Crítica Musical: Solid Rock e o relato de uma fã convicta do Alice in Chains

Quando um artista opta por seguir na carreira musical depois da morte de um dos seus líderes, há um misto de sentimentos por parte do grupo e por parte dos fãs. Há tanto o choque diante de uma nova perspectiva de identidade da banda como a esperança, sendo que ambas as sensações podem se reverter em algo bom ou ruim. Ao perder seu líder para as drogas, o cantor Layne Staley, o Alice in Chains surpreendeu os fãs e a crítica ao anunciar que continuaria na estrada e ao convidar William DuVall para assumir os vocais. De lá pra cá, o grupo conseguiu se manter em destaque diante dos lançamentos de seu novos discos, saindo da temida fórmula de fazer cover deles mesmos para ter um novo respiro.

Essa nova perspectiva da banda, às voltas com o lançamento do novo disco de estúdio, intitulado como Rainier Fog, foi a base para a nova turnê, que passou em São Paulo em 10 de novembro no Allianz Parque. A banda foi um dos nomes confirmados para o Solid Rock, um festival que também contou com nomes como Black Star Riders e Judas Priest. Como eu sou menos fã dessas duas, vamos começar com a resenha de ambas antes de falar sobre o que eu tenho mais propriedade – porque jornalista precisa ser honesto e reconhecer suas limitações.

Black Star Riders durante apresentação no Solid Rock em São Paulo, no Allianz Park | Crédito: Larissa Honorato
Black Star Riders durante apresentação no Solid Rock em São Paulo, no Allianz Park | Crédito: Larissa Honorato

Com influências calcadas no hard rock, o Black Star Riders, formado em 2012, trouxe para o solo tupiniquim uma apresentação firme, sem grandes riscos e pautada no bom diálogo com o público. Foi o que se pode chamar de apresentação correta, o que cai muitíssimo bem em um festival que contava com headliners bem distintos do som proporcionado por eles. Com três bons álbuns de estúdio (All Hell Breaks Loose, The Killer Instinct e Heavy Fire), o Black Star poderia facilmente ser escalado para um festival do porte do Maximus Festival, tendo um pouco mais de espaço e receptividade. Mesmo assim, eles cumpriram com louvor a tarefa de abrir as apresentações em um espaço dominado por uma parcela considerável de fãs de Judas Priest- convenhamos que fãs de metal nunca foram os maiores exemplos de respeito a artistas que vertem para estilos distintos.

Sobre o Judas, aliás, não há muito o que comentar. São anos e anos de estrada, apresentações calcadas em super produções e som impecável. Como diria a minha irmã: é surpreendente que uma banda de metal tenha mais coisas no palco do que shows de divas pop, e segue mantendo esse estilo em uma fase onde os shows do gênero não costumam ter grandes riscos. O único problema com o show do Judas é justamente a postura de alguns de seus fãs (não vamos generalizar, já que tinha uma galera muito divertida por lá e fã mala não é exclusividade dos caras). Ainda assim, ver o carisma e a competência da titia Robert Halford (que, pasmem, tem mais trocas de roupa no show do que muitas cantoras por aí) é algo bem legal pra coroar a noite. Eu já havia assistido a um show do Judas Priest anteriormente, nos idos de 2015, quando eles vieram ao Monsters of Rock para abrir para o Kiss. A fórmula se repetiu, inclusive com a clássica cena onde o vocalista entra no palco com uma motoca de respeito. Mas a execução segue digna de aplausos.

Judas Priest durante apresentação no Solid Rock em São Paulo, no Allianz Park | Crédito: Larissa Honorato
Judas Priest durante apresentação no Solid Rock em São Paulo, no Allianz Park | Crédito: Larissa Honorato

Mas voltemos ao Alice in Chains. Primeiramente: a banda acabou sendo injustiçada mais de uma vez pela organização do festival. Se o headliner fosse uma banda que dialogasse mais com a pluralidade dos caras de Seattle e até do Black Star Riders, talvez tivéssemos uma recepção mais simpática e uma banda mais confortável no palco. Mas não foi o que aconteceu: desde o começo, tanto a divulgação do evento como os preços exorbitantes praticados deixaram a desejar, o que resultou em um quase FLOP, já que uma parcela considerável das arquibancadas, mesmo com a junção dos dois setores, ainda estava vazia. Isso pra não falar do espaço exagerado destinado à Pista Premium, que deixou a lotada Pista Comum apertada. Foi na Pista Comum, aliás, que eu consegui avistar uma recepção mais calorosa por parte do público em todos os shows. Nada de novo, não é mesmo?

Outra grande falha cometida pela organização foi deixar uma banda do porte do Alice, com mais de trinta anos de estrada e que foi carimbada como uma das mais importantes do movimento grunge nos anos 1990, como uma banda de abertura com 1h15 e show. O descontentamento estava estampado na cara do guitarrista, vocalista e cabeça da banda Jerry Cantrell, e não sem razão. Faltaram uma pancada de músicas relevantes no setlist, tanto as que marcaram a carreira da banda em tempos de Staley (Nutschell, Rain When I Die, para citar algumas) como as dos recentes e excelentes álbuns (Voices e So Far Under, por exemplo). A apresentação do Judas, com mais de duas horas, poderia ter cedido alguns minutos a mais na competência dos caras – que mesmo com tempo reduzido e com as falhas do festival souberam fazer uma apresentação muito digna e respeitosa com seus fãs.

Alice in Chains durante apresentação no Solid Rock em São Paulo, no Allianz Park | Crédito: Larissa Honorato
Alice in Chains durante apresentação no Solid Rock em São Paulo, no Allianz Park | Crédito: Larissa Honorato

Falando como fã de longa data e que tem o Alice in Chains como uma das bandas favoritas da vida, digo que foi emocionante presenciar hits como Down in a Hole (que me acolheu em vários momentos difíceis da minha vida, inclusive na depressão), Them Bones, No Excuses, Angry Chair e Man In The Box, finalmente, ao vivo. Mesmo com a eterna falta que Layne Staley faz (pra mim, uma das vozes mais lindas e melancólicas que esse mundo já teve), DuVall é competente ao imprimir seu estilo sem copiar ninguém – e é fato que sua presença na banda trouxe uma identidade nova e que deixou o Alice in Chains superar o grunge para entrar na atemporalidade. Faixas como Stone, uma das recentes que eu mais gosto, mostram como é saber seguir em frente sem sacrificar o que representou no passado.

Ainda com as falhas, atribuídas exclusivamente à organização do festival, já que todas as apresentações foram boas e a acústica dos shows estava impressionante, o Solid Rock teve um bom saldo e uma lição de casa com vários itens para serem aprimorados. Mas o fato de conseguir ver os hinos da minha vida Would? e Rooster ao vivo, fizeram meu ano inteiro valer a pena.

Alice in Chains durante apresentação no Solid Rock em São Paulo, no Allianz Park | Crédito: Larissa Honorato
Refrão de Man in the Box. FEEEEEED MY EYEEEEEES (um dos momentos mais emocionantes do show) | Crédito: Larissa Honorato

Solid Rock
Allianz Park – 10 de novembro de 2018
Avaliação do Festival: ♥♥ (Regular)
Avaliação Black Star Riders: ♥♥♥♥ (Muito Bom)
Avaliação Judas Priest: ♥♥♥♥ (Muito Bom)
Avaliação Alice in Chains: ♥♥♥♥ (Muito Bom)

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