Crítica de Cinema: “Minha Fama de Mau” impulsiona esperança em cinebiografias

Nosso cinema ainda precisa ser lapidado, admirado e impulsionado de outras formas para o nosso público. Consequentemente, nosso público precisa ter mais abertura com o produto nacional na sétima arte, saindo dos roteiros óbvios e das apostas das produtoras em blockbusters de comédia de ficção.

Inspirado no livro homônimo, Minha Fama de Mau conta a história da jovem guarda a partir da vivência do autor da obra: Erasmo Carlos. Vivido com maestria por Chay Suede nas telonas (para mim, um dos melhores atores da nova geração), o protagonista mostra o cenário musical vivenciado no Brasil nos idos dos anos 1960, sua parceria e amizade de longa data com Roberto Carlos (vivido competentemente por Gabriel Leone) e com Wanderleia (Malu Rodrigues, em atuação discreta), bem como sua conturbada vida pessoal, marcada por sexo, abuso de álcool e instabilidade financeira.

Minha Fama De Mau | Crédito: Divulgação
É impossível contar nos dedos a quantidade de vezes que esses dois falam “bicho” em cena | Crédito: Divulgação

O roteiro foi conduzido de forma agradável, sabendo usar as cenas cômicas e as sacadas irônicas do cantor. Em meio à luta para emplacar músicas na indústria fonográfica, o espectador é levado a experimentar não só o contexto do desenvolvimento da jovem guarda, mas também a conhecer de uma forma ampla o cenário da música brasileira da época. Está lá Tim Maia (Vinicius Alexandre) antes da fama, a repercussão da música popular frente ao lirismo da bossa nova, o machismo enfrentado por mulheres do porte de Wanderleia e mais. Nesse último caso, aliás, reside o ponto fraco do filme: Malu Rodrigues é mais cantora do que atriz, mas também não teve muito espaço para se desenvolver em cena graças à redução de sua participação, muito mais centrada nos “amigos camaradas” homens.

A carga dramática, aliás, é um dos pontos de maior atenção do cinema brasileiro: os excessos acabam por levar tanto atores como enredos ao caricato, rompendo com os princípios da verdade cênica em detrimento do exagero. Por mais emocionante e verdadeira que seja a relação dos cantores, a briga e a reconciliação (retratada, aqui, com a composição da música Amigo) beiram a pieguice. Por outro lado, a comicidade tem o tom adequado, sem apelar a exageros e retratando um contexto histórico e cultural importante.

Minha Fama De Mau | Crédito: Divulgação
O filme vai além da história dos cantores para abordar o desenvolvimento cultural da jovem guarda nos anos 1960 | Crédito: Divulgação

Os três protagonistas, aliás, levam mérito por interpretarem verdadeiramente as canções, sem o excesso de recursos de dublagem que, para mim, rompem muito com a graça de ver um ator em cena em um filme como esse. Ainda que as vozes não sejam totalmente parecidas, é imprescindível trabalhar a preparação do elenco em voz e expressão corporal para trazer veracidade e realidade nas cenas. Essa é, aliás, uma das graças de transpor uma biografia musical para o cinema. Nesse ponto, dá gosto de ver o desenvolvimento do trabalho deles, já que todos ali estão bem afinados.

Outro ponto forte é, sem sombra de dúvida, a caracterização dos cenários da época e a fotografia do filme (que, em alguns momentos, remetem à belíssima cinebiografia do maestro João Carlos Martins). O figurino, aliás, é o elemento técnico que se sobressaiu, com detalhes que não passaram batido aos olhos da produção – desde o penteado da musa loura até o dente separado de Chay. As idas e vindas de Erasmo com Nara (Bianca Comparato), aliás, marcam um tipo de licença poética do roteiro que dão uma graça a mais no longa metragem.

Minha Fama De Mau | Crédito: Divulgação
“Se enganou, meu bem. Pode vir quente que eu estou fervendo” | Crédito: Divulgação

Vale ressaltar, ainda, que Minha Fama de Mau bebe da fonte de outras cinebiografias do nosso catálogo, amparada por filmes como Elis, Tim Maia, Cazuza – O Tempo Não Para, Somos Tão Jovens e por aí vai. Tais adaptações funcionam bem nas bilheterias, pois despertam o público a contemplar histórias de personalidades populares em nossa cultura, trazendo um conteúdo informativo que vai além do mero entretenimento. O resultado é bom, correto e agradável de se contemplar.

VAI LÁ
Minha Fama de Mau
Direção: Lui Farias
Roteiro: Lui Farias e Leticia Mey (amparados pelo livro original de Erasmo Carlos)
Elenco: Chay Suede, Gabriel Leone, Malu Rodrigues, Isabela Garcia, Bruno de Luca, Bianca Comparato, Gabriel Gracindo, João Vitor Silva, Vinícius Alexandre e mais.
Distribuição: Downtown Filmes (co-produção da Globo Filmes)
Classificação Final: ♥♥♥ (Bom)

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