Crítica de Cinema: “Colette” reforça luta feminina no trabalho

Você já deve ter ouvido essa história em algum momento da sua vida: uma mulher desenvolve um bom trabalho, toma um golpe de um homem (em alguns casos, seu próprio parceiro) e vê todo o seu talento e esforço ser creditado a ele. Essa fórmula se repetiu incontáveis vezes em nosso dia a dia e, alguns deles, felizmente, vieram à tona e trouxeram uma reviravolta na história de suas protagonistas. Uma delas, contemporânea, foi transposta para o cinema: Colette, um drama biográfico sobre a vida da jornalista e escritora homônima que luta pelos direitos autorais de sua obra, e que promove uma reflexão sobre a posição da mulher frente ao trabalho.

Colette | Crédito: Divulgação
De moça do interior a escritora que luta pelos próprios direitos autorais: a trajetória de Colette é fascinante | Crédito: Divulgação

Sidonie Gabrielle Colette nasceu e viveu na França entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX. Sua primeira obra, Claudine, tinha contornos autobiográficos e retratava a vida de uma garota de quinze anos, mas só foi publicada pelo marido, o editor e crítico Henry Gauthier-Villars (ou simplesmente Willy), com a condição de que a obra fosse assinada por ele. Inserida em um relacionamento abusivo, Colette lutou tanto para ter autonomia em um meio que, até hoje, é dominado por homens (o das letras) como para ter direitos sobre seus próprios escritos e simplesmente ser quem era.

Além da batalha pela propriedade intelectual, um posicionamento que, por si só, já a envolvia na luta feminista, ela também desafiou os costumes da sociedade da época ao se envolver com mulheres e, com o divórcio, assumir publicamente uma relação com a artista Mathilde de Morny (a Missy). O escândalo rendeu alguns problemas, que envolviam desde a impossibilidade de viver sob o mesmo teto com a companheira até a recusa da Igreja Católica de realizar a cerimônia de sua morte, que só aconteceu por interferência do estado.

Colette | Crédito: Divulgação
As tomadas de sexo são delicadas, sensuais e nada apelativas | Crédito: Divulgação

Centralizando na batalha travada contra o marido, o roteiro do filme bebe da fonte de outra grande crítica e denúncia de roubo da propriedade alheia: Grandes Olhos, dirigido por Tim Burton e com Amy Adams no papel da pintora Margaret Keane, que levou o marido Walter (brilhantemente interpretado por Cristoph Waltz) aos tribunais para recuperar sua marca registrada de retratar pessoas com olhos desproporcionais. Em comum, ambos os filmes centralizam nos dramas envolvendo a batalha no mundo das artes e das consequências do acordo firmado com seus parceiros, já que ambos chegam a mantê-las em cárcere privado para forçá-las a seguir produzindo para suprir sua ganância por sucesso e dinheiro. O diferencial de Colette, além da óbvia ordem cronológica escancarada no figurino, é a pegada cult em tomadas com pouca iluminação, que reforçam o delineio entre melancolia e sedução impulsionadas pela história de vida da personagem.

Keira Knightley, com suas expressões intercaladas entre o sofrimento e o ar esnobe e desafiador, soube construir uma ótima protagonista, forte e dramática na medida certa. Suas cenas com Dominic West (no papel de Willy) conseguem comover sem grandes recursos de interpretação, mas com o fortalecimento discreto de olhares e tomadas obscuras de cenários com a escolha certa da trilha-sonora. O retrato de seus envolvimentos homossexuais, captados com delicadeza pelo diretor Wash Westmoreland, seduzem na mesma medida que comovem graças ao retrato puro do envolvimento dela com Missy (Denise Gough). É menos recurso pra atrir a audiência voyeurista com cenas de sexo lésbico e mais sentimento, algo que faz qualquer um implorar pelo sucesso do relacionamento frente à postura machista do marido abusivo.

Colette | Crédito: Divulgação
O envolvimento de Colette com Missy é retratado de uma forma delicada. O figurino, além disso, também é um ponto alto | Crédito: Divulgação

O filme é sensível, retratando com louvor a transição da belle époque parisiense e trazendo elegância ao cenário do mundo artístico desenvolvido na época. Os espaços em branco trazidos pelo filme são positivos e inspiram o espectador a conhecer mais sobre a vida de Colette, que viria a ter o auge da sua carreira literária ao publicar os romances Chéri em 1920, já com total autonomia e retratando o romance de um jovem com uma mulher mais velha, e Gigi em 1944, cujo sucesso, aliás, acabou transpondo-o para o cinema.

Por fim, é um filme delicado e leve, mesmo ao abordar questões pesadas como uma relação abusiva e a homofobia. E mais do que isso: é uma inspiração e tanto para mulheres artistas, um impulso pra que a gente sempre lute e continue criando.

VAI LÁ
Colette
Direção: Wash Westmoreland.
Elenco: Keira Knightley, Dominic West, Eleanor Tomlinson, Denise Gough, Fiona Shaw, Rebecca Root, Shannon Tarbet, Arabella Weir, Atilla Árpa, Roderick Hill e Mark Griffiths.
Roteiro: Richard Glatzer e Wash Westmoreland.
Produção: Pamela Koffler, Christine Vachon, Elizabeth Karlsen, Stephen Woolley, Michel Litvak e Bruno Levy.
Fotografia: Giles Nuttgens
Distribuição: Diamond Films
Classificação Final: ♥♥♥♥♥ (Excelente)

2 Comments Add yours

  1. Tati says:

    Eu fiquei bem interessada pelo filme, parece ser muito bom!

    1. Camila Honorato says:

      Assista! É super show. ♥

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s