Memórias de Confinamento #2 – Despersonalização

Sinto meu corpo semi-consciente, como se eu estivesse aérea a ele.

Me sinto pairando, não realmente presente fisicamente, aqui ou lá. E essa sensação de estar fora, pendurada em algum tipo de zumbi, no qual ocasionalmente me transformei, me dá uma sensação absurda de estar prestes a morrer.

E se eu morresse agora?, pergunto. Teria idiomas na ponta da língua prontos pra se desenvolverem, porém interrompidos com uma partida brusca e não planejada. Seria enterrada juntamente com as viagens que não fiz, com as palavras que não li, com os lábios que não beijei. Não veria jamais um filho de meu ventre nascer, depois de tantos devaneios e idealizações de me tornar mãe. Não conseguiria publicar os livros que tantas vezes narrei para mim mesma, e também não conseguiria me aninhar no colo de amores que, a bem da verdade, sempre quis encontrar.

E a quase morte bate na respiração entrecortada, na náusea, no bolo que se forma na garganta e que me traz uma sensação inevitável de sufocamento…

Eu não posso morrer e não quero. Meu coração acelera como se eu estivesse prestes a ter um ataque. Um infarto, talvez. E eu luto contra essa sensação de morte. Uma luta que, por minutos que parecem uma eternidade, me trazem pânico.

Esses pensamentos que me invadem não são meus, eu sei. Prendo a respiração pra tentar oxigenar meu cérebro, e começo a melhorar quando solto o ar preso. Não quero provocar minha morte, devolvo para minha mente. Essa ausência de mim mesma sempre passa. Eu vou voltar pra órbita do meu corpo.

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Olho as unhas pintadas, as tatuagens expostas nos braços – as quais eu tive o maior cuidado ao escolher para me adornar. Pinto um cenário de jardins, praias, mesas compostas do café da manhã completo que minha mãe sempre teve o cuidado de preparar. Me sento de frente para a biblioteca que montamos em casa, sentindo minha cachorra me lamber, ouvindo o papagaio gargalhar, meus pais e minha irmã conversarem comigo. Já estive nesse buraco e saí. E vou sair de novo.

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Na varanda da casa onde eu me encontro, o sol bate e acalenta. É quase que quente, depois de meses e meses de ausência e timidez. A primavera chegou, estamos isolados por causa de um vírus. Um vírus que destrói a respiração, e eu confesso que já me perdi em pensamentos de morte com ele no meu organismo. Dizem que se parece com a sensação de afogamento. Se for um terço a mais ou a menos do que esse pânico que me acomete, eu sinto dez vezes mais pelas almas que se foram sob essa ameaça. É desesperador não respirar.

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Mas o sol está quente. Eu respiro algumas vezes e sinto a vitalidade voltando pelas minhas veias. Confesso: não sei por quanto tempo a consciência vai permanecer por aqui. Sinto medo de ter medo, medo de mais uma crise. Abraço a intensidade do medo, a indiferença no piloto automático pra fazer ações triviais, e me apego ao sopro de boas lembranças e planos que me mantêm de pé. Não foi antes que isso me derrubou e não vai ser agora.

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De pouco em pouco, eu me devolvo a mim. Quando me tiver completamente de volta, vai ser difícil me segurar.

Não vão. Não mais. 

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