Crônica: Não pulei ondas no Ano Novo

Perdi as contas de quantas vezes vi queima de fogos na praia, pulei ondas e escondi sementes de romã dentro da carteira. Toda virada do ano me dá uma sensação extremamente estranha, pela falta de planos consistentes em relação aos meses que irão se seguir.

Geralmente, minhas noites entre um ano e outro são recheadas de conversas familiares e muito silêncio. Eu sou a síntese da introspeção. E, nesses momentos, acabo voltando muito para mim mesma na esperança de trazer à tona pensamentos esperançosos e grandes sonhos para correr atrás. E pulava ondas. Cada quebra de água nas minhas pernas eram um pedido simples. Que eu tenha saúde, que eu tenha paz, que eu ganhe dinheiro… Coisas superficiais, ditas mentalmente para cumprir com algum tipo de protocolo do que qualquer outra coisa.

Esse ano, no entanto, foi diferente. A visão que o mar tantas vezes me proporcionou na sua imensidão, e naquela grandiosidade intimidadora que só a natureza em seu estado puro é capaz de oferecer, me faltou. Meu organismo se revirou com os excessos das taças de vinho, e eu prontamente pensei que era hora de colocar em prática a meta de não beber mais. Meu humor depressivo pós-ressaca gritou na manhã do primeiro dia do ano, enquanto uma sensação latente de vazio, proporcionada por grandes atos de impulsividade, me fez derramar algumas lágrimas em cima da cama.

A gente valoriza gestos e momentos quando eles se perdem. E um banho na água salgada de Iemanjá teria me poupado da dúvida. Da dúvida que me invadiu quando embrenhei meu corpo nu em uma cama observando olhos conhecidos, tocando peles macias e sendo tocada por palavras intensas que me perturbaram. Da dúvida que me escancarou que a falta de planos dos anos anteriores me incomodavam muito, e que não saber o dia de amanhã hoje é um desconforto. Será que parei de sonhar com aquela intensidade de antigamente? Com o que eu sonho, afinal?

Detalhes da Floresta Negra alemã nevada. Há o que esplorar esse ano... / Crédito: Richardfabi/Wikimedia Commons
Detalhes da Floresta Negra alemã nevada. Há o que esplorar esse ano… / Crédito: Richardfabi/Wikimedia Commons

Quando a luz entrou na janela do meu quarto no primeiro dia do ano, me senti oca por dentro. Ingeri calmantes pra cortar os espasmos e as pernas aceleradas que o álcool me causou. Confundi o barulho do ventilador, ligado às pressas numa manhã extremamente abafada do verão tropical, com minha respiração entrecortada pela primeira crise de ansiedade que me acometeu nesse ano. O presidente que eu odeio tomava posse. Meu telefone ficou mudo depois de entregar o corpo e o afeto pra alguém que se declarava há tempos. O que estou fazendo da minha vida, afinal?

Dormi no sofá de casa, vi filmes repetidos, li um pouco dos dois livros presentes na minha cabeceira. Até constatar que, pela primeira vez em anos, meus sonhos são mais consistentes. Há um idioma na ponta da minha língua querendo ser aprendido, há uma suposta mudança de profissão a caminho e lugares a serem explorados. O amor me encontrou no começo do ano passado no frio português e se transformou. O amor me encontrou nos jardins da universidade e se transformou. O peito anda vazio, mas a sede de vida tem a mesma vivacidade do quebra-mar que tanto visitei nos anos anteriores.

Porque, nesse ano, pela primeira vez, vou me permitir trocas radicais. A praia noturna se transmuta em florestas e neve. E eu quero me transformar na coruja que habita o topo das árvores de certos bosques de contos de fada.

*

Feliz 2019.

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