento que passei a tomar, sem a sua aprovação, já começa a fazer efeito. Eu me sinto em um misto de agonia e alívio, a serotonina bagunçada aos poucos organizando a casa. Estou insone e, às vezes, sinto angústia. Excesso de pensamentos que me invadem, em um efeito colateral que, a bem da verdade, só quem está precisando muito de ajuda sente.

Sento na cama em posição de meditação, notando que o tremor que tanto me acompanhava dias atrás cedeu. A ansiedade latente que eu sentia, pensando em você e nas minhas paixões confusas e incertas, vai me deixando. Me sinto mais consciente, e isso me deixa à par do desconforto físico que as crises e ameaças de pânico me causam.

Antes de meditar, escuto seus ruídos na sala me dizerem que você já está de pé. Para as sessões de Yôga, que você sempre fez pela manhã, enquanto eu cuidava da sua filha, para o seu trabalho… Isso já não me interessa. Ponho os fones de ouvido para escutar ruídos do mar. Meu corpo relaxa e eu respiro. Acendo um incenso, sabendo o quanto este cheiro perfumado te desagrada. Não me orgulho, mas aceito que, inconscientemente, isso é uma arma eficiente para te manter longe da minha porta.

Escuto agora barulhos na cozinha, que me dizem que você está preparando o teu café da manhã. A essa altura, me sinto relaxada o suficiente para escrever sobre você. A primeira vez que me permito admitir para mim mesma que colocar você no papel é uma ferramenta e tanto para te tirar do meu corpo. Do medo e do controle que você exerce sobre mim. Eu quero te colocar para fora da minha vida, calar todas as suposições falsas e estapafúrdias que você fez sobre mim, sem sequer me conhecer.

Sua “sabedoria” conveniente pode ter funcionado para iludir outras mentes inocentes que você manipulou. Trabalhar para você nunca foi um favor que você nos prestou. Tenha a santa paciência e recolha seus conselhos rasos.

Seus passos calçados e o movimento que você faz me dizem que você vai sair. Eu vejo que meu sufocamento cede mais com essa possibilidade – de você me dar um tempo. As chaves estão na tua mão, a porta se abre e você sai. Talvez para uma reunião imprudente enquanto o mundo se isola do que está lá fora para se proteger.

Responsabilidade com os outros nunca foi o seu forte, então pare de fingir uma ajuda que só serve para te beneficiar. Eu estou farta de você me controlar!

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