Sobre morar na Europa em tempos de Coronavirus

Não existem países perfeitos, economias perfeitas, culturas perfeitas e sociedades perfeitas. Sempre tive isso muito claro em mente antes de embarcar para o que tantas pessoas chamam de Primeiro Mundo, já esperando certos tombos e aprendizados que viriam com uma certa carga de dor. Desembarcar em um país considerado como uma das maiores potências econômicas do Velho Continente, vulgo Europa e vulgo Alemanha, me escancarou uma qualidade de vida gigante, mas também certos aspectos desconfortáveis como choques culturais e solidão.

Atualmente, essa última me deu uma certa dose de preocupação. Se você não está confinado em um sarcófago, notou que o mundo colapsou com a pandemia de Coronavirus, que se iniciou na China e espalhou-se pelos quatro cantos do mundo em uma velocidade impressionante. Segundo recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), a medida mais certa a se tomar é o isolamento, a fim de conter a velocidade dos casos de contaminação e evitar uma pane no sistema de saúde com a quantidade de casos a serem identificados e classificados como passíveis de tratamento em uma unidade hospitalar. Se antes a intensidade da solidão já me impactava (sobretudo pela falta da minha família), aceitá-la se tornou uma espécie de necessidade pelo bem coletivo. Não é fácil, mas abracei da melhor forma que pude.

Mercado em Munique, Alemanha, durante pandemia de Coronavirus | Crédito: Camila Honorato
Mercado em Munique, Alemanha, durante pandemia de Coronavirus | Crédito: Camila Honorato

A questão é: moro no país onde os números de infectados é alto, onde a contaminação também se espalha rapidamente. Aqui, o governo demorou para iniciar pronunciamentos e tomar medidas para conter o avanço da doença: alguns estabelecimentos e fronteiras foram fechados, escolas e universidades estão com aulas suspensas por até cinco semanas e por aí vai. Muito se criticou sobre a postura adotada pelo governo de uma forma geral, bem como atitudes da população vem sendo rechaçadas. Se as pessoas acreditam que um país como a Alemanha é um verdadeiro epicentro de coletividade, é porque não se deparou com as contradições comportamentais que vão desde a falta de gentileza no dia-a-dia em determinadas situações até a ausência gritante de papel higiênico e alimentos facilmente estocáveis em situações de emergência, como arroz e macarrão, nos supermercados. Não existe um consenso sobre o que verdadeiramente é uma cultura absolutamente coletiva, porque seres humanos são seres humanos em qualquer lugar do mundo. Todos os lugares têm suas falhas e pontos sensíveis.

Há muito, a sensação de isolamento ficou latente em mim pela questão do inverno: por razões óbvias, como extremo frio e chuva, saímos menos e passamos menos tempo do lado de fora. Tal comportamento, enraizado na cultura europeia durante o período, me afetou. Apesar disso, não hesitei duas vezes ao adotar a quarentena ao conversar com meus amigos mais próximos, alemães e brasileiros. Isso porque mais do que uma questão de cultura, a adoção de atitudes prudentes em um momento como esses reforça a nossa necessidade de voltarmos mais a sermos humanos, a pensarmos como uma comunidade.

Aqui em Munique, onde eu moro, sempre tem um lado A e um lado B: a atmosfera como um todo já é melancólica demais, o rosto das pessoas demonstra preocupação. Por mais eficiente e cheio de infraestrutura que o sistema público de saúde alemão seja, ele não está livre de burocracias, de falhar com acessibilidade em determinados casos e, mais do que isso, de não possuir uma quantidade adequada de profissionais e leitos em hospitais que possam atender uma quantidade grotesca de pessoas que viria a contrair o vírus ao mesmo tempo. Alguns bares e restaurantes se encontravam esvaziados antes mesmo das ordens impostas pelas autoridades, e as rodas de conversas se resumem a um só assunto. Ainda assim, parques públicos e mercados a céu aberto seguem extremamente frequentados, e eu tenho absoluta certeza de que uma quarentena total só surtiria efeito se as autoridades competentes forçassem a população a adotar tal medida.

Em Munique, na Alemanha, escolas foram fechadas e estabelecimentos esvaziados em tempos de pandemia de Coronavirus | Crédito: Camila Honorato
Em Munique, na Alemanha, escolas foram fechadas e estabelecimentos esvaziados em tempos de pandemia de Coronavirus | Crédito: Camila Honorato

Em resumo: estou em casa. Trabalho cuidando de crianças, e as mesmas estão sem ir para a escola. Dentro do círculo das famílias que convivem com a gente, nos revezamos para estar com elas, criamos uma rotina para que elas continuem estudando de casa (as escolas daqui oferecem um sistema online para monitorar lições e outras atividades). De minha parte, conforme discuti com pessoas do meu convívio, evito ao máximo sair: como convivemos muito perto, me locomovo somente de bicicleta sempre que preciso levar e buscar as crianças em algum lugar. Nada de transporte público (que, com a adoção do regime home office por uma parte considerável das empresas, e instituições de ensino fechadas, encontram-se bastante esvaziados). Sabemos que a situação lá fora preocupa, mas de pouco em pouco conversamos e trocamos mensagens para que a histeria, como essa da falta de artigos como o papel higiênico no supermercado, seja contida. Não sabemos se vai surtir efeito, mas fazemos nossa parte.

Passar pelo inverno fez com que eu me acostumasse a ficar só, então criei um ambiente domiciliar que me acolhesse. Separei livros, séries e vídeos com conteúdos informativos, sobre o Coronavirus ou não, para alimentar meu intelecto. Medito e faço yôga no meu quarto, vejo filmes de comédia, cozinho… Afinal de contas, é importante que eu me informe e informe outras pessoas, como cidadã e como jornalista, mas também não quero me estafar com discussões e informações, parar minha vida sabendo que manter a sanidade mental também é um dos pontos importantes em uma fase bomba como essa. E, mais do que nunca, me recuso a cair na atmosfera estapafúrdia de apocalipse. Podemos e devemos nos preocupar, mas devemos ser racionais e nos mantermos calmos para que isso passe de uma forma saudável. Quando o assunto é a convivência com famílias ricas europeias, então, nem se fala: eu realmente sinto prazer em ser reclusa nesse ponto, porque Deus me livre agir histericamente e estressar pessoas ao meu redor quando o momento pede união e calma.

O que mais diferencia estar nesse continente do que na minha terra natal é que, por questões diversas que vão de clima até a porcentagem da população idosa, o caos é muito mais certeiro por aqui. A atmosfera é triste, o silêncio é uma realidade. Mas a primeira mudança começa internamente, e como me equipei ao máximo com todas as técnicas possíveis e imagináveis para manter a calmaria, me surpreendi comigo mesma e com o otimismo que me invade. Afinal de contas, por mais caótica que seja, essa ainda é uma fase. Aprendemos com ela, extraímos o que mais importa, e seguimos nesse constante processo de aprendizagem. Tudo vai passar.

 

2 Comments Add yours

  1. Najyla says:

    Como você mesmo disse manter a calma e nos cuidar é o mais importante. Ter fé em Deus que tempos melhores virão. E näo sermos egoísta.

    1. Camila Honorato says:

      Sim. Exatamente ❤

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