Au Pair: por quê decidi jogar tudo para o alto e embarcar para a Alemanha

Não é de hoje que venho refletindo muito em relação à minha posição profissional, algo que passou por uma busca exaustiva por melhores oportunidades de estudo e carreira. Reflexões, essas, que me trouxeram até aqui, em uma cidade minúscula do interior da Alemanha, respirando o ar puro da natureza, apreciando a luminosidade das ‘golden hours‘ europeias e me acostumando com o fato de que aqui, no calor intenso que invadiu o país, o sol se põe por volta das dez horas da noite.

Ser jornalista foi, desde o começo, uma escolha muito pautada na paixão. A paixão pela palavra, a paixão pela escrita, a paixão pela leitura e pelo direito de informação. Nunca tive uma pretensão cega ou irreal de me tornar uma profissional extremamente conhecida e prestigiada em veículos antes tidos como referência de informação no meu país de origem. Nunca me imaginei na bancada de um jornal televisivo apresentando qualquer programa relevante para o Brasil, mas me foquei muito em ter novas percepções dentro da mídia digital.

Oberaula, a primeira pequena cidade alemã que me acolheu | Crédito: Camila Honorato
Oberaula, a primeira pequena cidade alemã, em Hessen, que me acolheu | Crédito: Camila Honorato

Quando iniciei meus trabalhos como estagiária, mergulhei fundo nas novas possibilidades que o mercado me trazia. Tive oportunidades únicas que foram, acima de tudo, resultado de muito trabalho, networking, competência e uma dose de perfeccionismo que, por fim, contribuíram muito para intensificar meus sentimentos negativos decorrentes de transtornos psicológicos. No meu último colapso, decidi dar uma nova voz aos pedidos incessantes de uma adolescente ainda muito fascinada por literatura, e prestei vestibular mais uma vez para cursar uma segunda graduação em um dos cursos que sempre me fascinaram muito: entrei em Letras na Universidade de São Paulo (USP), e em pouco tempo comecei a colecionar histórias fantásticas. E outras, bem… Não foram tão bacanas assim.

Acontece que, no ano passado, me permiti a experiência de viajar para fora do país pela primeira vez – e me encantei ao extremo por Portugal. Uma jornada tão intensa de autoconhecimento que me levou a ponderar sobre muitas coisas. Uma delas teve a ver com a aceitação de um processo de amadurecimento que, muitas vezes, me trouxe doses intensas de dor. É difícil aceitar, em muitos momentos, que mudamos. Que nossas expectativas sonhadoras ganham doses de um realismo bruto e concreto e que a mente, antes tão ávida por uma quantidade razoável e completa de vivências, passa a ser mais objetiva. E então o sentimento de insatisfação, que tantas vezes bateu à minha porta, deu um grito alto na minha orelha e exigiu: “Chegou a hora de se movimentar com mais altivez e de aceitar que a roupa do corpo já não cabe mais. Que o vestido florido precisa dar espaço a uma sobriedade para que, só assim, o processo de transição seja realmente construtivo”.

Detalhes de uma horta que me ajudou desde o princípio a não sentir tanta falta de casa | Crédito: Camila Honorato
Detalhes de uma horta que me ajudou desde o princípio a não sentir tanta falta de casa | Crédito: Camila Honorato

E então, contrariando todas as expectativas debruçadas sobre mim, em um momento onde mais uma “ótima oportunidade temporária com possibilidades de efetivação” me fez perder o fio de paciência que me restava, joguei tudo para o alto. Em paralelo, comecei a tocar projetos de tradução, aulas particulares de inglês e aulas voluntárias em um cursinho popular que me mostraram um pouco mais de ação, fora do âmbito fechado de um escritório/agência em um cenário urbano. Ao mesmo tempo, essa vivência escancarou que era hora de resgatar um sonho antigo e de explorar outros lugares. De me dar um tipo de “folga”, por assim dizer, porque eu estava exaurida pela necessidade de ser uma super mulher o tempo inteiro, lutando o tempo todo por um trabalho de qualidade e que cobrisse o tanto de desvalorização que jornalistas e docentes passam em um país que, ao interromper certos progressos, caminha desgovernado para o retrocesso.

No começo, não foi fácil: quem, em sã consciência, tranca uma vaga na maior universidade do país para ser babá em um país estrangeiro? Quem abandona uma carreira em ascensão pra poder se aventurar dessa forma? Acontece que, no meio do turbilhão, já não conseguia enxergar espaço para mim na cidade onde nasci, cresci e vivia. Comecei a notar um tom de despedida intenso por cada parque, museu e esquina caótica da cinzenta metrópole paulista. Uma escolhe mútua entre mim e qualquer força espiritualizada que batia do lado de fora da minha janela me pedindo pra entrar. Como minha mãe bem escreveu na carta que me fez chorar na viagem até aqui: “Eu nunca realmente voltei da minha primeira jornada do Velho Continente”. A hora de buscar um novo lugar para chamar de “lar” havia chegado.

Aqui, mesmo com certos contratempos, comecei a sentir uma paz que há anos não passava pela minha mente. Consigo sentar para programar meu dia e fazer meus planos. Consigo sonhar outra vez, sem a carga desastrosa de trabalhos e provas ou a demanda de clientes exigentes e, por vezes, esnobes demais. Consigo ter, principalmente, qualidade de vida – algo que me faltava muito na rotina que sempre me abraçou à força. Ser au pair tem seus percalços: aprender um idioma tão difícil quanto o alemão na marra (já que minha universidade nunca supriu dúvidas e dificuldades reais) dá um pouco de dor de cabeça (imagina três idiomas – inglês, português e alemão – se misturando dentro do cérebro). Às vezes, a sensação de morar na casa de pessoas que, até pouco tempo, eram desconhecidas, dá um estranhamento – como se você fosse uma estranha pedindo abrigo. Mas algumas coisas compensam demais: estar, por fim, perto da inocência e da doçura de crianças me mostram que, apesar de tudo, a vida vale muito a pena.

Peguei o carro e dirigi pela primeira vez em tempos. Vim parar nesse cenário do Wildpark Knüll, em Homberg, Hesse | Crédito: Camila Honorato
Peguei o carro e dirigi pela primeira vez em tempos. Vim parar nesse cenário do Wildpark Knüll, em Homberg, Hesse | Crédito: Camila Honorato

Ainda não sei exatamente para onde essa jornada de “babá” vai me levar. Mas ter tempo de estudar e viver fora da zona de conforto me deixam otimista, a ponto de já não ter certeza de voltar (ainda que essa decisão possa ser revogada). Por fim, a tão famigerada frieza europeia me surpreendeu: vejo mais sorrisos cordiais do que olhares hostis. Achei que a brutalidade deliciosa da língua alemã, que tanto me fascina, me impulsionariam ainda mais intimidação. Mas foi inevitável: o verão aqui é quente e minha pele bronzeia; existe sutileza até no alemão mais “correto” e adepto a regras.

Por fim, vale ressaltar: acreditei que meu desembarque seria sinônimo de coice e uma certa dose de hostilidade. Ao invés disso, tudo o que eu senti foram abraços. Abraços, esses, que me fazem dormir tranquila todas as noites: eu realmente tomei a decisão certa.

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  1. Tatianices says:

    Que belo texto. É preciso ter coragem para fazer o que se quer, mesmo sem saber onde vai dar. Parabéns e sucesso!

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