Poema: Precisamos falar sobre estrangeirismo

Precisamos falar de estrangeirismo.

Pois queriam tocar meus lábios
com uma língua excessivamente
afiada.

Percorreram a superfície
soprando cevada com palavras torpes
empunhando espadas contra a minha garganta.

“Brazilian butt just drive me crazy”.
“Gut gemacht, liebe Frau!”.

.

Eu não gozei.
Não conseguia gozar
com toques
tão superficiais.

Me doía na alma
a ignorância do intelecto
a desimportância do meu passado
a falta de curiosidade
de explorar os encantos cantados
que eu tanto apreciei
no sotaque da minha língua mãe.

.

E que saudades o colo materno me faz!

Aqui
na terra da bandeira de três cores
não me recordo do último
abraço que ganhei.
Do último gesto gratuito
de gentileza.

.

Querem sanar uma curiosidade
intensamente estereotipada.
Mal sabem que minha identidade paulistana
tende a buscar arranha-céus
acima do sol no litoral.

Em terra de colonizador
cada pedaço do meu estrangeirismo
sangra com as mordidas brutas
que deixam meus lábios, sexo e olhos
visivelmente inchados.

.

Queria me fazer notada
pelo idioma, sorriso e doçura.
Mas fui recordada pela curva acentuada
que eu nunca pedi para ter.

 

Deutschland 2019|2020
Eu sou “Ausländerin”, meu amor.

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