Diário de Bordo: um roteiro de dois dias pelo Rio de Janeiro

Nunca entendi muito bem a rixa do paulista com o carioca. Nunca entendi muito bem como podem duas terras tão distintas, de contrastes tão deliciosos e que claramente poderiam dialogar entre si no que concerne ao respeito às diferenças, permitem-se uma parcela de discussão da urbanidade contra a praia, do ketchup na pizza contra os recheios mirabolantes, de tudo. Se a gente se organizar, todo mundo fica feliz. Só esqueceram de falar pro brasileiro. E o resultado está aí…

Eu confesso que tenho encontrado muita dificuldade pra escrever em tempos de tanto caos, tanto ódio, tanta polarização. Nunca estive tão assustada com o cenário político do meu país, ao mesmo tempo em que nunca estive tão assustada com as pessoas em si. Só que escrever sempre foi uma questão muito clara de sobrevivência. E cá estive eu, na frente do computador, lembrando de tempos felizes. As viagens sempre me resgatam memórias valiosas, pois elas sempre me enriquecem. Um tipo de riqueza não comprada com objetos, mas pautada na experiência. E olhar as fotos que eu tinha guardada aqui no computador dos meus tempos turistando pelo país gigantesco e plural que é o Brasil me trouxeram um pouco mais de sanidade. E cá estou eu, escrevendo sobre lugares pra mostrar o que temos de valioso. E pra distrair também você, leitor, em tempos loucos.

Rio de Janeiro (RJ) | Crédito: Camila Honorato
Vista a partir do Corcovado no Rio de Janeiro (RJ) | Crédito: Camila Honorato

Eu me descreveria como uma paulistana convicta antes de ter essas experiências gratificantes de percorrer as estradas do meu país e de conhecer outras culturas além-mar, em outro país. Hoje meu coração se adapta em qualquer lugar e eu prefiro me ver como alguém que ainda se permite questionar a residência fixa diante de um novo cenário. Quando pisei no Rio pela primeira vez, achei que muitos dos clichês se aplicavam a essa terra. Os bons clichês: o Rio é mesmo uma Cidade Maravilhosa, os cenários ao redor de cada canto que eu pisei são uma exposição clara do que é a natureza rica desse país. Quem disser o contrário está mentindo: imune a gente nunca fica aqui. É impossível.

Meu roteiro de dois dias pelo Rio envolveu, antes de tudo, a exploração de lugares não turísticos, em passeios simples que me encorporaram à rotina dos cariocas. Um almoço de boteco, uma caminhada pela calçada da Barra da Tijuca, umas comprinhas em um empório qualquer, um vislumbre da fachada do Copacabana Palace de dentro do táxi que me levou ao delírio coletivo do consumo, até a Livraria da Travessa no Barra Shopping… É gostoso sentar na cadeira de um quiosque, mesmo no dia nublado e abafado que me recebeu, pra ver as pessoas jogando pelas areias da praia, bebericando uma água de coco e constatando que existe muita magia em pisar nesse lugar. Os gringos se encantam, a fama se expande, e uma das sete maravilhas do mundo acena pra gente de vários cantos da cidade como se a gente estivesse dentro de uma obra de ficção, daquelas bem romantizadas.

Rio de Janeiro (RJ) | Crédito: Camila Honorato
Fim de tarde no calçadão da Tijuca. Até em dias nublados essa cidade aquece o coração | Crédito: Camila Honorato

DIA 1

Mas já que é pra falar de turismo, bora lá mostrar o que foi que eu aprontei pelas terras cariocas e usar isso como dicas pra vocês. Já aviso: meu roteiro, pela primeira vez na vida, não incluiu museus. Mas quanto a isso, vale ressaltar que a cidade tem vários lugares ótimos pra alimentar o intelecto (a despeito da tragédia com o Museu Nacional, reduzido ao pó depois de um incêndio promovido pelo descaso com a nossa cultura). Aqui, espaços como o Museu do Amanhã, o Museu Nacional de Belas Artes, o MAM, o CCBB (só pra citar alguns), transitam entre a história e a modernidade para promover uma experiência cultural gratificante ao turista. Cultura aqui é o que não falta.

Mas falemos agora da minha vivência e do que eu, paulistana desvairada, experimentei na cidade. Pra mim, é impossível não sugerir que a jornada se inicie bem cedo, depois de um café da manhã reforçado, pelos ambientes calmos e pacíficos do Jardim Botânico, o mais antigo do país e com mais de duzentos anos de história. Encomendado por D. João VI com o propósito de adaptar mudas orientais ao clima brasileiro, o jardim viria a se tornar o antro de uma riqueza botânica inigualável – hoje ele é tombado como Patrimônio Nacional pelo Iphan e como Reserva da Biosfera da Mata Atlântica pela Unesco. Vale respirar um pouco de ar fresco, ter os vislumbres únicos da cidade em seu entorno. Natureza faz bem pra impulsionar um dia tranquilo.

Rio de Janeiro (RJ) | Crédito: Camila Honorato
Perspectivas em uma das muitas visões maravilhosas proporcionadas pelo Jardim Botânico | Crédito: Camila Honorato

De lá, siga para outro ponto queridinho de qualquer bom amante da natureza. O Parque Lage, tombado pelo Iphan como patrimônio histórico e cultural da cidade, ficou conhecido pela visão do espelho d’água no interior da construção principal. No entanto, os 52 hectares do local, projetado em 1840 pelo paisagista inglês John Tyndal, concentra uma rica área verde de floresta nativa da Mata Atlântica em seu entorno. As programações culturais mudam de acordo com as temporadas, então é preciso consultar a agenda no site para saber o que eles reservam ao visitante no período escolhido. Ainda assim, só o jardim romântico já é o suficiente pra fazer qualquer um cair de amores. Na pausa pro almoço, vale ficar por ali mesmo e dar uma oportunidade ao Plage Café, que oferece um brunch interessante e um cardápio de almoço enxuto e sofisticado (tem comfort food tanto pra carnívoros como para veganos).

Rio de Janeiro (RJ) | Crédito: Camila Honorato
Um ângulo do Parque Lage, com o nosso padroeiro abençoando tudo ali de cima | Crédito: Camila Honorato

Estômago abastecido e alma lavada com o que só a natureza é capaz de nos proporcionar, que tal variar um pouco e explorar a riqueza arquitetônica de algumas igrejas? A nossa escolhida foi a Nossa Senhora da Glória do Outeiro, cravada no bairro da Glória e cujo pátio oferece uma visão privilegiada da cidade. Construída na primeira metade do século 18, ela foi queridinha da Família Real portuguesa e palco do batismo da princesa Maria da Glória (primogênita de D. Pedro I e D. Leopoldina e futura rainha D. Maria II de Portugal), de D. Pedro II e da Princesa Isabel. Os detalhes externos, em formato de octágonos, conferem à construção um aspecto único. Em seu interior, o altar e a decoração tem um quê de barroco e é cercado pos uma rusticidade sofisticada. Um bom lugar pra tentar retomar as esperanças e fortalecer um pouco a espiritualidade.

Rio de Janeiro (RJ) | Crédito: Camila Honorato
Visão da charmosa Igreja Nossa Senhora da Glória do Outeiro | Crédito: Camila Honorato

Aproveitando a localização democrática da construção, impulsione o resto da tarde para dar uma passada rápida no Centro da cidade, para apreciar construções como a do monumental Theatro Municipal, e seguir para a queridíssima Lapa. Aqui, não só a visão dos Arcos (parada obrigatória pra fotos clássicas) valem a visita e alguns minutos de silêncio e contemplação, mas também seu entorno – ele concentra muito da boemia carioca, em uma atmosfera que transita entre uma Vila Madalena de raiz e o baixo Centrão de São Paulo.

Rio de Janeiro (RJ) | Crédito: Camila Honorato
O esplendor arquitetônico do Theatro Municipal | Crédito: Camila Honorato

Mas é claro, a gente entende: comparações são inúteis, porque cada canto é único. E aqui, a máxima da vida cultural pulsante é mais do que válida. Ela está presente em cada canto que oferece uma cerveja gelada nas mesas da calçada, nos grafites das paredes, no barulho do Samba e da Bossa Nova que ainda são usadas para fisgar o coração da gente de dentro dos bares. Os cariocas sabem o que fazem… Pra estender a experiência, experimente assistir a um show no Circo Voador e explorar as cores e os mosaicos incríveis da Escadaria Selarón, projetada pelo artista plástico homônimo chileno em homenagem ao nosso país.

Rio de Janeiro (RJ) | Crédito: Camila Honorato
As cores e os mosaicos da Escadaria Selarón, uma das paradas obrigatórias na cidade | Crédito: Camila Honorato

Termine a tarde e comece a noite em um dos muitos pontos que oferecem boa comida e bebida aos montes pra curtir com os amigos. Entre o simples e o mais burguês, vale dar uma chance ao Bar Arco-Íris pra vibe roots ou pro Boteco da Garrafa pro sofisticadinho de bairro.

Rio de Janeiro (RJ) | Crédito: Camila Honorato
Ah, os Arcos da Lapa… ♥ | Crédito: Camila Honorato

DIA 2

Recomendo reservar uma parte considerável do seu ato de “turistar” a uma das coisas mais importantes de uma viagem: a contemplação. Não resta dúvidas de que essa cidade concentra mirantes que escancaram uma beleza extraordinária dessa terra. Vale reservar ingresso para o passeio de bondinho até o Pão de Açúcar, um dos cartões-postais chave da cidade. Mas o prazo era curto e eu tive que escolher. E eu escolhi Jesus.

Rio de Janeiro (RJ) | Crédito: Camila Honorato
“Padre Cícero, Corcovado. Eu sou um calango carioca” | Crédito: Camila Honorato

Antes de tudo, é preciso ter em mente que ambas as atrações citadas são extremamete concorridas e exigem agendamento e compra prévia de ingressos. Depois, é preciso ter em mente que não dá, em absoluto, para visitar ambos às pressas: Jesus Cristo me pediu horas e horas de contemplação, de modo que a junção do caminho até o topo do Corcovado pelo trem, mais a observação e acesso da estrutura local, mais o almoço de lanchos e mais a pausa pra simplesmente existir ali resultaram em uma manhã inteira. Só que eu digo sem pestanejar: a visão proporcionada pelo Cristo Redentor é, de novo, um clichê que cai bem. Sem exagero: é uma das visões mais espetaculares que eu já tive o prazer de contemplar na minha vida. Tem um quê de grandiosidade no monumento que casa com tudo o que é cercado por ele. É um daqueles convites que os cartões-postais fazem a você pra olhar pra dentro, dar aquela chorada básica, refletir… Aquele abraço!

Rio de Janeiro (RJ) | Crédito: Camila Honorato
E que abraço! | Crédito: Camila Honorato

Outras sugestões de mirante são o do Dona Marta, na favela pacificada, e a Vista Chinesa. Desculpa, eu sou a guria dos parques: esse, em particular, fica localizada na Floresta da Tijuca. Mais pausa pra caminhadas, mais ar fresco, mais natureza brasileira te dando um conforto no coração e uma sensação de paz. A visão eu resumo em uma única foto, aqui embaixo. O resto é com vocês.

Rio de Janeiro (RJ) | Crédito: Camila Honorato
O que a Vista Chinesa nos revela | Crédito: Camila Honorato

É claro que há muito mais pra ver na cidade. Isso pra não citar as praias. Contemple um pôr-do-sol nas orlas, sente-se nas areias de Copacabana ou Ipanema, respire fundo e agradeça. Apenas seja! O Rio te permite isso.

Veja todas as fotos da viagem para o Rio no meu portfólio do Flickr

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