Caixa de Pássaros: o livro, o filme e o desenvolvimento do suspense

Faz alguns dias que a Netflix lançou a adaptação desse best-seller, que gerou um burburinho enorme junto ao público e despertou algumas discussões. No meu primeiro olhar, acreditava se tratar de um filme excelente e com doses certas de suspense, com uma ou outra consideração que poderia ser ajustada no roteiro. Aos meus elogios, meus amigos leitores e cinéfilos sempre respondiam: leia o livro. Por isso demorei tanto para escrever a respeito. Timing às vezes precisa ceder para a qualidade, e eu precisava ponderar com calma antes de publicar qualquer coisa sobre o assunto.

Bird Box | Crédito: Divulgação
Sandra Bullock é uma atriz extraordinária – mas poderia sofrer mais e ser mais humana como a personagem principal | Crédito: Divulgação

Publicado pelo escritor e músico norte-americano Josh Malerman, Caixa de Pássaros é ambientado em um cenário pós-apocalíptico, onde as pessoas precisam se isolar e fechar os olhos sob a pena de terem visões que os hipnotizam e os compelem a se suicidar. A princípio, a fórmula de descrever lugares e situações que colocam o ser humano à beira da extinção é batida, sobretudo com a quantidade de obras que abordam o tema. O mérito do escritor, no entanto, consiste em justamente se valer do recurso da cegueira proposital como uma estratégia de sobrevivência, algo que deixa o leitor e o espectador com os nervos à flor da pele.

Respeitando a ordem cronológica com a qual me aprofundei na história, vamos para a análise do filme e do livro isoladamente, respeitando os pontos fortes de ambos e fazendo as devidas comparações.

* Aviso: contém spoilers

O filme

Bird Box | Crédito: Divulgação
Eu amo essa imagem – sério ♥ | Crédito: Divulgação

Minha primeira impressão com o longa metragem foi a de que ele soube se valer do aproveitamento do suspense proposto pela história em sua fotografia, sobretudo nas cenas do lago. O tempo nublado, a pouca iluminação em meio à natureza selvagem e traiçoeira contribuíram para deixar essa sensação de abandono e perigo muito latente, reforçada pelas vendas.

O problema do filme é que, logo de cara, a abordagem das cenas que culminam no cenário de destruição é menos assustadora e mais histérica, trazendo um pânico menos original e mais paralelo ao de caos típicos de filmes como Guerra dos Mundos. Intercalar a ordem cronológica da história é um acerto, sobretudo com o bom paralelo traçado entre passado e presente e o despertar da curiosidade do espectador quanto ao destino dos personagens.

Sandra Bullock trouxe à personagem principal, Malorie, uma espécie de força descomunal que, vez ou outra, se converte em frieza – uma estratégia de sobrevivência que confunde e beira a irrealidade. A casca grossa da personagem, ainda que bem executada, a torna suscetível à rejeição do espectador, sobretudo com as expressões faciais distantes quanto aos filhos que ela tanto luta para salvar.

Um Lugar Silencioso | Crédito: Divulgação
Cena de ‘Um Lugar Silencioso’, filme que parece ter inspirado a direção de ‘Bird Box’ – e que é infinitamente melhor | Crédito: Divulgação

No lago, a luta para sobreviver em meio à cegueira remete, e muito, à agonia muitíssimo bem-executada no suspense Um Lugar Silencioso. No segundo caso, no entanto, a amenização da histeria frente à melancolia do estado de quase-morte fazem com que Bird Box pareça um derivado menos bem-sucedido. Apesar disso, considerei o resultado final bastante satisfatório.

Pelo menos até me permitir ler a obra original.

O livro

Bird Box | Crédito: Divulgação
O livro é muito mais eficiente em abordar justamente o que dá título à história: os sons emitidos pelos pássaros | Crédito: Divulgação

Minha primeira reação foi de surpresa ao ver o quanto a Malorie de Josh Malerman é mais sensível e sofrida, um tipo de sofrimento que teria caído muito melhor do que a máscara de frieza que a personagem luta para manter para evitar um envolvimento emocional maior com os filhos – mesmo não dando nome às crianças, chamadas de Garoto e Garota, a luta de uma mãe para salvá-los segue latente na obra literária. O principal acerto no roteiro do filme foi optar por colocar Tom (Trevante Rhodes) como um homem negro ao invés do personagem tipicamente branco descrito à exaustão por autores. A relação dele com Malorie é muito mais de amizade no livro do que no filme, que desenvolveu o caso amoroso e rompeu com duas grandes estratégias da obra literária de propor reflexões agoniantes aos leitores: à do que os personagens poderiam ter sido e ao choque de ver uma mulher criando duas crianças sozinha em meio a um futuro incerto e perturbador.

As cenas de personagens sucumbindo ao suicídio são mais silenciosas e melancólicas no livro, um tipo de silêncio que cairia muito melhor na direção de Susanne Bier ao invés da histeria coletiva tão previsível no apocalipse. No lago, os eventos perturbadores que prejudicam a travessia em alguns momentos são muito mais latentes, e mostram muito mais o quanto as duas crianças são mutantes em termos de audição. Por fim, não retratar na cena final que alguns personagens se cegam propositalmente para permanecerem vivos é um pouco sem sentido: não ameniza o roteiro, que aborda as cenas de morte de maneira quase explícita, e deixa um vazio enorme em termos de reflexão.

Bird Box | Crédito: Divulgação
Tom e Malorie: o que é X o que poderia ter sido | Crédito: Divulgação

Além disso, o filme peca justamente em abordar mais profundamente o que dá título ao livro: os pássaros, que avisam constantemente através de sons e comportamentos histéricos sobre a presença de estranhos e do perigo das criaturas que, quando vistas, impulsionam as pessoas a se matar de formas trágicas. A ausência dos cachorros, que são buscados por moradores da casa para ajudar as pessoas a sobreviver e a guiá-las, também deixam um vazio enorme no roteiro, já que a narrativa mostra que mesmo os animais não estão imunes ao sofrimento provocado pelas criaturas misteriosas. A cena do suicídio silencioso do husky siberiano no livro é profundamente triste, e um detalhe fundamental que o longa não poderia deixar de fora.

A abordagem da loucura também poderia ter sido mais profunda, já que alguns personagens com sinais claros de transtornos mentais são imunes ao suicídio e compelem pessoas próximas a tirarem a venda e deixar os espaços, anteriormente às escuras, abertos para a invasão. A presença de Gary (Tom Hollander) no livro é muito mais confusa e contraditória, e gera um desconforto muito maior entre os moradores da casa. Por outro lado, a relação cúmplice e de amizade entre Malorie e Olympia (Danielle Macdonald) é muito mais verdadeira, o que valoriza ainda mais a escolha do nome da Garota no final da história – e ficou vaga e culposa no longa metragem.

Bird Box | Crédito: Divulgação
Mesmo tentando manter distância, Malorie luta pela sobrevivência dos filhos. No livro, porém, a figura de mãe é mais presente | Crédito: Divulgação

Depois de comparar os dois, notei que muito do que tornou o livro uma obra tão contemplada acabou sendo deixado de lado para fortalecer uma fórmula que já acontece há tempos em filmes hollywoodianos. A melancolia e o silêncio, se melhor aproveitados, tinham tudo pra deixar o filme muito mais perturbador. O resultado é correto se compararmos as duas situações. Isoladamente, o filme é satisfatório. Quando posto ao lado do livro, no entanto, poderia ter sido melhor. Muito melhor.

VAI LÁ
Caixa de Pássaros, de Josh Malerman
Avaliação Final do Livro: ♥♥♥♥ (Muito Bom)

Ficha Técnica do Filme
Direção: Susanne Bier
Roteiro: Eric Heisserer
Trilha Sonora: Trent Reznor e Atticus Ross
Elenco: Sandra Bullock, Trevante Rhodes, Sarah Paulson, John Malkovich, Jacki Weaver, Lil Rel Howery, Rosa Salazar, B.D. Wong, Machine Gun Kelly, Tom Hollander, Taylor Handley, Amy Gumenick e mais.
Produção: Scott Stuber, Chris Morgan, Barbara Muschietti e Dylan Clark
Avaliação Final do Filme: ♥♥ (Regular)

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