Poema: Água Benta

Ela acreditava-se perdida.

Pensava que seus devaneios doentes
Eram extensões de almas brutas
Atormentadas e demoníacas.

Teve vertigem no caminho pro trabalho
Na música clássica reproduzida
Nos alto-falantes quebrados
De um prédio histórico em ascensão.

Registrou mecanicamente
Informações irrelevantes
No sistema ultrapassado do escritório.

Sentiu o cheiro da loucura
No ambiente da casa corporativa.

Chorou no banheiro.

Viu significados ocultos
Nas flores brandas plantadas
No jardim
Invadido por ratos.

Sentiu o sopro de um uivo ameaçador
Gritou por socorro.

Atravessou a cidade às pressas
No banco passageiro do carro.
Dormiu em silêncio rezando baixo
Por algumas horas de rendição.

Crédito: Karl Fredrickson/Unsplash
Crédito: Karl Fredrickson/Unsplash

Vezes incontáveis foi ter
Com os bancos católicos
De madeira escura.

Gritou de dor
De medo.

No desespero
Foi ter com o padre
Reproduziu uma confissão.

Leu salmos
Rezou aos santos que podia invocar.

Tinha medo
Que Jesus Cristo
Crucificado
Fosse meramente reduzido
À figura traída de um inconfidente.

Tinha medo do solo
Do acorde baixo do violão
Anunciando a rendição dos crentes.

A promessa divina
Era destinada aos tementes
A um Deus rigoroso.

No meio da rendição
A pregação
Da cura gay.

Osana nas alturas.
Bendito o que vem em nome do Senhor.

Os santos perdidos
Tornaram-se uma extensão
De pesadelos repetidos
Por meses a fio.

Da cura religiosa
Prometida pela benção
De um padre imigrante
Orador do Pai Nosso
Veio a incerteza.

No meio do pânico.
De sua síndrome insistente
Ouviu das mãos abençoadas
Que estava curada.

Curada do medo.
Da possessão do demônio.

O demônio era reflexo
Da cabeça cortada
Do vislumbre do delírio
Confundido com uma lembrança
Que sua mente adoecida
Insistia em lhe trazer
Para torturar.

Da rendição de santa
Comparou-se à Virgem Maria
E a uma Maria Madalena prostituída
Ambas duramente abandonadas
Pelo ressuscitado Salvador.

Sentiu seu cérebro se comprimir
Com promessas infundadas que nunca se cumpriam.

Longe do crucifixo insistente
Ouviu um passe distante.
Chorou por medo de sua alma errante
Perdida no fogo
Na labareda das profundezas do inferno
Criado pelo homem.

Ausente da construção da igreja
Ouviu, enfim, a voz de Deus
Soprando sincera
Junto ao vento.

Pedia que ouvisse a razão
Ao invés das promessas sórdidas
De uma cura espiritual
Que não carecia submeter-se.

Crédito: Aaron Burden/Unsplash
Crédito: Aaron Burden/Unsplash

A cura infundada
Converteu-se com a visão da montanha
Com o vislumbre distante de um cachorro fujão
Que se adentrava no milharal.

Com as cores brilhantes do Carnaval
Com a limpidez da água fria de uma cachoeira
Com o anoitecer frio da serra

O pomar colorido
O galopar dos cavalos do campo.

Voltou para a cidade
Abdicando da promessa rasa
Da cura divina
Que tanto lhe enganou.

Que Jesus Cristo a perdoasse
Mas não ousaria glorificar sua santidade
Ao pé de uma cruz
Que serviu de arma para matar.

De dentro da igreja
A promessa vazia.

Curou-se com o brilho da mão materna
Da figura gloriosa à frente do divã
Da paixão secreta pelo médico
E da arte que a acolheu
Nos tempos que se acreditava morta
Tal qual as almas pecadoras condenadas
Pela bruxaria que hoje ousava abraçar.

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