Memórias de Confinamento #1

Eu posso dizer que nunca na minha vida senti um misto tão grande de emoções, em um intervalo tão curto de tempo. Nem mesmo quando meus primeiros sintomas patológicos de ansiedade me invadiram, nem mesmo quando fui diagnósticada com uma depressão severa, nem mesmo em momentos de grandes decisões pessoais.

Em uma fração de segundo, sinto meu humor ir do céu ao inferno: de um otimismo exacerbado até uma sensação de quase morte. Morte do meu intelecto, que de tão autossuficiente passou a misturar temas e significados; morte do meu corpo, que se move preguiçosamente para cumprir protocolos sociais de formas – e evitar pânicos consequentes do sedentarismo; morte da libido, calando impulsos de abraços, beijos e gozo em prol de um excesso de isolamento que jamais sonhei em ter. São essas e outras as tantas mortes e vidas que me visitam na beirada da cama, no espaço de quatro paredes que virou uma espécie de prisão domiciliar. Uma prisão para manter minha saúde intacta, preservar a saúde dos outros e evitar que mortes mais sérias e físicas venham a colapsar o mundo que até então eu conhecia.

Minha cabeça dói, e eu quase me convenço de que isso se deve ao excesso de pensamentos que me invade diariamente. As incertezas sobre o futuro me levaram, por mais de uma vez, a uma posição estagnada e fetal, na qual eu senti um enorme bolo na garganta que, por pouco, quase foi confundido com sufocamento. Saí do meu corpo, me despersonalizei, senti o ar sumir dos meus pulmões, tive pânico, acumulei noites mal dormidas e outras tantas insones… Nada foi como eu planejei, e o acordar preguiçoso do dia seguinte vem repleto de resignação.

Penso, então, no quanto eu sinto falta de casa. Do ar nublado de minha cidade-natal, do colo da família e de uma rotina consistente fora do ambiente doméstico. Mas então a instabilidade chega mais uma vez, e eu reflito que a mesma volta me causa pavor, pois minha cidade cinza me revela uma pátria que sangra debaixo de polarizações insanas e atos inconsequentes de um líder tolo. Queria que os desdobramentos fossem diferentes e promissores o bastante para que eu ansiasse plenamente em retornar ao seio de uma atmosfera outrora solar, mesmo em dias chuvosos. Para o meu sotaque de contornos poéticos e musicados, que tanto caracterizam a fala de todos aqueles pertencentes às mesmas raízes que me fizeram florescer.

E então, me chega mais um bruto despertar. Nessa terra germânica onde hoje habito, sigo apenas sendo uma estrangeira sonhadora – lutando por oportunidades, aprendendo ruídos de um idioma rude e lutando pela liberdade de um confinamento que, em uma escala global, soa tanto opcional como compulsório. Aqui, na minha pequena prisão, agradeço por pelo menos ser capaz de dormir em uma cama quente, ter uma pequena quantia em dinheiro na conta e comida na mesa. E essa mesma gratidão melancólica me fez ler livros diversos, em um volume anormal. Também me entretive com a sétima arte em links práticos na internet. Me permiti ouvir todo e qualquer tipo de música, como uma espécie de terapia acalentadora. Até mesmo, por fim, criei uma rotina de aprendizados diversos – da ciência da mente às linguagens diversas.

Mas falta. Andar solitário demais se revela como um ato maçante demais, resultando na percepção de que tamanha autossuficiência talvez seja uma grande inutilidade. Falta vida lá fora, e isso me traz um vazio ainda maior do que todos os pesadelos apocalípticos, que eu acumulei até hoje durante minha jovem vida, poderiam prever. Minha energia foi coletivamente acumulada para uma espécia de plenitude caseira, onde a única mudança vem dos cômodos ou de um simples esticar de pernas.

O fim do mundo nunca pareceu tão silencioso.

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