Vá ao Teatro: “Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812” proporciona novidade

Esqueça as montagens de formatos convencionais no teatro. Esqueça o palco italiano, a quarta parede, a distância entre público e atores. Chega nessa sexta-feira (24) uma nova montagem importada da grandiosa Broadway para os palcos brasileiros no terraço do Teatro Santander, em São Paulo, que promete uma experiência intimista entre as duas extremidades.

Trata-se do musical Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812, peça inspirada em um capítulo da obra-prima Guerra e Paz de Leon Tolstói e que fala sobre a guerra, os conflitos interpessoais da sociedade russa daquela época e do moralismo que permeava o destino de muitas mulheres. O enredo conta a história de Natasha (Bruna Guerin), personagem central, que encontra-se noiva de um soldado, Andrey (Patrick Amstalden, que também intercala o papel com o do personagem Bolkonsky, um velho rabujento e pai de Andrey), tem dificuldades de se relacionar com a família do noivo, acaba se envolvendo com um bon vivant mulherengo, que atende pelo nome de Anatol (Gabriel Leone) e que, graças a ele, vê sua repuação arruinada.

Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812 | Crédito: Camila Honorato
O ambiente foi todo montado para sair do palco italiano e parecer um cabaré | Crédito: Camila Honorato

Essa parte do enredo de Tolstoi acabou adaptada para os palcos pelo escritor e compositor Dave Malloy em 2012. A proposta, aqui, é reproduzir um ambiente similar ao de um cabaré, com mesas, cadeiras e balcões dispostos no formato de um círculo e muito próximo aos atores, que andam por uma passarela e realizam cenas em cenários curtos e montados no meio da plateia. Tudo isso, somado a figurinos de primeira qualidade, músicas afiadas e bom elenco, impulsionou o espetáculo a ser o maior concorrente do prêmio Tony em 2017.

O desafio da montagem brasileira, como bem destacou o diretor Zé Henrique de Paula, é justamente a de estabelecer uma conexão entre elenco e plateia: “A disposição das mesas faz com que a gente, literalmente, saia da nossa zona de conforto”. Fernanda Maia, diretora musical, reforça: “Esperamos, na experiência brasileira, causar o mesmo tipo de euforia nas pessoas, impulsionada, principalmente, pela noção de uma experiência compartilhada”. Além disso, coube a Fernanda o desafio central: a de trazer uma boa versão brasileira aos versos cantados em cena, já que a peça tem uma única fala que não seja musicada em suas duas horas e meia de duração. “Aqui, manter a rima foi o menos importante. O maior desafio é procurar meios de manter o impacto provocado pela obra literária de Tolstói”, pontua.

Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812 | Crédito: Camila Honorato
A atriz Bruna Guerin brilhando em um solo | Crédito: Camila Honorato

Gabriel Malo, coreógrafo da peça, afirma que buscou nos movimentos uma composição que fizesse sentido para a proposta: “Todo o processo foi construído colaborativamente com os atores”, explica. Para os atores, o impacto maior será justamente a de proximidade com o público: “A gente consegue observar uma linguagem muito próxima do cinema, principalmente com a composição de luzes. O olhar do público é muito mais próximo e intenso nesse ponto de vista”, afirma André Frateschi, que intercala com Thiago Perticarrari o papel de Pierre, um intelectual que vive com um copo na mão. “Esse ato de olhar nos olhos de cada uma das pessoas próximas de nós nos inspira a trazê-los sempre para dentro do palco, em uma interação totalmente fora dos padrões habituais”, reforça Gabriel Leone, que intercala com Daniel Cabral o papel do sedutor Anatol.

Mas afinal, o que esperar da experiência

Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812 | Crédito: Camila Honorato
André Torquato em cena com Gabriel Leone e Vitor Moresco | Crédito: Camila Honorato

Diferentemente do que acontece com as peças em cartaz no Teatro Santandar, Natasha, Pierre… não ocorre dentro do ambiente grandioso que já abrigou musicais como My Fair Lady. Do alto do terraço do teatro, um espaço elegante intitulado como 033 Rooftop, e que frequentemente é usado para eventos por proporciona uma visão única da cidade de São Paulo, foi montado para atender às necessidades do espetáculo. Na experiência completa, um cardápio recheado com comidas típicas da Rússia circula entre os convidados (o tradicional Strogonoff custa R$ 69). A experiência gastronômica ocorre antes do espetáculo e no intervalo, para evitar possíveis contratempos no decorrer da peça.

No desenrolar da história, é raríssimo ver os personagens deixarem a cena. A peça é dinâmica, intensa, e parece trazer o espectador para dentro da história. Trocar olhares com os atores aqui é algo comum. Tão comum que você, em alguns momentos, acaba repetindo sozinho o bordão do espetáculo: “Andrey não tá aqui”. O roteiro é simples e sem grandes desdobramentos. A graça mesmo fica por conta da afinação dos personagens e dos toques de comédia pincelados entre as falas. É uma experiência curiosa, de uma proximidade encantadora e muito intensa. Vale a pena conferir.

Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812 | Crédito: Camila Honorato
Bruna Guerin e Patrick Amstalden em cena como Natasha e Andrey. Mas lembre-se: Andrey não tá aqui | Crédito: Camila Honorato

VAI LÁ
Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812, de Dave Malloy (inpirado em Guerra e Paz, de Leon Tolstói)
Direção: Zé Henrique de Paula
Direção Musical: Fernanda Maia
Produção: Tatiana Véliz, Mariana Mello e Laura Sciulli
Coreografia: Gabriel Malo (colaboração de Jess Gardolin)
Elenco: Bruna Guerin, André Frateschi, Gabriel Leone, Adriana Del Claro, Miranda Kassin, André Torquato, Arthur Berges, Carol Bezerra, Daniel Cabral, Lola Fanucchi, Fabiana Tolentino, Giovanna Moreira, Guilherme Leal, Letícia Soares, Nabia Villela, Natália Glanz, Nani Porto, Patrick Amstalden, Rafael Pucca, Thiago Perticarrari, Vitor Moresco, Wilson Feitosa.
Músicos: Fernanda Maia, Rafa Miranda, Márcio Ribeiro, Roberta Regina, Felipe Parisi, Clara Bastos, Pedro Macedo, Leandro Nonato, Catherine Santana, Flávio Rubens, Marco Rochael, Abner Paul, Rafael Lourenço e Wilson Feitosa.
Figurino: Zé Henrique de Paula, Graziela Bastos, Marina Coleta, Paula Martins, Nalva Costa, Aparecida Ináxio Pereira, Nilza Felix.
Idealização: Move Concerts, Adriana Del Claro e Firma de Teatro.
Classificação Final: ♥♥♥ (Bom)

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