Crônica: A importância do autoperdão e da libertação da culpa

Às vezes cometemos atos que nos prejudicam diretamente. Coisas que dizem respeito a algum tipo de atitude que se desvincula do nosso tipo de personalidade, que nos fere de alguma forma, que nos torna vulneráveis a um sentimento brutal de culpa, vergonha e excesso de autopunição.

Há um ano, quando terminei meu namoro, mergulhei em uma série de sentimentos intensos em relação ao que tinha se partido. Às vezes parece que me vejo em algum tipo de repetição em relação a esse assunto. O problema é: ai de mim, que sou romântica. Relações humanas sempre foram um ponto de fragilidade enorme para mim, bem como as consequências de rompimentos. Vivi de uma forma muito brutal cada etapa do luto que a quebra da confiança exerceu em mim. Usei isso como uma espécie de impulso para entrar em um caminho de realização de sonhos, os quais estiveram travados enquanto caía na armadilha de viver vontades que não diziam respeito a mim, à minha visão de mundo, ao que tinha escolhido pra mim mesma. E a questão é que, em uma dessas etapas do adeus, optei por vivenciar por quase um ano uma das fases mais complicadas e cheia de armadilhas: a da autopiedade e a do “recuperar o tempo perdido”.

Crédito: Aimee Vogelsang/Unsplash
Achava que era boneca de porcelana. Até perceber que, assim como vaso ruim, também quebro | Crédito: Aimee Vogelsang/Unsplash

Sempre fui uma menina exemplar, dessas que se enquadram em todos os padrões de bom comportamento e que não geram nenhum desconforto para a família. O problema do enquadramento em certas posições sociais é o tanto de moralismo que existe em cada rótulo, onde algum ponto fora da curva é punido pelo julgamento de terceiros e por uma preocupação exacerbada que, muitas vezes, está camuflada por ‘bom mocismos’. O problema é que, se por um lado me permiti experimentar coisas novas tanto no âmbito pessoal e sexual como no trabalho, algumas escolhas me expuseram em uma espécie de quebra de um protocolo que eu criei para mim mesma e do qual hoje, tendo plena consciência da imagem que me foi atribuída, sinto falta: o da inacessibilidade.

Sexualmente falando, vivenciei coisas das quais me arrependo e outras que sempre estiveram dentro do meu imaginário. Em uma das muitas conversas com a minha terapeuta, onde expus o excesso de culpa por determinados comportamentos, ela me escancarou a importância de driblar a autocensura e, ao mesmo tempo, encontrar o equilíbrio interno sobre o que necessariamente pode deixar de ser fantasia e o que deve lá permanecer. “É importante para nossa sanidade que algumas coisas permaneçam no campo do imaginário”, ela me disse certa vez, em uma das frases mais impactantes que já ouvi enquanto estava sentada na poltrona à sua frente.

Crédito: Gabriele Diwald/Unsplash
Um sopro e eu me desfaço | Crédito: Gabriele Diwald/Unsplash

Acontece que, enquanto me realizo de um lado, do outro me excedo no processo de autopunição por muitas vezes não corresponder às expectativas dos outros. Passo por cima do impacto negativo que o escancaramento, quebra e julgamento da minha privacidade exercem sobre mim, engulo um choro compulsivo que se transforma em uma espécie de raiva incontrolável e excesso de atitudes impulsivas para me ferir ao mesmo tempo em que tento me defender. Porque é isso que o excesso de culpa e ausência de autoperdão acabam por fazer com nós mesmos: reveste cada pedacinho nosso em uma espécie de autoflagelo inconsciente, ao mesmo tempo em que agride verbal e mentalmente aqueles que nos fizeram sentir diminutos.

O autoflagelo nunca trouxe nada de benéfico para mim ou para qualquer outra pessoa que o pratique. E o pensamento obsessivo, fruto de neurodivergências consideráveis de um cérebro assumidamente depressivo e ansioso, só contribuem para intensificar toda a carga negativa de sentimentos que vêm na bagagem dessa autopunição. Tenho aprendido a levar em consideração os meus verdadeiros sentimentos em detrimento da imagem que criam sobre mim, ainda que sinta na pele o peso de querer mudar. Todo o processo de autoconhecimento proveniente de um impacto enorme na autoestima com uma relação que quase me levou a sanidade vem continuamente sendo destruído aos poucos. Se olhar no espelho, encarar as vontades e se assumir como se é dói. Às vezes, precisamos admitir nossos defeitos em contextos que não são amigáveis, o que torna a armadilha da autodestruição ainda mais atraente.

Crédito: Shalone Cason/Unsplash
Forgive me father for I have sinned… | Crédito: Shalone Cason/Unsplash

Existe algo nesse processo que me fez olhar com mais carinho para a questão do autoperdão, porque encarar minhas falhas e o fato de não conseguir agradar todos ao meu alcance tem suas dores, nunca maiores do que aquelas que consegui carregar até agora. Vira e mexe acabo me testando, testando meus limites, pondo em prática fantasias que descubro não serem exatamente o que eu imaginava. Isso pra todas as esferas da minha vida: ver pessoalmente que alguns dos seus sonhos realizados não possuem o mesmo gosto que tinham na imaginação é um choque brutal.

Eu ainda estou no processo de não me ferir tanto, não remoer minhas falhas até o ápice do esgotamento, não batucar situações onde eu acredite que tenha sido miserável demais enquanto ser humano e, principalmente, a aceitar que vou continuar errando. O nível de perfeição que construí na minha cabeça nunca existiu, e ver esse castelo de cartas ruir e escancarar minhas imperfeições machuca bastante. Joguei sal na ferida mais de uma vez, mas tenho encontrado paz, sobretudo, na autoaceitação. Esse caminho, aliás, é o que me tem feito aceitar continuamente que sou um ser humano, acima de tudo. E, aos poucos, entender melhor o que de fato é esse caminho profundo de inacessibilidade que construí para mim mesma.

Crédito: Matthew T. Rader/Unsplash
You can’t play on broken strings. You can’t feel anything… | Crédito: Matthew T. Rader/Unsplash

Por quê, afinal de contas, lutei a vida inteira para ser uma estátua de mármore gelada, intocável e inalcançável e por quê me incomoda tanto perceber que existe um anseio por ser abraçada no alto desse pico? No que, afinal, estive pensando? E por quê essa quebra do inalcançável tem me dado uma mistura alucinante de prazer, melancolia e angústia?

Vou me perdoando e sendo mais carinhosa comigo mesma um minuto por dia. Não sei se algum dia vou obter alguma resposta significativa para todas as minhas questões, mas continuo vendo um extremo de alívio, rendição e respiro toda vez que assumo minhas fragilidades e resolvo abraçá-las.

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