Crônica: “Sobre confrontar os foras e aceitar um não”

Desde o término brusco do meu namoro, há dois anos, venho sofrendo com o medo da
rejeição – e reajo muito mal quando ela bate à porta. Existe uma ferida ainda um pouco dolorida, que fica à espreita de uma cicatrização e acaba por me confundir. Um processo que preciso mergulhar fundo e superar por mim mesma.

Sejamos sinceros: eu tomo iniciativas. Convido pra sair, tomo a frente quando o assunto é beijo, toco pra incentivar o que pode terminar em bons (ou maus) lençóis. E, como qualquer pessoa no mundo que as tome, não fico imune a determinadas negativas.

Nesses dias de sol na Alemanha, onde estive debaixo do calor europeu, vi um par de olhos alemães me deixar com o poder da dúvida em mãos: ele me convidou pra sair, conversamos como se nos conhecêssemos há anos, rimos juntos, ele trouxe a comida que ele mesmo preparou pra mim… E no final das contas, virou o rosto. Porque, afinal, toda a noite convidativa se converteu em amizade, e eu não tive outra solução a não ser aceitar. Uma aceitação que, confesso, me doeu. Meu primeiro fora europeu, em uma terra onde tantos e mais tantos olhos claros seguem curiosos pelo o que eles chamam de “sangue quente latino”. Uma curiosidade que levanta a minha auto-estima e me fere com a mesma intensidade.

Crédito: Sam Burriss/Unsplash
Acredite: a obrigação de ser irresistível o tempo todo é a pior coisa | Crédito: Sam Burriss/Unsplash

Minha primeira reação foi olhar no espelho e dar voz à síndrome da impostora de que eu, talvez, não fosse tão bonita assim e não merecesse mesmo um rapaz daquele porte físico. Um pensamento rasgante e extremamente cruel para comigo mesma. Na realidade, por mais incríveis que as pessoas sejam, às vezes o match não acontece. E não diz nada a respeito do quão atraente a pessoa é, mas do quanto simplesmente faltou química ou feeling naquele exato momento pra que um beijo acontecesse.

Nossa sociedade ainda é hipócrita em muitas situações. E uma delas é o complexo de Cinderela que ainda nos persegue: que devemos ser sempre desejadas, amparadas, paparicadas. Igualdade de gênero também implica em iniciativas – e que devemos aceitar que a pessoa que tentamos seduzir pode simplesmente não estar a fim. Rejeição dói, e o primeiro impulso é procurar defeitos em si mesma pra justificar o “não estou a fim”. Sincericídio machuca e é completamente dispensável. Mas a que ponto também não nos humilhamos pra tentar reverter o não como se essa fosse a maior humilhação do mundo?

Não: não é. E ai dessa expectativa maldita que carregamos. Nossos estigmas sempre nos fazem crer que temos que carregar uma imagem de ‘donzela irretocável e que deve ser desejada por tudo e todos’. E a bem da verdade: graças a Deus não somos. Podemos tomar negativas como uma forma de abarcar nossos defeitos e enxergar beleza neles – coisa que nossos alvos tanto não enxergaram como enxergaram com outros olhos. Ah, pobre da minha gargalhada escandalosa, do meu senso esculachado de humor… Pobre do meu defeito que, aos olhos de outros, são um dos meus charmes mais atrativos. Pobre de mim, não, afinal: não se pode agradar a todos. E cada um dos nossos defeitos e qualidades devem escancarar que a gente possa amá-los e entender que o tal do ‘não’, que assombra nós, mulheres, em uma escala estratosférica de humilhação, também faz parte.

Crédito: Nico Titto rnd/Unsplash
Dói um pouco, guria. Mas levanta que passa: não tem nada de errado com você | Crédito: Nico Titto rnd/Unsplash

Continuo tendo meus problemas e a achar que não custava nada esse alemão gelado me beijar. A noite estava tão bonita na fonte… Mas deixar castelos de contos de fadas ruírem também tem suas vantagens. E uma delas é não depositar uma quantidade enorme de expectativas em cima de qualquer coisa.

Sigamos aceitando também os ‘nãos’ e nos libertemos da sensação de obrigação de fazer-se atraente e irrecusável a qualquer custo. Eu simplesmente prefiro aceitar do que buscar motivos. Prefiro entender que tenho limites. E, no momento, também prefiro trocar o sotaque bávaro, que me deixou à mercê de bicicletas e luzes noturnas, por outros tantos diálogos. E seguir me amando e amadurecendo o suficiente para tomar negativas como um direito do outro, que nada tem a ver comigo ou com qualquer coisa que eu tenha feito de errado.

Tenho minhas fragilidades. E está tudo bem.

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