Trilha em Paranapiacaba (SP): reconexão e fortalecimento em tempos de caos

Eu sempre me considerei uma pessoa urbana. Alguém que se sente confortável em dias cinzas que casam com arranha-céus, passeios pelas calçadas, barulhos altos e luzes que pulsam vinte e quatro horas por dia. Sempre acreditei que minha essência fosse, primordialmente, passar por avenidas, beber qualquer coisa em bares nas esquinas paulistas e olhar tudo do alto. De uns tempos pra cá, no entanto, o bichinho da inquietude e da dúvida me mordeu. Minhas declarações de amor escancaradas por Portugal me mostraram o quanto podemos chamar outros lugares de casa. O quanto podemos ser felizes em algum trecho à beira-mar ou na beira de um rio, com céu azul em ruas históricas de pedra, madrugadas tranquilas e ar fresco.

Trilha em Paranapiacaba | Crédito: Camila Honorato
Trocando uma ideia com a capuchinha da fazenda antes de seguir viagem | Crédito: Camila Honorato

Uma das minhas metas para esse ano é viajar mais. Pegar mais estrada, me permitir experiências novas e estar mais perto da natureza. Nos últimos meses, senti que minha espiritualidade estava camuflada em meio a preocupações que já não me cabem mais. E isso deve, em grande parte, à distância entre mim e a terra. Ou entre mim e o mar. A mãe natureza tem uma energia intensa, límpida, purificadora e que nos conecta diretamente com o sagrado. E eu preciso que esse ar que ela nos faz respirar esteja mais frequente no meu cotidiano. Sem essa energia, eu adoeço. E, depois de tanto caos e depressão, eu não vou voltar para o buraco.

Minha primeira trilha em 2019 foi exigente. Paranapiacaba, cidade sobre a qual já escrevi anteriormente por aqui, tem muito mais do que um vilarejo de ares ingleses e um cemitério de comboios, que mostram uma parte significativa da história das ferrovias no estado paulista através de vagões abandonados e casas antigas. Abaixo da neblina insistente que percorre a cidade, florestas inteiras abrem caminhos para os pés insistentes de pessoas inquietas e aventureiras, bem como conduzem passos a rios e cachoeiras de água gelada e purificadora. Feliz por ter a oportunidade de inserir um pouco mais de turismo de aventura na minha vida, algo com o que venho sonhando há um bom tempo, calcei meu tênis, levantei na manhã abafada de um domingo e peguei o trem até Rio Grande da Serra para pegar uma van e fazer o percurso que exigiria muito do meu fôlego.

Trilha em Paranapiacaba | Crédito: Camila Honorato
Cenário do Rio Taiçupeba | Crédito: Camila Honorato

No nosso grupo de trilheiras, a exigência de ter só mulheres segue latente. Isso porque, com a nossa conscientização, sabemos que mulheres precisam acolher umas às outras para se fortalecer, intensificar o poder do sagrado feminino e oferecer apoio mútuo. Nosso percurso consistia em explorar alguns pontos da natureza privilegiada local, que atrai como um imã viajantes que gostam de extremos. No percurso entre a fazenda que nos acolheu, o Rio Taiçupeba e a Cascata do Índio, cruzamos com outros trilheiros, motoristas em cima de carros 4×4, motos com pilotos sujos de lama e tudo o mais que vem nesse pacote.

Trilha em Paranapiacaba | Crédito: Camila Honorato
Trilha em Paranapiacaba | Crédito: Camila Honorato

Depois de alguns mergulhos e caminhadas leves, seguimos para a subida íngreme em um percurso popularmente conhecido como Caminho do Sal. Isso porque, nos tempos de Brasil Colônia, por volta de 1640, a rota foi criada com o intuito de abrir caminho para escravos e animais de carga transportarem o sal, elemento essencial para a conservação dos alimentos, até os povoados da época. E foi aí que desafiei meu corpo ao extremo de sua capacidade. O sol quente que nos castigou pela manhã baixou à tarde para dar lugar a um vento insistente e um céu cinza que nos preocupou bastante. Consequentemente, a neblina veio junto e o solo já úmido foi ficando mais e mais escorregadio. A subida era muito maior do que eu esperava, de modo que, vez ou outra, era preciso segurar nos troncos das árvores e nos galhos mais grossos para pegar impulso e seguir trilha acima. O cheiro de terra molhada e o desafio de desviar de alguns obstáculos da natureza, estranhamente, me deram uma sensação de pertencimento que já não me contempla naquilo que antes eu chamava de caos acolhedor.

Trilha em Paranapiacaba | Crédito: Camila Honorato
Céu azul, natureza e trilha: dá pra curar quase qualquer coisa com esse combo | Crédito: Camila Honorato

Em um dado momento, senti as pernas trêmulas e o fôlego me faltar. Fiz pausas pelo caminho, ciente de que não ia desistir do nosso destino final: o Mirante da Pedra Grande, de onde é possível ver a cidade inteira e além, em municípios limítrofes como Quatinga. Amparadas pelas árvores, que nos forneciam uma espécie de cabana, fomos conduzidas para um trecho do descampado que nos escancarou a loucura do que estávamos fazendo: todo o trecho que levava ao mirante estava tomado pela neblina, que também ocultava a visão de tudo que estava abaixo de nós. Me assustei com a falta de visão do que estava ali e achei que não ia conseguir seguir, pois o medo de altura me escancarou o precipício e me deu vertigem. Respiramos fundo, olhando com solidariedade umas para as outras e nos encorajando a seguir. Até que deu certo: fincamos os pés do pico, aplaudimos nossa conquista e descansamos.

Trilha em Paranapiacaba | Crédito: Camila Honorato
Cenário tranquilo na Cascata do Índio | Crédito: Camila Honorato

Na volta, a chuva nos visitou. Só que, de novo, adentramos em uma mata solidária e caminhamos lado a lado com árvores que nos cobriam. O cheiro de folha e terra me despertou ainda mais os sentidos, já aflorados por causa do excesso de endorfina que, por pouco, não me dopou. A lama escorregadia arrancou tombos e gargalhadas na mesma proporção, e me deixaram marcas de arranhões visíveis na perna dos quais simplesmente me orgulhei – afinal, não é todo dia que a gente percorre quase 14 km em um caminho que até mesmo os guias de turismo (no nosso caso, a querida Cece) classificam como “muito difícil”. De volta à fazenda, nos alimentamos, olhamos ao redor para o privilégio que essa terra nos proporciona, trocamos um olhar cúmplice e seguimos viagem de volta. Com muitos planos de trilhas novas a explorar e a certeza de pertencimento.

Trilha em Paranapiacaba | Crédito: Camila Honorato
O mirante só tinha neblina. Mas a gente não conseguiu sentir medo por muito tempo: só plenitude | Crédito: Camila Honorato

VEM COM A GENTE: @mulheresquetrilham.sp

VAI LÁ
Caminho do Sal e do Bento Ponteiro
Paranapiacaba e Quatinga
Percurso: Rio Taiçupeba, Cascata do Índio e Mirante da Pedra Grande (Cachoeira do Mestre opcional). Total: entre 11km e 14km.
Grau de Dificuldade: Difícil (terra escorregadia, subidas e descidas íngremes e muita neblina)
Investimento: cerca de R$ 50 (dependendo do tamanho do grupo. É imprescindível fazer um caminho com um guia de turismo, pois o caminho é difícil. Além disso, facilita alugar uma van de Rio Grande da Serra até as fazendas locais e agendar um almoço ou jantar)
Classificação Final: ♥♥♥♥♥ (Excelente)

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