De volta à superfície – e às palavras

Escrever sempre foi uma forma de arte associada aos meus momentos, fossem eles bons ou ruins, e a uma necessidade. Uma extensão da minha personalidade que eu quase poderia chamar como uma forma de sobrevivência.

Quando embarquei para a Alemanha, há cinco meses, tinha em mente que um programa de intercâmbio com horas cronometradas de trabalho por semana, e tempo livre e hábil para estudar e explorar mais a cultura de um novo país, seria uma escolha ideal também para tocar projetos pessoais e, finalmente, começar a estruturar ideias para que as mesmas saíssem do papel. Um projeto de empreendedorismo com comida, outro com educação, livros, rascunhos de trabalhos autônomos como jornalista… Eu literalmente tinha muitas coisas na minha cabeça e uma sede enorme de sair do contexto no qual eu vivia no âmbito pessoal e profissional para migrar para um novo rumo.

E então, três dias depois de desembarcar em terras estrangeiras, tudo começou a ruir. Um mês depois, eu tive meu primeiro grande episódio de ansiedade quando uma das coisas que eu mais temia aconteceu: fui expulsa da casa da primeira família anfitriã como au pair, depois de tanta entrega, compromisso e confiança. Contei com a ajuda de amigos e estranhos para concluir minha troca de família, passar do estado de expulsão para reabrigada, e de insone para confortável por, finalmente, dormir com a cabeça no colchão com a certeza de que eu tinha um teto pra morar. Tempos depois, mais uma expectativa ruindo e um balde de água fria sendo jogado sem ensaio em cima da minha cabeça: o programa não era, nem de longe, aquilo que eu tinha fantasiado e esperado. Não me resta o tempo livre que eu aguardava justamente porque minhas funções desempenhadas vão além. Meu processo de amadurecimento conta mais com tombo atrás de tombo do que propriamente introspecção e solidão.

Nesse meio tempo, passei por um bloqueio criativo enorme que me roubou toda a capacidade de desenvolver frases – por mais simples que elas parecessem ser no papel e no título que eu havia escrito na esperança de que, como já aconteceu vezes antes, as palavras jorrassem naturalmente e ganhassem vida própria. Isso teve muito a ver com a depressão crônica me rondando enquanto meu grau de insatisfação mexia com a minha tranquilidade. Aquela velha pergunta do “quem eu sou e o que exatamente estou fazendo da minha vida?” voltava com uma força fóbica. E, então, minha função mais valiosa ficou adormecida. Até agora.

Ponderei sobre o quão injusto é abrir mão de planos porque os mesmos não se desenrolam como o previsto. Eu não estava sendo legal com a pessoa que desembarcou na terra da bandeira de três cores, pois frustrava cada ideia com meu bloqueio de criatividade, desânimo, sensação de “vai servir de quê?”. Serve – e muito. Preciso dos meus sonhos, planos, ideias e movimento pra conseguir fazer todo o resto na minha vida girar. E então, meses depois de tanta estagnação intelectual, voltei.

Estou de volta aqui, e com certeza com muitas ideias na cabeça. Muitas pautas, crônicas e insights sobre essa vida de viagens, de morar fora – dessa vez, já que experimento tudo em uma escala enorme de intensidade, com mais foco justamente na estrada e no além-mar. E junto com isso, muitas ideias acabaram ganhando corpo (e todos os detalhes sobre os problemas gigantescos que um programa de au pair carrega, a partir da minha experiência humilhante, também irão, lentamente, vir à tona).

Que cada texto parido sirva de consolo, alerta, informação, entretenimento. Mas eu, definitivamente, voltei à superfície depois de quase me afogar nas palavras que eu não conseguia dizer. Morrer com ideia na garganta é inaceitável. Aceitar o erro calada é engoli-lo duas vezes.

Sigamos. Mais tristes, menos românticas, mas também mais fortes.

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