Crítica Musical: Pitty inicia turnê em São Paulo com show potente e intimista

A palavra de ordem para o rock é uma só: renovação. Já faz anos que a discussão em torno do gênero trata do desgaste de calcar sempre as mesmas influências e acordes em referências antigas. O rock se atrapalha muito com o saudosismo, com a falta de diálogo com outros gêneros, com a falta de riscos e posturas firmes em presenças de palco que, hoje, se resumem a fazer não mais do que a obrigação. Faltam performances, faltam figurinos, faltam exageros. E falta abertura.

Na contramão desse cenário, parafraseando uma de suas mais recentes músicas de trabalho, Pitty soube dar um gás novo em sua carreira ao dialogar com outros gêneros musicais e se permitir novos caminhos dentro do gênero que a abraçou. Seus novos singles trazem participações de respeito e flertam com outros gêneros musicais – um tipo de experimentação que impulsiona a identidade de sua nova turnê, Matriz, trazendo a artista de volta aos palcos depois de dois anos sem longas apresentações (a ausência tem dedinho da filha, Madalena). Depois do grito de sobrevivência do disco Sete Vidas, que falava principalmente de saber se reinventar depois de tempos conturbados (claramente, me apoiei muito nesses versos depois de experiências pessoais de quase morte), o clima é um pouco mais descontraído e intimista, sem perder o peso que baseia suas canções e a palavra-chave do discurso da artista: o empoderamento.

Tássia Reis no show da Pitty na Audio Club em São Paulo (Setembro de 2018) | Crédito: Camila Honorato
Tássia Reis durante o show de abertura, mandando o rap de responsa | Crédito: Camila Honorato

No recente show, realizado na Audio Club em São Paulo no dia 21 de setembro, a apresentação de abertura contou com um nome de responsa do rap brasileiro: Tássia Reis, que empresta seus vocais na música Contramão, que também conta com a participação da mais nova musa do rock alternativo – a jovem Emmily Barreto, do Far From Alaska. Em uma hora, a artista destilou versos sobre empoderamento, incentivou a plateia com os mais recentes posicionamentos políticos do #EleNão e arriscou-se bonitamente nos vocais. Mesmo com sua competência, Tássia infelizmente não escapou dos gritos de alguns desrespeitosos da plateia que insistiam pela presença de Pitty sem respeitar o espaço destinado à sua convidada, o que me faz pensar que uma parte dos brasileiros não merece os artistas que têm.

Pitty, por sua vez, optou por um cenário de luzes baixas em seu show, algo que casa mais com a atmosfera de proximidade proporcionada pelo novo projeto. Hits antigos que impulsionaram sua carreira, presentes nos álbuns Admirável Chip Novo e Anacrônico, impulsionaram as primeiras faixas do setlist. Porradas como as músicas homônimas aos discos, bem como Memórias e Sete Vidas, entrelaçaram-se com Te Conecta (seu mais recente trabalho, onde se arrisca e flerta com o reggae) e a balada Na Sua Estante.

Em um dado momento, a cantora senta-se com seus companheiros de banda para presentear o público com uma sessão acústica, na qual relembra seus tempos de musicista sonhadora em um quarto em Salvador, onde quatro acordes eram o suficiente para promover independência musical (e como a gente sabe o quanto poucos acordes podem nos libertar no processo de criar nossas próprias músicas…). É nesse momento que músicas como Teto de Vidro e Temporal, presentes no álbum de estreia, ganham o coro da plateia. Sobrou até espaço para Dançando, faixa de seu projeto paralelo Agridoce.

Pitty na Audio Club em São Paulo (Setembro de 2018) | Crédito: Camila Honorato
O clima intimista dá o tom de ‘Matriz’, a nova turnê da cantora | Crédito: Camila Honorato

Antes do bis, a cantora recebeu a participação da própria Tássia na faixa em que assinam a recente e barulhenta parceria e no cover de Feeling Good, de Nina Simone. Também teve a bombástica aparição do rapper Emicida na primeira performance ao vivo de Hoje Cedo, música que assinam juntos (e que, surpreendentemete, foi uma das mais cantadas pelo público). Os dois, inclusive, permaneceram no palco durante a performance do hit Máscara, faixa que impulsionou a carreira da cantora e a lançou ao irreversível estrelato. No bis, Equalize, Desconstruindo Amélia e Serpente deram um respiro mais tranquilo ao público. A última, aliás, proporcionou o momento mais emocionante do show, onde o mesmo público que se enroscou nos bate-cabeças montou uma enorme roda coletiva para dançar de mãos dadas.

Analisando a figura de Pitty na indústria, é admirável ver uma artista que permanece forte às suas raízes, mas que nem por isso não se permite uma reivenção. A raiva e a interação discreta com o público, que tanto estiveram presentes em suas primeiras apresentações, deram lugar a uma artista muito mais segura e que amadureceu brilhantemente aos olhos da crítica e do público. E não há nada mais lindo do que uma mulher segura em cima de um palco mostrando que nosso lugar é onde nós quisermos.

SETLIST

  1. Admirável Chip Novo
  2. Anacrônico
  3. Setevidas
  4. Memórias
  5. I Wanna Be
  6. Te conecta
  7. Na sua estante
  8. Um Leão

    Acústico

  9. Teto De Vidro
  10. Temporal
  11. Metamorfose Ambulante (cover de Raul Seixas)
  12. Dançando (Agridoce)

    Segunda Parte

  13. Controle Remoto
  14. Contramão (com Tássia Reis)
  15. Feeling Good (cover de Nina Simone) (com Tássia Reis)
  16. Me Adora
  17. Hoje Cedo (com Emicida)
  18. Máscara (com Tássia Reis e Emicida)

    Bis

  19. Equalize
  20. Desconstruindo Amélia
  21. Serpente

AVALIAÇÃO FINAL: ♥♥♥♥ (Muito Bom)

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