Crônica: (+18) A vida sexual da mulher tímida

“Deita com calma. Solta mais o corpo e relaxa. Você está muito nervosa”.

Eu sentia que minha respiração entrecortada e as pernas bambas em cima da cama eram uma denúncia para o homem na minha frente. Mil coisas se passaram na minha cabeça antes que ele começasse a tirar a minha roupa e a voltar a me beijar, tentando fazer com que os nós dos meus dedos nos lençóis ficassem mais frouxos.

Crédito: J.J. Jordan/Unsplash
Face de uma guria tímida quando descobre que vai transar… | Crédito: J.J. Jordan/Unsplash

Pessoas tímidas sofrem. Ao mesmo tempo em que as pessoas adoram criticar pessoas expansivas e de falas soltas, também gostam de rasgar o verbo para quem se retrai, fala pouco e prefere observar muito antes de emitir qualquer opinião sobre qualquer assunto. Ou que precisa de uma dose ou mais de álcool para se sentir confortável na presença de estranhos. Levei uma vida inteira para descobrir que não havia nada de errado comigo. Que a hesitação diante de desconhecidos era algo pertinente e que me protegia, assim como as falas discretas antes da amenização do desconforto também eram prudentes. Em solo novo, vale sentir o cheiro, o clima e a energia ao redor antes de mostrar a essência.

Na cama, isso não é diferente. Tendo a gostar de ouvir sacanagens e a falar quando tenho intimidade. Gosto das trocas proporcionadas por essa proximidade, que vão desde o conforto de ser mais sacana até as risadas do pós-sexo. Então, estar solteira depois de quase cinco anos de relacionamento me fez entrar em contato com um universo novo, cheio de borboletas no estômago e incertezas. Mas mais do que isso: me fez entrar em contato com o famoso sexo casual e a tudo que está inserido nele. Afinal de contas, mesmo com tanta autossuficiência, eu não sou de ferro. Tenho a libido intensa, gosto de contato com outra pele, de respiração entrecortada, suor e gemido na orelha, muito além dos meus dedos e dos vibradores das sex shops.

Crédito: Anastasiia Boivka/Unsplash
Pouca roupa nesse contexto é tranquilo. Agora, experimenta se despir na frente de quem você ainda pouco conhece… | Crédito: Anastasiia Boivka/Unsplash

O problema é que, ainda que tirar a roupa nunca tenha sido uma questão (tenho zero vergonha da nudez), o contexto da conversa, dos minutos que antecedem aquele olhar de apetite e até da soltura dos quadris me travam. E isso já aconteceu algumas vezes, mesmo na cama de amigos com quem nunca tinha estado antes. O ruim da casualidade é que, mesmo quando muito espaçada, ela não te livra de certos contratempos: um cara egoísta e ruim demais para se preocupar com o seu prazer e achar que tudo se resume ao falo, umas broxadas tensas, pessoas que te confundem com psicólogas e desabafam sobre ex-parceirXs e tudo o que mais couber nesse pacote. A bochecha rosada se converte em raiva, você se levanta para buscar suas roupas íntimas e pensa que poderia muito bem ter se poupado desse horror todo se tivesse se reservado ao direito de ler seus livros, tomar um vinho com sua família e maratonar uma série.

Mas alguns casos quase tão bem-sucedidos me fazem pensar que a timidez aflora em seu estado mais puro. De repente, em uma troca robusta de mensagens com uma mulher, percebo que minha soltura com a nudez se resume a trocar de roupa e ficar de boa. Como é que se traduz conforto em pele quando o contexto é seduzir alguém e trocar umas palavras de baixo calão?! Minha nossa, mas eu não tenho a capacidade de mostrar a buceta em fotos ou de me masturbar na frente de quem quer que seja! Essa geração exibicionista perdeu o juízo? Como é que eu faço pra conseguir atrair atenção dessa forma de um jeito atraente? Como é que faz pra se expor de um jeito estético? Não sei como fazer pra tirar selfies sem um pingo de conceito. Logo, os nudes realmente não são comigo.

Crédito: David Cohen/Unsplash
Contextos que envolvam sexo dão ansiedade até quando tem amigos… | Crédito: David Cohen/Unsplash

Transferindo a conversa pra famosa trepada sem hora marcada, com quem já conhecia, vejo que nem uma amizade consegue libertar aquela queimação instantânea na cara que aparece quando escuto sacanagem. De repente a pessoa que tirava músicas comigo pra ensaios de uma banda de garagem ficou sussurrando no meu ouvido que estava adorando me sentir toda molhada. Mais rubor. Sorriso de lado. “Pelo amor de Deus, me deixa ficar de quatro”, tento escapar. “Não deixo, porque quero olhar pra você”. Fecho os olhos e tento me concentrar naquele pontinho de tesão na pélvis. Um tipo diferente de desconforto com amigas, que mesmo elogiando minhas expressões e minha capacidade de chupar buceta não foram capazes de me trazer tanto acabrunhamento. Talvez com mulheres as coisas sejam realmente diferentes, afinal. A timidez concentra seus níveis estratosféricos com o sexo oposto.

“Você fica tão linda quando goza”. Mas qual o problema de só trocar sons? Como é que faz pra ter esse talento de falar a sacanagem certa com quem a gente vai pra cama pela primeira vez? Eu ainda estou completamente focada em trocar a frequência do meu cérebro pisciano e conseguir falar “pau” sem trocar por “pai”, e esse povo tão bem adaptado pra era sem-vergonha proporcionada pelo exibicionismo na tecnologia verbaliza tudo como se me conhecesse há anos! Em um encontro quase às escuras com um guri do Tinder (poucas conversas, “te vi por foto, vamos foder”), achei que fosse morrer de taquicardia. Vesti minha melhor lingerie, que foi quase despida ainda no carro. “Meu Deus, estamos no farol!”, resmunguei, com um dos seios à mostra. Ele deu um meio sorriso, disse que ninguém estava olhando, riu quando eu pedi pra não rasgar a peça na cama do motel (eu gosto muito dela e foi cara) e me arrancou gargalhadas quando caiu comigo na cama ao tentar me agarrar.

Crédito: Jilbert Ebrahimi/Unsplash
Aqui fingindo que vasculho o celular pra evitar olhar pra tua cara depois do que a gente acabou de fazer… | Crédito: Jilbert Ebrahimi/Unsplash

Esse mesmo tipo de situação me fez converter o meu conceito de “melhor sexo da minha vida”. Em termos de performance, talvez eu tivesse elegido um ex-colega de trabalho (aquele que me mandou relaxar ali no começo do texto e que me permitiu a oportunidade de ser sincera) como a melhor transa da minha vida. Tudo isso porque ele soube me masturbar logo de primeira e tinha um sexo oral que me fez surrar a cama e molhar o lençol inteiro com um dos orgasmos mais fortes que já tive. Um dos, porque o mais forte veio seguido de um desmaio e não envolveu casualidades: foi com um namorado mesmo.

Sinto isso da classificação porque, diante de um par de olhos verdes, a conversa fluida e a honestidade quanto ao meu estado de espírito me proporcionaram níveis de intimidade que afrouxaram a sensação esgotante de ansiedade. Veio na forma de um toque delicado nas tatuagens dos braços, em um comentário divertido e oportuno, em uma massagem pós-orgasmo e do chocolate na boca. Fico confusa de classificar minhas transas casuais, mas as melhores pra mim certamente vieram com menos dose de putaria e mais dose de “parece que te conheço de outros Carnavais”. Um galã prometendo me dominar teve um efeito bem mais discreto do que o “você é tão gostosa que dá vontade de trepar contigo até o pau cair” de um nerd. Fazer o que…

Crédito: Pamela Lima/Unsplash
Vai confessa: esse tipo de olhar é um charme | Crédito: Pamela Lima/Unsplash

Talvez a minha timidez seja, na verdade, um charme. Um charme muito mais ligado a reconhecer que prefiro trocar qualquer borboleta no estômago pela oportunidade de ser transparente com quem me desperta tesão. E de poder ganhar e levar café na cama depois de amassar os lençóis. Porque pessoas tímidas preferem uma certa dose de conforto. O conforto de sermos nós mesmos com quem nos aceita pelo o que somos, sem guardar qualquer expectativa de uma casualidade cheia de tesão desenfreado. Um tipo de sacanagem que eu, com rubor nas têmporas, nunca serei capaz de proporcionar.

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