Crônica: A saga do primeiro vôo internacional

As pessoas reclamam demais. Era o que eu pensava enquanto sentava na cabine do avião e me recostava na poltrona, descascando os esmaltes das unhas e tentando controlar as borboletas no meu estômago. Tentava me manter tranquila diante daquele passo que eu tanto havia sonhado em consquistar. Mas, no meio daquele mar gigantesco de empolgação, amaldiçoei um pouco a minha atitude corajosa de ter deixado a cartela de Rivotril em casa.

Tem algo de mágico em atravessar os portões de embarque em direção a um país diferente. É como atravessar um portal e ir de encontro a um objeto de idealização fantástico, daqueles que a gente acredita só ser possível nos filmes. Isso me fez ter um pouco de inveja de quem tem o privilégio de viajar para fora constantemente desde criança, ao mesmo tempo em que lamentei a ausência dessa magia toda que eu estava sentindo no coração dessas mesmas pessoas. Quando o sonho se torna obrigação, parece que alguma coisa fica muito estranha. E sem saber dos meus caminhos futuros, eu só queria aproveitar aquela empolgação ao máximo, sentir aquela ansiedade não patológica em todo o seu esplendor.

Quando você se despede da família na frente do portão, é como se estivesse dizendo um pequeno adeus. Aquele momento talvez tenha sido um dos mais emocionantes da minha viagem, sem que ela sequer tivesse começado. Toda uma encheção de saco de uma vida sendo posta em prática é uma emoção enorme. Minha mãe chorava de felicidade e medo de não me ver de volta por um tempo, mesmo que eu já estivesse com a passagem de volta comprada. “Meu pequeno pássaro está criando asas enormes”, ela dizia. Minha irmã sorria e soltava fogos de artifício internos, alguns deles pela vantagem de ter o quarto e alguns batons a mais por um período de quase um mês. Meu pai só acenava e me dizia pra aproveitar. Um enigma até em despedidas temporárias.

Meu primeiro vôo internacional | Crédito: Camila Honorato
Segurar esse combo com destino a terras estranheiras pela primeira vez é uma sensação muito louca | Crédito: Camila Honorato

E então era isso. Eu atravessei o portão, segurando as malas e o passaporte nas mãos como se ele fosse um troféu. “Olha aqui, eu tenho um passaporte”, eu comemorava internamente. Eu tinha um documento que me dava possibilidades além-mar. Uma possibilidade que antes eu só idealizava na forma de parques temáticos e grandes universidades americanas, mas que agora se configurava em um leque cultural muito maior e mais interessante. De uma coisa eu tinha certeza: eu ia me entupir de pastel de Belém antes mesmo de saber que o nome certo era pastel de nata. Eu ia chorar uma vida sozinha nos cartões-postais que eu idealizava visitar no instante que descobri versos de Fernando Pessoa. Eu ia ser um sonho acordado e despertaria com uma sensação estranha depois de algumas semanas.

Dentro da cabine do avião, eu me lembrava daqueles relatos toscos de viajantes exigentes e que gostam de reclamar. Eu estava cercada por muitos deles, reclamando dos absurdos de não poder carregar uma vida nas bagagens de mão, pela falta de exclusividade, pela ausência de um banco na janela. Deus me livre sentar na janela, eu tenho medo de altura e vertigem ao olhar pra baixo. Felizmente, no canto daquele banco, já tinha um homem de postura classuda, elegante e confiante. Talvez a gente conversasse um pouco durante aquele trecho de dez horas confinados naquela cabine gelada. Eu estava bem agasalhada, mas eu nunca tinha experimentado o inverno europeu. Será que eu ia sofrer demais?

Apertei os cintos com a mesma empolgação de uma criança de dez anos. Isso é ridículo, eu já andei de avião antes – foi o que eu pensei. Mas era inevitável. A companhia aérea prometia um cardápio maroto durante o vôo. Pois é, eu já estava pensando na comida, lendo trechos do livro nas minhas mãos sem conseguir me concentrar por causa da ansiedade, e já prevendo o que eu podia fazer pra me entreter. Gente ansiosa sofre muito em vôos longos? Vai saber. Mas eu estava achando o máximo. Era comida de graça (ou não, já que eu paguei a passagem), uma tela cheia de filme bacanudo pra assistir e um rapaz classudo do meu lado. Eu já disse que eu acho que as pessoas reclamam demais?

O avião partiu. Quando ele levanta, dá uma sensação danada de estranha. O tímpano fecha, a garganta seca e o coração palpita dez vezes mais. Misericórdia, tá acontecendo mesmo! Coloquei os fones de ouvido e fui caçar alguma coisa na televisão do chamado “entretenimento a bordo”. Santa cafonice. Tinha umas músicas que só Jesus na causa, mas também tinha uns filmes que eu ainda não tinha visto. Pus logo o protótipo de galã na minha fuça que atendia pelo nome de Thor e relaxei na poltrona. Eu não ia conseguir ler porra nenhuma mesmo, maldita falta do Rivotril. Mas o filme era divertido. A ponto das primeiras gargalhadas do rapaz classudo do meu lado se fazerem ouvir. Mas ué… Olhei de rabo de olho. Ele realmente estava assistindo o meu filme, e me deu um ciúmes pequeno de ver aquela minha tela momentânea sendo compartilhada. Veja o seu filme no seu quadrado, guri! E no mesmo instante que pensei isso, pousei os olhos nas mãos dele. Enorme, quadrada… Eu não sei lidar com mão bonita de homem.

Meu primeiro vôo internacional | Crédito: Camila Honorato
É cada experiência maluca que uma viagem traz… Penso nisso até hoje! | Crédito: Camila Honorato

Lá pelos quinze minutos de filme, eu já tinha conquistado uma intimidade não dita e sem qualquer interação intencional com aquele homem. A risada não era mais disfarçada, ele realmente estava se divertindo com o vislumbre que tinha do filme do meu lado. Tá, né. Olhei pra ele e entreguei um dos lados do meu fone de ouvido pra ele ver o filme comigo de vez. Ele sorriu. Desgraça de homem classudo que ri com facilidade. Encostei de leve nele e fiquei ali, rindo daquelas cenas bobas enquanto não sentia as primeiras duas horas de vôo irem embora. Mas não dizem que os portugueses são todos frios? Eu ainda escuto as gargalhadas soltas dele nos meus ouvidos.

Quando o filme terminou, ele se apresentou pra mim com aquele sotaque indisfarçável. O sorriso chegava nos olhos do danadinho, que atendia pelo nome de Daniel. Tinha vezes que eu não conseguia olhá-lo nos olhos porque minha promiscuidade com as mãos me levavam a contemplar aquelas unhas certinhas naqueles dedos grandes. E o Daniel era meio louco: quem é que se embrenha pelo sossego das montanhas mineiras em pleno Carnaval brasileiro? Ele estava feliz de ter experimentado cachaça, se apaixonou por doce de leite, disse que aquele verde da montanha, que eu conhecia tão bem, era encantador. E se surpreendeu com o frio ao anoitecer e com as taxas que a gente paga pros garçons nos restaurantes. Era curioso. E eu ali, contando que tinha me embrenhado por bloquinhos de rua paulistanos. Poupei dos detalhes porque acho que ele desconhecia o que a gente andava cantando e fazendo naquela folia de multidões. Lembrei do cheiro de álcool, de ter me forçado a uma sobriedade quando fiquei perto daquela gente toda que ingere litros de cerveja e chega exalando aquele aroma indisfarçavel ao tentar te dar um beijo sem perguntar seu nome.

Interrompi a conversa porque a comida tinha chegado. Eu já disse que acho que as pessoas reclamam demais? “É carne ou peixe?”. Mas ô louco, eu ainda podia escolher. Pedi peixe porque eu já estava infiltrada naquela saga de me entupir de tudo que era de mar naquela terra de mar. O tempero não era daquelas maravilhas, mas não era de todo ruim. E ainda me serviram vinho. Pois é, eu não me acostumo nunca com oportunidades de regalias e não disfarço o sorriso. “Vinho, é sério?”. A aeromoça riu – e o Daniel também. Comi e relaxei, mandando pra dentro uma sobremesa que eu nem lembro qual era. O silêncio se fez naquelas poltronas e eu voltei a ver filmes, enquanto meu companheiro de bordo ouvia música e olhava a paisagem noturna pela janela. Mas que corajoso. Pedi mais um copo de vinho e escutei ele rir ao ver mais uma cena divertida no meu monitor. Ou talvez ele só me achasse maluca mesmo.

Minutos depois, eu estava cravando as unhas nos braços da poltrona e rogando aos santos que podia contar pra me protegerem e não me matarem antes de eu ter a chance de ver a Torre de Belém. Eu odiava turbulências, e aquelas que passam no trecho entre o Marrocos e a Europa são o cúmulo do inferno. Daniel tocou meu braço e eu abri os olhos. Ele sorriu. “Você tem medo?”, ele perguntou. Acenei com a cabeça. Ele começou a puxar assunto, e eu senti uma gentileza enorme de me distrair enquanto eu simplesmente parecia que ia arrancar os braços daquela poltrona. Minha expressão de pânico devia estar ridícula. Ele fez perguntas sobre a minha terra, e eu senti que minha voz estava muito mais lenta do que o normal quando fui responder. Que diabos estava acontecendo? E então me lembrei dos inúmeros artigos de viagem que havia lido antes de embarcar e de um tópico que quase me passou despercebido: altitude e álcool não combinam. Mas poxa, dois copos generosos de vinho? Era isso, eu tinha conseguido: eu fiquei bêbada no vôo. Eu já disse que as pessoas reclamam demais?

Aquele moço me falou coisas sobre sua terra que faziam seus olhos brilharem. Era o orgulho dos ventos de Lisboa. Será que eu parecia tão interessante quando falava da minha pátria quanto ele parecia ali? Acho que consegui passar essa sensação, pois contei dos meus vôos nacionais pra ele e do quanto eu era fascinada pelas variações de cenários que a minha terra era capaz de me proporcionar. Foi uma troca mútua de informações. Olhei no fundo dos olhos dele e aquiesci. Já não sabia mais se os portugueses eram assim tão arredios ao toque humano, pois eu sei que cochilei encostada nele e ele não se esquivou. Eu deveria me lembrar de não beber vinho em Lisboa sob a pena de querer tocar muitas mãos bonitas por aí. Só que falhei miseravelmente nas missões: eu encontrei bons vinhos a dois euros. E as mãos a gente deixa pra lá…

Meu primeiro vôo internacional | Crédito: Camila Honorato
Meu parceiro de vôo é que era esperto em não ter medo e sentar na janela. Constatei isso no caminho de volta pra casa | Crédito: Camila Honorato

Quando acordei minutos antes de o avião pousar, achei que por um instante eu estivesse sonhando. Dez horas me pareceram curtas, e o valor da interação com o outro me fez sentir que há um quê de valioso em níveis extratosféricos na falta de timidez brasileira. E então, aconteceu mesmo. Eu voei pra outro país. Eu troquei o Rivotril pelo vinho. Consegui dormir e comi como se não houvesse amanhã. Eu já disse mais de uma vez que as pessoas reclamam demais. E só não são mais estúpidas do que eu, que esqueci de pedir o número do telefone daquele homem, que era muito mais alto do que eu imaginava. Ele ria com tanta facilidade… E que mãos tão lindas!

Atravessei os portões com um mix de preguiça e de outras sensações estranhas que o jet lag trazia. Essa porcaria não era mito, afinal – era estranha mesmo! Eu estava aqui, mas não estava. E o resto foram experiências memoráveis. Do trecho que atravessei entre a ventania junto à borda do Tejo e ao trecho selvagem do litoral português no inverno, a memória afetiva que mais guardo com clareza desse primeiro vôo é o da conhecida missão cumprida. Na volta, o vôo me pareceu curto pelas horas dormidas, os filmes assistidos e as paisagens que consegui contemplar porque finalmente criei coragem de olhar para a imensidão aérea sentando na janela. Daniel era quem sabia das coisas…

Mas essa mesma volta me verteu em lágrimas já no aeroporto, em uma solidão deliciosa, me trazendo à mente os dizeres que eu tanto sonhei em bradar no que diz respeito aos meus longos pulos em terras estrangeiras: eu consegui.

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