Estudar na USP: um breve desabafo de uma veterana de Letras

Existe muita gente que me pergunta como é estudar na Universidade de São Paulo (USP). Como é estar dentro da maior universidade do país e de ter passado naquela que é detentora do vestibular mais concorrido de nossas terras.

Quando eu prestei vestibular há dois anos, eu resgatei um sonho antigo. Da menina que sonhava em ser atriz, dei espaço pro meu lado que pedia pela escrita – e acabei deixando alguns sonhos antigos de lado. Ingressei e me formei em jornalismo escolhendo um curso de humanas nas pressas, mas que me permitiu contar histórias e vivenciar coisas fantásticas. Mas aquele comichão da alma literária ainda falava alto. Então aproveitei a falta de um emprego fixo, estudei sozinha em casa, pus na minha cabeça que tudo bem não passar e fiz provas de um jeito leve e sem excesso de cobranças. Isso foi, sem dúvidas, uma das coisas que contribuíram pra me levar até lá. Mas não sou ingênua: estudei em escola particular a vida inteira, e o fato de já ter uma faculdade e de estar por dentro de atualidades foi o empurrão a mais pra passar no vestibular.

Crédito: Camila Honorato
“São Bernardo”, de Graciliano Ramos, nas minhas mãos. Disfarçando o excesso de cansaço do fim do semestre | Crédito: Camila Honorato

Quando estava no primeiro semestre, as notas eram altas, mesmo conciliando com um trabalho bem puxado de social media. Aí veio o segundo semestre, o desemprego e um mergulho mais profundo no ambiente acadêmico. E aí eu senti que meu desempenho decaiu. E não foi pouco.

Estar na USP é um sonho realizado. Algo que vem com uma carga enorme de deslumbramento e fascínio por parte de terceiros. Quando digo que estudo alemão, então, essa carga aumenta. Só que lá dentro…

Eu acho que o ambiente acadêmico nos contamina. Estar de frente pra um lado político sem máscaras e ver o quanto da falta do governo para a educação é um buraco mais embaixo faz com que parte da nossa fé na humanidade se esvaia. Ver seus colegas dos movimentos sociais com olheiras debaixo dos olhos e escondendo o choro em tempos difíceis é foda. Ver tanta gente com uma carga pesada afetando saúde mental também. E eu já nem sei o que dizer quando recebo qualquer notícia sobre suicídio…

Crédito: Camila Honorato
Desvantagem dos excessos da faculdade de Letras: trocar livros apaixonantes por leituras obrigatórias pra passar de semestre | Crédito: Camila Honorato

O que acontece: tem corpo docente foda, tem matérias lindas, tem oportunidades que você nunca achou que pudesse cruzar na vida. O ambiente da USP, fora dos institutos, é cheio de árvores lindas e com uma estrutura que deixa qualquer um embasbacado. O centro olímpico tem ares de universidades americanas de filme.

Mas ainda assim, tem gente que não está feliz. Meu próprio estado de ânimo é uma incógnita. A instabilidade é forte. Eu sou da turma do digital e da interdisciplinaridade, então retornar ao academicismo de tempos de escola é um pouco sofrível. É sofrido ver tanta matéria de literatura, que poderia cruzar teatro e cinema, virar meta desumana de um livro e resumos aos montes por semana – coisa que você sabe ser humanamente impossível de dar conta.

Eu acho alemão uma língua linda, mas está difícil de acompanhar nas pressas. E é humilhante o tanto de recuperação que pego por falta de acompanhamento. Estudar idiomas é algo foda demais, mas os professores precisam compartilhar um pouco mais dessa visão pra não tornar o processo algo assustador e tão pouco inclusivo.

Crédito: Camila Honorato
A vida universitária mata um pouco da nossa saúde mental. O lance é abstrair às vezes e olhar além. Existe vida fora desses ‘muros’ | Crédito: Camila Honorato

Então respondo: sim, é a realização de um sonho. Mas um sonho que ficou pesado demais. O conselho que me dou e que dou pros meus colegas é: saiam um pouco desse ambiente. Troquem os papos das mesas de bar. Observem a vida externa por aqui, a música, a arte, os brindes do lado de fora. Existe muita vida fora do ambiente acadêmico. E a gente te não pode deixar de vivê-los pra se colocar no véu eterno da ‘universidade pública fodona’.

A vida é mais que isso. E a gente também merece paz.

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One Comment Add yours

  1. Tati says:

    Sou formada pela USP, mas em outro curso e em outro instituto, fiz Biblioteconomia na ECA.
    Meu curso não é tão pesado quanto letras, mas muita coisa que você relatou eu também senti. Muitas vezes o ambiente acadêmico é pesado, e junto a isso ver várias questões políticas e sociais sendo levantadas e discutidas (não quero nem imaginar como as pessoas estão se sentindo nesse momento… eu já não me sinto muito mal aqui ‘fora’).
    Eu digo que sempre depende dos seus objetivos, e que tem lados positivos e negativos como todas as faculdades.
    Eu gostei da minha experiência, gostaria até de ter aproveitado mais as diversas atividades possíveis, e adorei conhecer as pessoas que conheci.
    Mas sem dúvida, está bem longe de ser um mar de rosas porque se está ‘numa das melhores universidades públicas’.

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