Resenha Literária: prosa poética de “Sal” é surpreendente e emociona ao extremo

“À beira-mar, o silêncio é diferente. Como se a gente pudesse caminhar por ele. E respirá-lo. O silêncio entra nos nossos pulmões como uma espécie de remédio, purga o nosso corpo de todas as impurezas. Limpa as más recordações da nossa alma. E a minha alma carrega algumas lembranças ruins, difíceis de apagar”.

Esse é apenas um dos muitos trechos reflexivos, poéticos e belos que me impactaram durante a experiência deliciosa que foi ler Sal, romance da escritora gaúcha Leticia Wierzchowski, conhecida pela obra-prima A Casa das Sete Mulheres. Uma das coisas que mais me encantam nos escritores desse estado lindíssimo que é o Rio Grande do Sul é a capacidade que eles têm de escrever sobre grandes sagas familiares de uma forma sublime, repercutindo as emoções dos personagens em diferentes espaços de tempo e delineando bem os impactos das relações desenvolvidas (também vemos isso em O Tempo e o Vento, sem sombra de dúvida o meu livro favorito).

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O farol conduz muitas das decisões dos personagens – e aparece aqui quase como um ser cheio de sentimentos | Crédito: Mitch Mckee/Unsplash

Com Sal, isso não foi diferente. Ambientado em uma ilha isolada na América Latina, o romance centraliza nos dramas de uma família, a Godoy, em ordem cronológica. Primeiro, com o envolvimento do casal Ivan e Cecília, que precisa enfrentar a oposição de Doña, mãe do rapaz, para ficar junto. Depois, com o cotidiano tempestivo dos filhos do casal: os irmãos Lucas, Julieta, Orfeu, as gêmeas Eva e Flora, e Tiberius – todos absolutamente diferentes entre si e incrivelmente fascinantes.

Um dos aspectos mais interessantes da narrativa do livro é a forma como objetos inanimados adquirem um grau de importância extremo, a ponto de se configurarem em personagens importantes para o desenrolar da história, quase como se os mesmos tivessem sentimentos. O principal deles, como a capa denuncia, é o farol, que paira acima de muitas decisões dos indivíduos, direciona suas emoções e lança luz sobre novos rumos. O segundo é a gigantesca peça de tricô na qual a matriarca Cecília trabalha durante toda a história, atribuindo uma cor a cada um dos filhos e que se tornam títulos dos capítulos. Essa mistura de vivências reais junto aos objetos é um dos méritos da obra e um dos grandes impulsionadores da prosa poética que o define.

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Muitos dos personagens têm uma força intelectual impressionante, sobretudo no aspecto literário e filosófico. É Flora, uma aspirante a escritora, quem, por fim, define uma parte considerável da saga familiar | Crédito: Aziz Acharki/Unsplash

Sobre essa última, aliás, vale ressaltar: a cronologia do livro é composta por reflexões nada óbvias, mas que, por vezes, tocam o leitor com sua melancolia e profundidade. Para além dos conflitos familiares iniciais, é na personagem Flora que o clímax se baseia. Apaixonada por literatura e alimentando um grande sonho de se tornar escritora, a jovem romântica e sonhadora publica um manuscrito que chama a atenção de um editor local, que o exporta até o professor Julius Templeman e o impulsiona a sair da Europa para conhecer a autora. O surgimento do personagem muda completamente a vida da família e culmina em uma série de acontecimentos marcantes, parte deles curioso, parte emocionante e parte com traços explícitos de tragédia shakespeariana.

O espaço geográfico do livro muda conforme o desenrolar das decisões dos personagens, algumas drásticas e outras docemente imprevisíveis. Como eu havia dito na resenha anterior, há um romance LGBT dentro da história que é abordado com uma delicadeza poucas vezes vista na literatura. Por outro lado, a imprevisibilidade e impulsividade dos personagens resultam no surgimento de novas histórias, costurando a saga da família tal qual o tricô de Cecília – uma belíssima metáfora.

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O mar, com sua grandiosidade, é palco de muitas reflexões. A relação dos personagens com ele é sublime | Crédito: Ant Rozetsky/Unsplash

Outra coisa que me encanta é a relação de muitas das emoções dos personagens com o mar. Me dá a impressão de que os personagens da história estão constantemente mergulhados na natureza de tal forma que ela arranca deles impulsos com a mesma facilidade que um intenso diálogo verbal o faria. O traço intensamente psicológico da história é tocante – e eu afirmo com toda a certeza do mundo que esse livro foi um dos que mais me emocionaram na vida, tirando de mim muitas, mas muitas lágrimas, com uma facilidade impressionante.

VAI LÁ
Sal, de Leticia Wierzchowski
Editora: Intrínseca
Número de Páginas: 239
Link para compra: Saraiva
Classificação Final: ♥♥♥♥♥ (Excelente)

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