Crônica: Se você ama ou gosta, demonstre

O homem que me acolheu tinha um silêncio confortador, olhos gentis e mãos lindas. Era o tipo de conforto que eu precisava sentir no inverno de mares desconhecidos: sem a necessidade de toques com segundas intenções, mas com conversas prudentes, filmes e café quente. Meses se passaram, e então esse mesmo homem de silêncio confortador quase me enlouqueceu com uma ausência de palavras que, por fim, se tornou inegavelmente incômoda. Tão incômoda que me impulsionou a desaguar em palavras questionando o que havia feito de tão errado para receber essa ausência estranha em troca. Nesse desabafo com uma amiga em comum, escuto: “Se você soubesse do carinho com o qual ele fala em você, não estaria assim tão surtada”.

Eu pensei muito nessa frase, e comecei a refletir sobre os momentos que vivenciei com esse amigo em questão. Realmente: ao contrário do que minha autoestima contraditória e minha ansiedade gritavam, não havia qualquer motivo para que ele se sentisse compelido a me detestar ou até de ter nojo de mim. Mas minha frustração com ele foi só o estopim para me chamar a atenção para um probleminha geral: a falta que a demonstração de afeto faz.

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Crédito: Jen Palmer/Unsplash

Na minha cabeça, não existe qualquer motivo que impeça a gente de escrever para o outro ou de mandar uma mensagem qualquer perguntando como estão as coisas. Não existe motivo pra gente se esconder atrás do medo de demonstrar afeto ou de uma intencional carapuça de frieza com a intenção de não se mostrar vulnerável. O que a gente pouco reflete é que, se há uma atitude torpe devolvendo nossa capacidade de bem sentir, o problema não reside no coração de quem se impulsiona a mostrar amor, amizade, carinho…

Hoje em dia, administramos muito mal todos os aspectos da nossa vida afetiva. Não só não sabemos demonstrar nossas emoções e mostrar para pessoas importantes para nós o quanto elas fazem ou fizeram diferença em nosso cotidiano. Nós também demoramos uma vida para responder mensagens, reclamamos de áudios longos quando amigos desatam a falar com a gente (afinal de contas, temos coisas mais importantes para ocupar o tempo do que conversar. Deslizar a tela do celular para ver fotos editadas é uma delas), culpamos a rotina do trabalho e dos estudos por não conseguir estabelecer conexões sólidas e marcar encontros com as pessoas. A bem da verdade: em tempos de muita tecnologia e valorização dos excessos, acabamos caindo na armadilha de colocar no pacote de banalização justamente o que nunca deveria ser banalizado. E estamos sempre procurando desculpas para fugir de possíveis responsabilidades emocionais.

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Crédito: Eye for Ebony/Unsplash

Daqui, do lado de quem demonstra sem medo, há um misto de tristeza e sensação de desimportância com essa falta de demonstração recíproca. Nem todo discurso de independência e autossuficiência acabam sendo confortadoras em tempos de expectativa. E antes fosse a questão de realmente não fazer falta pra alguém: existe uma epidemia de casos de sensação de menos valia na mesma proporção de pessoas que se queixam de simplesmente não conseguirem mostrar afeto por medo ou bloqueios emocionais. Mas a gente não vai conseguir sair dessa labirinto se não fizer um esforço pra sair da nossa zona de conforto. Mais vale esse esforço agora do que partir com um bolo na garganta por simplesmente não ter falado pra quem amamos o quanto essa pessoa é importante pra nós.

Não dói: é honesto. Segure na mão quando sentir impulso. Abrace quando desejar dar e receber conforto. Mande mensagem quando sentir falta. Agradeça os bons gestos sem meias palavras. Faça bons gestos, de amor e amizade. Não guarde só pra você essa gratidão e esse sentimento: estamos aqui pra nos derramar. E se derramar, em tempos líquidos, é muito melhor do que podemos imaginar.

 

 

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