Letras USP: por quê eu decidi estudar alemão na universidade?

Die, der oder das? Was ist richtig? 

Os artigos em alemão estão entre as coisas mais confusas em relação à compreensão da língua, mas está bem longe de ser um dos poucos tópicos discutidos em relação à complexidade do idioma como um todo. São muitas regras, algumas delas bem estranhas (como números com mais de dois algarismos terem a pronúncia da unidade antes da dezena), uma variedade gigantesca de palavras, regras loucas para aplicação de preposições e muitas outras coisas que, em um primeiro momento, não parecem fazer o menor sentido.

Meme Alemão | Crédito: Divulgação
Nominativo, acusativo, dativo, genitivo… O drama não acaba | Crédito: Divulgação

Quando ingressei no curso de Letras na Universidade de São Paulo (USP), já imaginava um universo onde eu, inspirada pelos ‘parentes’ da língua latina, escolheria os ‘primos’ francês, espanhol ou italiano. Ou mesmo o inglês, língua que eu já falo e que teria um novo sentido pra mim dentro de um âmbito acadêmico e do aprofundamento das literaturas de língua inglesa. Mas então eu pensei: um curso com dupla habilitação leva, no mínimo, cinco anos para ser concluído; eu trabalho e estudo, e ambas as cargas são pesadas e exigem uma combinação de foco e dedicação que não casa com a pressa; e depois de tudo isso, ainda existe a licenciatura, já que meu maior desejo é migrar integralmente para a profissão de escritora e educadora e deixar o jornalismo como um projeto de livros reportagens e desse blog.

Então uni o útil ao agradável: por quê não estudar algo completamente diferente e que me desafie? Por quê não provar um idioma difícil e aproveitar todas as disciplinas que a universidade me oferece para ‘sugá-lo’ ao máximo? Por quê não me permitir algo novo de verdade?

E então o idioma que me veio à mente foi justamente esse: o alemão.

Aber warum Deutsch?

Crédito: Markus Spiske/Unsplash
“O barco está cheio” | Crédito: Markus Spiske/Unsplash

Eu confesso que até hoje tenho dificuldades de explicar o por quê de ter selecionado justo o alemão em uma lista enorme de habilitações possíveis em uma universidade gigante como a USP. As línguas orientais, aliás, tais como o japonês, estão muito bem colocadas em estrutura e corpo docente, bem como o árabe, as línguas clássicas (grego e até o latim, enquanto língua morta) e tantos outros.

Quando se fala em Alemanha, uma das coisas que imediatamente chega à mente da população como um todo, principalmente em se tratando de um passado não tão distante, é justamente o polêmico e obscuro histórico do Holocausto. Pensei que, inconscientemente, uma das razões foi justamente bater de frente com um preconceito enraizado em todos nós e buscar mais sobre o que verdadeiramente é a identidade desse país, o que está por trás do rótulo de ‘um dos idiomas mais difíceis do mundo’, o que a literatura alemã tem para oferecer e, principalmente, o que há por trás de outros países que têm o alemão como língua-mãe (Suíça, Áustria, etc)? Juntei todos esses questionamentos e lá fui eu. E compilei todas essas razões há pouco tempo, quando um dos temas da nossa Schreibaufgabe (‘redação’) em sala de aula foi justamente explicar o por quê de estudar língua alemã (Warum lerne ich Deutsch?).

Um dos tópicos foi o desafio. O outro foi as possibilidades de emprego, já que não se encontram muitas pessoas de países latinos que saibam falar o idioma (e aprendi a duras penas que o buraco é bem mais embaixo). A outra foi a espécie de fascínio que a cultura alemã exercia sobre mim, mostrando um povo que realmente dá duro na vida, tem uma cordialidade correndo no sangue, fazem tudo corretamente nos mínimos detalhes e que, diante da minha vida bagunçada e cheia de incertezas, talvez tivesse um pouco a me ensinar sobre ter ordem e andar mais nos trilhos.

Crédito: Paul Hermann/Unsplash
A gastronomia alemã é muito mais do que chucrute e linguiça. A riqueza de temperos, a praticidade no dia a dia e a variedade de pães foi uma das coisas que mais me chamaram a atenção | Crédito: Paul Hermann/Unsplash

No começo, suei frio. O academicismo da universidade (um dos grandes problemas dos cursos de humanidades e das habilitações) acaba focando demais em normas gramaticais para provas e menos em produção de textos úteis para o dia-a-dia, compreensão oral e conversação – três tópicos verdadeiramente essenciais para o aprendizado de um idioma estrangeiro. Colocar a teoria em prática e tentar formular frases na língua que se está aprendendo impulsiona muito sua compreensão, e aqui reside um dos maiores defeitos da estrutura do curso.

No mais: eu admito, não senti nem um pouco de impulsionamento positivo da maior parte dos professores que compõem o corpo docente. A sensação ao tentar tirar dúvidas e mostrar descontentamento com o resultado de provas desastrosas, que me escancaravam o quanto o aprendizado não estava sendo eficiente, mais traziam reações de ‘talvez essa língua não seja pra você’ do que ‘vamos lá que vai dar certo’ – sendo essa a postura que eu, enquanto professora, tenho e espero que tenham comigo. E isso quase me fez atirar o alemão pelos ares e tentar uma língua com a qual eu já tinha mais familiaridade.

Mas então, lembrei dos alemães e suíços que conheci em viagens – todos muito cordiais, educados, curiosos em relação a culturas estrangeiras e abertos a diálogos. Me lembrei de uma gastronomia muito única e fora do comum, que reduzimos ao ‘chucrute’, à linguiça e à cerveja sem ter o mínimo de curiosidade para ir além. Me lembrei da reação positiva de falantes da língua alemã ao ver que alguém está literalmente topando o desafio de encarar esse aprendizado. Me lembrei das músicas e dos filmes que me fascinaram. Me lembrei do histórico de reconstrução de um país que, anos atrás, impulsionou um dos episódios mais horrendos e tristes da história da humanidade, sucumbiu com ele, mas retornou à corrida para se recuperar. E me lembrei, sobretudo, do fascínio que a sonoridade da língua alemã tem sobre mim.

Para muitos, as piadas batidas sobre como o som do alemão pode parecer grosseiro esconde coisas que a linguística torna ainda mais fascinante. A capacidade de juntar palavras em um único significado, que acaba não tendo tradução em lugar nenhum do mundo, é uma delas. E no meio desse processo de quase desistência, conheci pessoas, amigos e professores, que me disseram que tudo bem errar. Que me falaram ‘tente mais uma vez’. E, olhando pra trás, observando todo o meu percurso até chegar aqui e todo o meu aprendizado (inclusive as horas gastas batendo cabeça com o famigerado “Fausto” de Goethe, que quase me fez ter vontade de descer rolando escada abaixo), percebi que tinha criado uma afeição gigantesca por tudo que o aprendizado do idioma tinha proporcionado pra mim. E sigo tentando: aprendendo, assumindo erros, pedindo pra voltar tudo de novo e amanda cada palavra nova aprendida como se não houvesse amanhã.

Crédito: Markus Spiske/Unsplash
Berlim: tô chegando! | Crédito: Markus Spiske/Unsplash

Porque uma conquista é sempre algo bom. Aprender algo novo é um dos nossos maiores feitos aqui na Terra, e nos dá uma sensação inebriante de possibilidades e, acima de tudo, liberdade. Liberdade de conhecimento, liberdade de comunicação, liberdade de conhecer e amar as pessoas em uma das coisas mais valiosas que elas possuem como identidade: a língua.

* Em breve, vou começar a compartilhar dicas para aprender o idioma e também a gravar vídeos sobre essa descoberta louca que é a junção Brasil/Alemanha. Tem projeto novo nascendo aí. 😉 

2 Comments Add yours

  1. Tatianices says:

    Que lindo texto! Aprender uma nova língua, mesmo aquelas mais próximas do nosso português, não é uma tarefa fácil. E ensinar uma língua em um país como o nosso, tão cheio de problemas e defasagens, também não é uma tarefa fácil. É triste ver professores de uma grande universidade desencorajando seus alunos, e já ouvi isso de outras habilitações da Letras também. Sorte que existem pessoas como você, que seguem em frente! Parabéns e muito sucesso!

    1. Camila Honorato says:

      Oi, Tati! Poxa, obrigada pelo feedback.
      A Letras tem um pouco esse problema, né. Mas tem sido incrível descobrir o idioma sob essa outra ótica ❤

      Um beijo!

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