Crônica: Mas afinal, existe sexo sem sentimento?

Eu tinha a convicção plena de que conseguiria ser capaz de entrar devagar e no escuro na casa dele. Tinha certeza absoluta de que conseguiria deixar um ou dois orgamos virem em uma escala discreta de intensidade para, poucos minutos depois, levantar rápido, me vestir e sair da cama dele com um único beijo na bochecha. Eu jurava, com todas as minhas forças, que iria conseguir.

E então ele veio. Teve um quê de violência consentida. Aqueles tapas que a gente espera, mas que ficam mais fortes de repente. Teve espasmos. E então, ele acendeu um baseado do meu lado e assim ficou, num silêncio devastador e interminável. Levantei, peguei minhas roupas (como tantas vezes eu tinha ensaiado na minha cabeça), recebi um beijo na boca e fui embora. A sensação era estranha: eu realmente queria ter perguntado como o trabalho caótico dele estava, e queria que ele tivesse elogiado um pouco mais as minhas mil formas de trabalhar pra engatar mais e mais na carreira. Mas ficou por isso mesmo: silêncio, erva esfumaçando no ar, um programa desimportante passando na televisão dele. E eu me fui, me sentindo não triste ou chateada, mas estranhamente oca.

Crédito: Valeria Boltneva/StockSnap
Na casualidade, às vezes a gente não acorda machucada. A gente acorda oca pela falta de aproveitamento | Crédito: Valeria Boltneva/StockSnap

Pensar em sexo sem compromisso implica em separar emoção de tesão. Na prática, vivenciando na pele o que isso realmente significa, é algo que verdadeiramente só funciona na teoria. Sempre que saí da cama com meia dúzia de palavras trocadas e movimentos bruscos, a impressão não era a de que eu me sentia machucada, mas ao contrário: eu sentia como se não tivesse tirado proveito de toda a situação. Sempre me dá a sensação de que eu poderia ter feito mais, poderia ter me dedicado mais… E que o outro poderia ter sido mais atencioso com uma série de questões, a começar pelo meu corpo. Poderia ter arrepiado mais a minha nuca e me provocado mais. Poderia ter usado o verbo para me incitar a provar mais. E ali morreu tudo. Todos os orgamos prolongados viraram um suspiro vago e nada mais. Vida que segue. Abro o celular e sigo fantasiando outras situações ao sair dali, mesmo que a pessoa continue do meu lado.

Sexo é sexo, não é amor. Mas sexo é sinônimo de sentir, e não de vazio. Na ausência do amor, o carinho se faz presente. Na ausência do amor, é estúpido substituí-lo pela raiva, pela furtividade, pela pressa. Ou pelo nada. Gozar não combina com testa franzida, mas com boca entreaberta e olhar de satisfação. Gozar combina com um abraço de despedida, ainda que tudo termine só ali e que, no ensaio do amanhã, as vidas sigam com cada um caminhando em uma direção, paralela ou oposta.

Crédito: Toa Heftiba/StockSnap
Pela liberdade de mais cenas como essa por uma noite. Depois, a vida segue e está tudo bem | Crédito: Toa Heftiba/StockSnap

Aquele vazio que nasceu da brutalidade me fez pensar se eu sou um tipo de idealista cafona. Mas então, essa sensação que eu buscava veio. Entrei em outro quarto, prolonguei os beijos e as conversas, troquei o excesso de fúria pela lentidão, que prolongou as sensações. O êxtase veio intensificado, e o respeito mútuo ficou. Seguimos por caminhos paralelos, seguimos amigos, e eu tive a convicção plena de que abster da dedicação e da emoção na hora H deixa o sexo mecânico. E absolutamente sem graça.

Leia mais: Pequeno Manual de Relacionamentos Casuais com Mulheres

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