Resenha Literária: “A Irmã da Peróla” quebra padrões e dialoga com LGBTs

Se existe um monopólio na literatura, mesmo quando o assunto são escritoras feministas, é o de personagens majoritariamente brancos retratados em lugares prestigiados da Europa e dos Estados Unidos. Uma das coisas que mais me fascina no universo de Lucinda Riley é não somente a capacidade que ela tem de de mesclar o passado e o presente, escolhendo episódios consideráveis da história mundial, mas o de também se desafiar enquanto escritora ao ambientar histórias e personagens “diferentes”. Foi assim em A Rosa da Meia Noite, com a Índia. E agora se repete com o quarto volume da saga As Sete Irmãs.

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Hoje com centros urbanos modernos e forte ligação com o turismo, Adelaide, na Austrália, já foi um lugar de intensa exploração do trabalho aborígene e presenciou os horrores da colonização britânica | Crédito: Bill Roberts/Unsplash

Em A Irmã da Pérola, dando continuidade à A Irmã da Sombra e à quebra de um relacionamento tóxico entre as irmãs Estrela e Ceci D’Aplièse, o foco é essa última, que se enxerga como o patinho feio da família com sua pele escura e os traços herdados de seus antepassados aborígenes. Com dificuldades de aprendizagem graças ao diagnóstico de dislexia, Ceci é uma personagem que mostra que seres humanos não são compostos sempre por luz e compreensão, e escancara que comportamentos imaturos também podem ter uma raiz psicológica que necessita urgentemente ser trabalhada com afinco. Sem conseguir engatar em universidades e com um senso crítico deturpado de auto imagem, ela viu na relação com a irmã uma tábua de salvação e uma muleta para fugir de problemas maiores. Agora, sozinha em uma nova jornada pela Tailândia, ela precisa descobrir suas origens, trabalhar seus medos e encarar de frente um processo árduo de autoconhecimento – que nós bem sabemos que pode ser bem doloroso.

O primeiro contraponto foi a ambientação. Na Tailândia, em um cantinho asiático ainda pouco explorado pela literatura mas que já foi romantizada pela autora em seu best-seller A Casa das Orquídeas, novos personagens ganham voz sem o clichê eurocêntrico. O envolvimento de Ceci com um certo personagem, que foge dos estereótipos, denuncia isso – bem como bate mais uma vez na tecla do fato de erros não serem a definição completa do caráter de alguém. Nós erramos feio muitas vezes, e isso também pode refletir em perdão e recomeço. Mas o que mais chama a atenção no romance é o escancaramento de um lado ainda pouco falado da Austrália: o lado que sai da retratação das praias paradisíacas e de uma população de cabelos e olhos claros para infiltrar-se nos desertos de terra vermelha, nos dramas da escravidão indígena e em um espaço geográfico selvagem e extremamente perigoso.

Crédito: Michael Coghlan/Flickr/Creative Commons
O deserto vermelho da australiana Adelaide é o berço da personagem Ceci no livro – e porta de entrada para conhecer mais sobre a cultura dos aborígenes no país | Crédito: Michael Coghlan/Flickr/Creative Commons

É aqui onde reside as raízes da personagem central, que mergulha nos manuscritos de uma figura do seu passado distante para descobrir as origens biológicas, longe do manto protetor de Pa Salt, seu pai adotivo. Nesse ponto, a história de Kitty McBride, iniciada na Escócia, ganha voz e mostra a saga de uma mulher que fez de tudo para sair do seio de uma família conturbada para mergulhar nas promessas do Novo Mundo, que incluía a exploração pérolas (daí o título do livro) e o envolvimento com irmãos gêmeos e completamente diferentes entre si no jeito de ser. A relação de Kitty com sua empregada, uma aborígene, extrapola o aceitável pela sociedade, já que a mulher acolhe a filha bastardo da jovem e permite com que ele brinque com seu primogênito. O tratamento destinado aos nativos de Adelaide, onde a história é ambientada, é traduzido sem muitos rodeios pela narrativa sem firulas de Lucinda: dói ler e é bastante incômodo.

Escrever muito mais sobre o romance seria também dar pistas sobre onde exatamente as duas histórias se cruzam. Mas aqui, além de correr dos estereótipos de pele, a autora também se permitiu dialogar, pela primeira vez, com o público LGBT. Há um romance delicado no meio da história, retratado de uma forma muito humana e sem tantos apelos sociais – o que ainda é muito raro na literatura (li recentemente outro livro de uma autora brasileira que inclui esse tema e que será minha próxima resenha). Além disso, é lindo ver como o jeitão desencanado da personagem é descrito não como um defeito, mas uma qualidade que ganha ainda mais valor ao se misturar com o uivo interno e artístico que grita na alma da protagonista – e que se mistura às belas crenças e rituais místicos, de uma sabedoria milenar e totalmente voltada para a natureza, dos nativos.

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O comércio de pérolas, bem como as crenças místicas que as sondam, estão entre as histórias abordadas no romance de Lucinda Riley | Crédito: Cornelia Ng/Unsplash

Dentre todos os livros publicados da saga, esse é o meu segundo favorito (o primeiro volume de As Sete Irmãs é altamente criativo e ambientado no Brasil, o que, pra mim, não tem competição). O grito contra preconceitos se faz presente, mas sem deixar de escancarar os conflitos internos e solitários de cada personagem.

Leia mais: O universo de Lucinda Riley

VAI LÁ
A Irmã da Pérola, de Lucinda Riley
Editora: Arqueiro
Número de Páginas: 518
Link para compra: Amazon
Classificação Final: ♥♥♥♥♥ (Excelente)

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