Conto: As Marcas do Holocausto

Eu gostava do cheiro da flor de laranjeira. Queria que as pessoas sentissem isso quando estivessem perto de mim. Ou tivessem uma recordação de como eu costumava ser a partir desse aroma. Uma forma de ser eternizada, lembrada. Uma forma de não deixar o que passou cair no esquecimento.

Eu me lembro do exato dia em que fui parar naquele internato. Lembro-me de ter parado diante de uma construção antiga, mas bem preservada. Tudo era tradicional, no sentido mais arcaico da palavra. Ao conversar com uma secretária responsável pela admissão de alunos, me desentendi feio com ela. Discordava de alguma coisa, mas não me lembro bem o que era. Acho que o bombardeio tornou tudo isso extremamente desimportante. Tudo o que vinha antes era uma sombra vaga de algo que eu considerava parte de uma vida passada. Um véu invisível em cima dos meus olhos.

Naquela época, eu mal sabia que aquele cenário iria se transformar aos poucos – e que eu não saberia dizer quando foi que eu verdadeiramente notei a mudança. Eu me lembro de percorrer corredores parecidos com os de uma escola, mas que eu não tinha certeza de ser uma escola em si. Lembro-me de ter cruzado os olhos em um garoto jovem, de tê-lo odiado quase que instintivamente. Ele me provocava maliciosamente, mesmo sabendo que eu não simpatizava com a figura dele. Tínhamos desentendimentos, parecíamos dois adolescentes. Mas esse mesmo garoto que eu odiava se transformaria e me acompanharia durante toda essa história.

Crédito: Arquivo Federal Alemão (Bundesarchiv)
Por trás da histeria coletiva, tempos sombrios se escondem | Crédito: Arquivo Federal Alemão (Bundesarchiv)

O fundo do que parecia ser uma escola adquirira elementos apocalípticos. A Segunda Guerra tinha estourado. Logo, não sabia mais se estava em um tipo de internato ou num campo de concentração. Já não tinha certeza se estava na Alemanha, país de meu pai: tinha momentos, pelos relatos que eu escutava pelos corredores, que o lugar onde nasci e vivi parecia a Polônia. Na guerra, não existe identidade, pois tudo vira um pedaço de uma destruição em massa. E, naquele tempo, tudo era confuso. Em comum entre todos nós, havia a guerra, o terror e o medo. Tudo que eu conhecia e amava era destruído aos poucos.

Não podíamos sair daquele “internato”. E a consequência logo se fez ver: a comida e os mantimentos tinham acabado. Começamos todos a definhar a olhos vivos. O trancamento passou a enlouquecer a todos, privados de fazer suas necessidades mais básicas, de ter acesso aos direitos mais comuns aos seres humanos. Logo, não demorou para que alguns tentassem tirar proveito da situação. Não havia os namoricos típicos da adolescência, quando os hormônios borbulham, fervem e ficam à flor da pele. Mas estavam meninos e meninas convivendo trancafiados num mesmo ambiente, sujeitos à visita da morte a qualquer momento com os barulhos que vinham de fora. Janelas e portas começaram a ser danificadas com os tiros e as bombas. O cenário se deteriorava. As pessoas se deterioravam, mas o toque era a única coisa que se salvava. Era triste constatar que eu tinha sido esquecida. Tantos jovens prometidos a uma educação de qualidade relegados ao abandono em um lugar cujas paredes já começavam a cair.

Eu tinha horror ao cheiro. Tinha horror dos aromas que saíam daquela cozinha. No começo, me lembro exatamente do olhar de soberba que as mulheres que nos serviam das cozinhas dirigiam a nós, os jovens indomados. Logo, com a ausência de comida, eu vi aquele mesmo olhar ser convertido para uma preocupação irreversível ao ver nossos ossos protuberantes sobre a pele. E, por fim, elas mesmas se tornaram uma peça desesperada daquele espetáculo de horrores. As mãos delas eram, enfim, impossivelmente trêmulas ao jogar a pouca comida que restou em nossas bandejas. Elas padeciam tanto quanto nós.

O jovem que eu odiava, que tantas vezes me dirigiu olhares de malícia naqueles corredores, ficou com os olhos fundos e arroxeados. Foi um período lento até que eu finalmente concordasse em simplesmente segurar sua mão. Para me conter, para ter conforto em meio ao caos do abandono. Algumas vezes, ele deixava um pedaço do próprio bolo na minha bandeja. Ajudava a aplacar o excesso de tremedeira. Decidi que precisava me apoiar nele e naquele abraço quente para me manter sã. Era a única coisa próxima de uma família que eu tinha ali. Aqueles restos de comida me despertaram uma gratidão enquanto, dia após dia, o estômago roncava mais e eu fraquejava. Ele me segurou mais de uma vez quando eu estava prestes a cair.

O dia era nublado e os bombardeios distantes nos deram uma folga quando eu o vi pela primeira vez. Nos convidaram de dentro do internato para seguirmos para as ruas paralelas que nos aprisionavam para vê-lo passar. O cenário externo da guerra já era deprimente, com marcas de balas e ruas destruídas. Mas a população ali sustentava no olhar uma espécie de ternura, admiração e esperança ao vê-lo passar. O tal do führer, pensei. Prometia mundos e fundos, uma melhora na vida que estávamos levando. Vinha acompanhado de soldados. Andava em carro de luxo, acenando para os zumbis que ocupavam as ruas destruídas. Aquele bigode nunca me inspirou nada que não fosse desconfiança. Mas agora, o pouco da força que eu tinha me fazia fechar as mãos em punho com o simples lampejo daquele olhar soberbo.

Escutava as ladainhas daquele homem. Ficava frente a frente para ele. Ele acenava, seus olhos claros e cruéis casando com aquele bigode horrível que lhe era característico. Soldados erguiam os braços naquele gesto ridículo para saudá-lo. Éramos obrigados a fazer o mesmo, mas eu sabia que ninguém que estava naquele meio desgraçado onde eu me inseria era a favor dele. Ele sorriu, e eu senti nojo. “Esse sorriso falso, essa crueldade”, pensei. Depois de seu discurso, de suas promessas falsas, ele ergueu a mão e segurou a minha. Senti nojo. Segurou a mão de outras pessoas, como se acreditasse que estava fazendo um favor a nós. Nos tocando. Eu lavei as mãos ao voltar pra dentro, mas o sentimento de imundice não saía de dentro da minha cabeça. Me lavei tanto que minhas mãos acabaram por sangrar. O garoto voltou, com aqueles cabelos louros insolentes. Notei que muito daquele brilho amarelo tinha se esvaído, e o olhar dele era indecifrável quando ele invadiu o banheiro para secar minhas mãos sangrentas. Não disse uma palavra. Só as beijou.

Os dias se passaram como um lampejo desimportante quando voltamos a ouvir as bombas explodirem do lado de fora. Foi o dia que eu mais temi pela minha vida. As balas agora invadiam aquela bolha sórdida de proteção nos quartos dos andares de cima. Janelas se quebraram, um corpo foi enterrado. A cozinheira, de olhos fundos e puro osso, já não tinha sequer uma expressão. O lugar estava mais destruído do que nunca. Pessoas começaram a morrer de fome. Vi corpos à minha frente, empilhados e tratados como uma coisa qualquer. Senti medo. Agarrava aquela mão branca conhecida como um sopro de vida que ainda me restava. Ele invadiu meu quarto pela primeira vez, sem a emoção daquela proibição que antes nos sondava. No caos, aquilo não mais importava. Aquele corpo quente naquele inverno sem fim se embrenhou na minha cama. Aquela costela não era tão ossuda quanto a minha, mas ainda era muito magra. Não sei como tive forças pra sustentar minha própria defloração. Mas consenti. Foi o único lampejo de conforto que senti em semanas, mesmo que aquilo me doesse tanto. Logo, virou rotina. Minha hora favorita do dia, quando eu podia esquecer que o mundo lá fora tinha se reduzido ao pó. O corpo magro e cansado dele me soprava canções de ninar. Era uma voz tão triste… Nós dois éramos, afinal, dois desgarrados, esquecidos por nossas famílias e abandonados à própria sorte.

E então, o tempo passou. Não me lembro de como conseguimos sair daquele lugar e ir parar como dois indigentes em uma casa abandonada. Barganhamos o resto dos nossos pertences, vendíamos livros roubados pela chance de um prato de comida. Não demorou muito até sentir meu ventre começar a se comprimir. Uma vida que nunca viria a ver a claridade daquele céu constantemente nublado e cercado de fumaça, porque meus ossos não foram capazes de sustentá-la. Minhas mãos continuavam sangrando depois de horas embaixo daquela torneira. Eu continuava me sentindo suja, e a água acinzentada não me ajudava. Ele sempre vinha ao meu encalço enxugar todo aquele sangue e lágrimas com uma toalha velha. Soprava aquelas antigas canções de ninar para me confortar, pousando aqueles olhos quase brancos de tão claros em cima de mim. Era a única coisa que me despertava para algum tipo de sentido dentro daquele fim de mundo.

Eu perdi a noção do tempo. Não sabia quantos anos se passaram até que eu visse tudo o que eu conhecia se reduzir a escombros. Perdi as contas de quantas vezes nos mudamos de um caco de casa velha e abandonada para outra igualmente decadente. As barganhas por comida pioraram. Mais uma vida acabou ceifada pelo meu ventre pela falta de força. Minha crise de choro desse dia aumentou o sangue das mãos até os punhos. Mas até o ferro das facas ao meu alcance perderam a força. Foi a única vez que ele veio ao meu encalço sem uma canção de ninar sequer. Foi a primeira vez que eu o vi gritar comigo. E chorar mais do que eu.

Crédito: Arquivo Federal Alemão (Bundesarchiv)
Imagem histórica de mulheres judias no Gueto de Budapeste | Crédito: Arquivo Federal Alemão (Bundesarchiv)

Dias depois, ouvimos um estrondo anunciar que a guerra havia acabado. Mas as vozes estavam fracas demais para emitir som. Tudo havia mudado. Caminhei pelas ruas apocalípticas com meu companheiro até atravessar a floresta negra e parar  na margem do Danúbio, que abrigava pequenos barcos. Quero passear de barco, pensei. Ele concordou. Quando olhei para ele, tive a constatação de que tinha envelhecido décadas. Ele se encontrou com amigos, que sobreviveram ao terror, tão abatidos quanto ele. Sopravam coisas sobre não me deixar ver meu próprio reflexo na água sob a pena de me assustar. Mas aquele homem, que ainda me segurava pelas mãos e que nunca deixou um espelho ao meu alcance, sob a pena de me ver quebrando seus cacos para ferir aquelas mãos constantemente ensanguentadas, só dizia que eu precisava mesmo saber qual era a minha realidade.

Achei estranho. Nesse momento, minha alma se desprendeu do meu corpo e eu passei a observar minha própria figura à distância. Sabia que a mulher que se movimentava e tentava entrar no barco à minha frente era eu. Mas eu havia me desprendido pra observar meus próprios movimentos. Vi quando a mulher entrava no barco e abaixava o rosto para ver o reflexo na água. E então eu me vi gritar, apavorada. Me vi chorar. Os cabelos cobriam o rosto da mulher à minha frente. Mas eu sabia que ela estava velha e cansada. Sabia que era eu ali, chorando apavorada com meu novo reflexo. Não sabia se eram os anos que se passaram sem que eu me desse conta deles ou se era reflexo do terror, da fome e da miséria que havia me reduzido a uma idosa antes do tempo.

Entrei no barco sozinha, deixando meu companheiro. Percorri os canais, observando as árvores que cercavam aquelas águas todas. Me senti mais viva e feliz. Passeei tanto dentro do barco que já não via mais nenhum resquício da cidade. Era só o barco, as águas e natureza ao redor, purificando tudo. Tinha eucalipto. Mas também tinha flor de laranjeira – essa eu não sabia se era minha cabeça reproduzindo alguma memória afetiva pra me devolver a sanidade ou se era algum sinal do deus que eu havia deixado de acreditar que existia. Mas uma coisa era fato: eu realmene amava flor de laranjeiras. Me lembrava a terra de minha mãe.

Quando voltei para a cidade, meu companheiro me esperava. Andamos de mãos dadas pelas ruas da cidade, que se regenerava. Ele parecia menos idoso agora. Havia um frescor de sua juventude presente em seus olhos. Sorrimos um para o outro e sentimos aquele companheirismo forte. Até que, cruzando uma esquina, ficamos de frente para o tal “internato”. Para o nosso campo de concentração. Numa troca de olhares que pareceu durar uma vida, nos lemos um no outro: isso nunca mais pode acontecer.

* OBS: Esse conto foi inspirado em um sonho, sem qualquer ligação com alguma história real. Pelo menos que eu saiba. É um vislumbre de um novo projeto literário, que eu escrevo sentindo dor. E me pergunto: quantas histórias tristes e ocultas estão por trás desses cemitérios esquecidos pelos torturadores que hoje insistem em resgatar tempos de armas de fogo e palavras de ódio?

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