Crônica: Não perca a tua brasilidade (ou sobre a falta que o sol faz)

“Não perca a tua brasilidade”, minha mãe me disse hoje, em uma das muitas conversas que temos à distância. Foi uma dessas conversas onde eu desabafava sobre as farpas na língua de tantos alemães, sobre o gelo na rua, sobre a escuridão que se abateu no país.

O inverno bateu mais cedo nas portas do Velho Continente. Pelo menos pra mim, que enfrento minha primeira amplitude térmica verdadeiramente drástica. Antes de embarcar, um dos meus “amores” enfatizou repetidamente: “Pequena coruja, resista ao inverno”. Na ocasião, eu não sabia qual era a necessidade de me dizer isso tantas vezes. São poucos os meses até aqui, mas a sensação inquietante é a de que passaram-se anos, tamanha a quantidade de experiências.
“Corujinha, que seu inverno seja suave”. A essência da coruja hoje permanece desconfortavelmente adormecida: bloqueios criativos assombram os lapsos artísticos que antes me visitavam ao cair da noite, pois eu durmo cedo e acordo cedo com compromissos. Durmo e acordo no escuro, achando um quê de estranheza na luminosidade que antes me embalava. A coruja anda por aí, perdida, pois eu mais pareço um dos corvos corajosos que andam invasivos por essa terra, que tanto esconde histórias e mais histórias de destruição por trás de toda beleza. Será que essa escuridão é o fardo que se carrega pela obscuridade do passado?

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Não perder a brasilidade significa não sucumbir ao silêncio e à falta de sorriso. O nosso inverno é diferente: ele é político e decepcionante. Mas o vento que sopra aqui me lembra toda vez o quanto a brasilidade sempre encontra um motivo pra sorrir no meio da bagunça. Eu não posso perder minha essência, minha raiz… Me apeguei a temperos do que antes eu chamava de “minha cozinha” pra lembrar o quanto os cheiros das panelas me lembram aconchego. Preencho cada excesso de silêncio, daqueles breus sonoros que se tornam ensurdecedores, com músicas pra não sucumbir. Sucumbir a esse inverno que já bateu aqui, pois a escuridão é uma realidade dolorosa.

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O sol brasileiro vai além do astro. A escuridão alemã vai além dos fenômenos de luz. Nosso frio tem fondue porque nosso sol enraizado aquece com fogo cada lacuna de vento – e cada labareda que aquece comida e estômago vem do brilho do olhar de tornar cada rajada mais leve, suportável – a gente levanta os braços e tudo ganha contornos de abraço, de “vai ficar tudo bem”. Pra quem tem sol no sangue, vindo de raízes tropicais sólidas e mais privilegiadas do que deixamos transparecer, a falta de luz é mais intensa com a falta de receptividade. Os rostos nas ruas estão absortos na própria solidão, e a tristeza do clima gélido aumenta coletivamente a quantidade de vozes invasivas na cabeça. Essas pessoas são resistentes em furar a bolha, e a carranca é muito mais do que mero enfeite pros olhos de estranhos.

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Noites longas destroem sopros de vida. Já chorei sem apontar motivos concretos. Sou uma coruja que dorme bem porque se acalenta com a chegada da aurora. Uma coruja que sonha quando a luz bate no rosto de olhos cerrados. Mas a jornada das noites longas, que mal começou, me escancarou que as penas tupiniquins precisam de um reflexo constante pra não perder a vivacidade pra pena negra de um corvo silencioso. Não, mãe: eu prometo que não vou perder a brasilidade. Tenho escutado as nossas músicas favoritas, cantado e dançado sozinha, cozinhado sempre que possível, gargalhado com honestidade em cada pequena abertura. Quem clama por inverno, mal sabe o contorno pesado de escuridão que se carrega por aqui. Preciso lembrar do meu próprio sol constantemente, mas eu verdadeiramente me recuso a me entregar pra carga de dor e medo que vem com a neblina e o anoitecer precoce atrás das folhas secas.

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Mas a luz faz falta. Mais do que eu poderia prever. Janela sem claridade me dá a sensação de que o dia nunca verdadeiramente começou. Entardeceres eternos são uma espera infinita por bolos de chuva na mesa da sala. Nunca se sacia por completo, pois falta um raio de luz pra aquecer.

2 Comments Add yours

  1. “Não perder a brasilidade significa não sucumbir ao silêncio e à falta de sorriso. O nosso inverno é diferente: ele é político e decepcionante.”👏👏👏

    Hoje fiquei olhando o vento balançar esses galhos secos e pensei: só mesmo as raízes para segurar a árvore…

    Adorei seu texto.

    1. Camila Honorato says:

      Que delícia ler isso! Que bom saber que te tocou dessa forma. Mil vezes obrigada. ❤

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