Por quê tantos brasileiros estão migrando para Portugal?

Se você acompanha publicações sobre viagens, intercâmbio e afins, deve ter percebido uma crescente no número de matérias sobre brasileiros que trocaram a vida no país de origem por uma chance na terra de seus colonizadores. É o tipo de fenômeno inverso ao que observamos entre os século 19 e 20, quando o fluxo migratório de portugueses pobres e trabalhadores do campo, sobretudo daqueles oriundos da região do Minho, fazia com que os mesmos deixassem suas terras na esperança de prosperar no Novo Mundo. Conflitos decorrentes da Segunda Guerra Mundial e a promessa do “milagre econômico” proporcionado pelo Brasil aumentavam as perspectivas de trabalho dos imigrantes, visto que, naquela época, Portugal era considerado um dos países mais pobres da Europa.

Lisboa | Crédito: Camila Honorato
Haja bondinhos pra brasileirada! | Crédito: Camila Honorato

Hoje em dia, uma reviravolta do destino fez com que o povo que antes recebia os colonizadores em seus cenários tropicais passasse a considerar um pequeno trecho cravado no litoral do Velho Mundo. Pode parecer algo curioso, mas a realidade é que, em tempos de caos político e econômico, a sensação de esgotamento do brasileiro reflete em uma constante busca por novas oportunidades no exterior. Mas, afinal, por quê Portugal?

Quando escolhi o país como a primeira parada do meu plano de vida de somar viagens internacionais, um dos grandes motivos foi por conhecer amigos que se fixaram por lá – o que me ajudaria a poupar o dinheiro da hospedagem e a ter pra onde correr se algo acontecesse nessa minha primeira aventura da jornada de viajar prioritariamente sozinha. Uma das coisas que observei é que, sim: respondendo às muitas perguntas que fazem nas minhas caixas de e-mail e nas directs das minhas redes sociais, há muitos brasileiros vivendo em Portugal e a jornada não é tão difícil quanto no restante da Europa – o que, sinto em dizer, não torna as coisas nada mais fáceis. Muito pelo contrário.

Lisboa, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Na Torre de Belém: “eu me envelopei, virei cartão-postal” | Crédito: Camila Honorato

Ao desembarcar no aeroporto de Lisboa e passar pela imigração, um dos funcionários da Polícia Federal, depois de um longo questionário, me disse: “Peço-te encarecidamente que retornes mesmo ao teu país no dia que consta em tua passagem”. Rebati dizendo que não havia motivos para não voltar, ao que ele me respondeu educadamente que não era uma insinuação, e que eu o entenderia quando prestasse atenção na condição de tantos brasileiros por ali. E, de fato, eu entendi. Mas vamos por partes.

O que mais atrai os nossos semelhantes a esse país é um conjunto de fatores que, inicialmente, passam a ideia de que Portugal está de braços completamente abertos a estrangeiros que queiram tentar uma oportunidade no país. São eles: o país acaba de sair de uma crise econômica intensa que impulsionou a mão-de-obra jovem do país a debandar, e a taxa de natalidade é muito baixa para combater uma crescente intensa no envelhecimento da população (ou seja, eles precisam de gente para trabalhar); o custo de vida é um dos mais baixos da Europa; há iniciativas que procuram facilitar estudantes de países de língua portuguesa a ingressar no Ensino Superior do país (ao todo, 34 universidades portuguesas aceitam o Enem como forma de ingresso, por exemplo); e mais.

Lisboa | Crédito: Camila Honorato
Entardecer lisboeta | Crédito: Camila Honorato

Em contrapartida, nossa situação é complicada: a taxa de desemprego no Brasil atualmente é de 12,9% segundo o IBGE, um índice altíssimo que representa 13,4 milhões de pessoas; propostas como a reforma trabalhista e da previdência, que afetam os direitos dos trabalhadores, intensificam o sentimento de descrença e alavancam a reprovação do governo do golpista Michel Temer; a educação segue complicada, com escolas públicas precárias, universidades particulares quase impossíveis de bancar e universidades públicas sofrendo com sucateamento; há constantes episódios de impacto,  como a recente greve dos caminhoneiros, que interferiu no abastecimento e travou o país; e os já manjados escândalos de corrupção, que só pioram frente a um povo que já está com os nervos à flor da pele.

Somando isso aos fatores positivos de Portugal, que ainda facilita a vida de muitos indivíduos com a questão do idioma, temos uma justificativa para a debandada em massa. A questão é…

SERÁ QUE VALE A PENA? 

Lisboa, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Detalhes do Castelo de São Jorge, um dos principais pontos turísticos de Portugal | Crédito: Camila Honorato

Vamos colocar os pingos nos “is”: uma coisa é visitar o país como turista, principalmente com uma capital que figura como o melhor destino do mundo e com tantas vilas encantadoras para contemplar, acompanhadas de uma bela taça de vinho. Outra bem diferente é morar.

Imagine a situação dos imigrantes no Brasil: por mais acolhedores que aparentemos ser, essa máxima é válida para quem tem a pele clara e é oriundo de países de “Primeiro Mundo”. Não há o que discutir: somos extremamente racistas e machistas, e nossa incrível mania de transformar tudo em piada e meme pode tanto ser divertido em situações pontuais como pode repercutir clichês absolutamente desrespeitosos (lembre-se das nossas piadas “manjadas” com os portugueses e com sotaques africanos) e em episódios de escândalo a nível global. Todo país tem suas questões gritantes em relação à recepção de estrangeiros, e não espere que Portugal não tenha a sua cota de nariz torto.

Lisboa, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Uma das imagens do cotidiano português. Você consegue trocar pão de queijo, brigadeiro e coxinha por pasteis de nata? | Crédito: Camila Honorato

Enquanto estive por lá, presenciei um episódio terrível de racismo (onde o funcionário de um mercado mandou um segurança seguir um cliente negro para verificar se ele não roubava nada por lá. Sim, isso também acontece), tive que lidar com o comportamento inconveniente de alguns europeus (o clichê de associar a brasileira a uma figura promíscua realmente existe) e escutei relatos tristes por parte de meus amigos, que falam das dificuldades de interagir com locais e de já terem se deparado com episódios desagradáveis provocados por xenofobia. É claro que isso não é uma regra, e eu tinha isso em mente o suficiente pra não associar isso a um comportamento geral e diminuir o tratamento incrível que recebi de muitas pessoas por lá. Mas não se engane de pensar que não acontece.

Outra coisa muito comum é a troca duvidosa: se aqui muitos brasileiros possuem empregos com carteira assinada e constroem suas carreiras, lá é comum acatarem trabalhos fora de sua área de atuação para conseguirem pagar as contas. E pior: em alguns casos, muitos acabam recorrendo a subempregos sem documentação formal pelo motivo que fez o policial pedir encarecidamente para voltar na data prevista ali em cima. E o motivo é a situação irregular de muitos brasileiros que vivem no país.

Lisboa, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Uma vantagem da terra de Cabral são os miradouros, que escancaram a beleza lisboeta | Crédito: Camila Honorato

O que acontece é o seguinte: como em qualquer lugar do mundo, existe uma burocracia com documentação para se viver legalmente no país. Estrangeiros sem passaporte de cidadãos europeus (descendência ou casamento) precisam de documentos específicos para viverem legalmente no país, o que consiste em vistos de estudante e vistos de trabalho. A melhor forma de conseguir isso é fazendo o processo previamente no país de origem (ingressar em uma universidade portuguesa em regime de graduação e pós-graduação por aqui; fazer intercâmbio por agências; acatar a propostas de trabalho; e por aí vai).

O problema é que é muito comum brasileiros continuarem por lá mesmo depois do final do programa de intercâmbio e vencimento dos vistos, ou até irem com passaporte de turista e não voltarem com a passagem de volta comprada. E o resultado é uma quantidade imensa de estrangeiros em situação irregular, que mesmo solicitando vistos junto ao SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras), se deparam com uma demora estratosférica na entrega da documentação. A razão para isso é que eles dedicam um tratamento muito diferente a quem sai do país de origem com planejamento e quem embarca para lá e depois decide ficar e fazer os processos todos por ali mesmo. A equação é óbvia: sem documentação legal, você não pode trabalhar em cargos formais. Sem cargos formais, você recorre a subempregos – e aqui, é comum muita gente se iludir e tomar um banho de água fria ao ter uma vida que não imaginou. E o agravante: o salário-mínimo de Portugal, que em janeiro de 2018 girava em torno de 676,67 euros, é um dos menores do continente.

Estoril, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Fácil nunca vai ser. Mas imagens como a do litoral de Estoril tornam fácil se apaixonar pela terrinha | Crédito: Camila Honorato

Além disso, outros detalhes que parecem pequenos vão, sim, apertar o seu calo. Pra mim e pra muitas pessoas que moram por lá, é um respiro de alívio andar numa boa pelas ruas sem se preocupar com assalto à mão armada. Mulheres, então, podem circular sem as inconvenientes cantadas de rua. A qualidade de vida é realmente maior, sobretudo pelo custo de vida, pela taxa reduzida de criminalidade, a qualidade de serviços públicos e pela oferta de lugares públicos e tranquilos para contemplar. Mas a questão cultural, acredite você ou não, vai pegar – e uma delas vai fazer você admirar a facilidade do brasileiro de se adaptar ao novo e de fazer amizades.

BRASIL: AMAR OU LARGAR?

Pico do Itapeva, Campos do Jordão, São Paulo, Brasil | Crédito: Camila Honorato
Pico do Itapeva, na Serra da Mantiqueira. Não se esqueça que tem cenários como esse nesse nosso Brasilzão | Crédito: Camila Honorato

Meu propósito aqui não é condenar as escolhas de terceiros. Eu entendo todos os motivos da mudança, e inclusive já cogitei e ainda pesquiso oportunidades de estudos no exterior – mas não encaro a situação como definitiva e tampouco me permito rechaçar minha pátria. O que me chateia é ver pessoas sofrendo pelo peso dessa escolha quando poderiam prosperar em seu país de origem. É ver tantos brasileiros literalmente cuspindo no prato em que comeram, quando na verdade vivem uma vida nada favorável à que tinham aqui – e que seguem criticando nosso povo pelo prazer proporcionado pelo famigerado “complexo de vira-lata”.

Certa vez, uma colega de trabalho viajou para a Grécia quando o país vivia o ápice de sua crise econômica e me confidenciou: “Aqui, as pessoas abraçam a condição da crise e encaram a situação como temporária. Você vê isso porque eles lutam pra movimentar a situação e para sair do buraco. As pessoas não hesitam em trocar de trabalho, porque encaram a mudança como algo temporário para pagar as contas e continuar movimentando o país. Muita gente se aproveita dos períodos das férias e arrumam freelas no setor de turismo, porque isso sempre movimenta a economia. É isso que falta no Brasil: entender que todo país tem suas crises, compreendê-las como algo temporário e lutar para mudá-las, porque há um sentimento de patriotismo que se ausenta no nosso sangue”.

São Paulo, Brasil | Crédito: Camila Honorato
Pluralidades e contrastes insanos como os de São Paulo, uma capital tão efervescente quanto a cidade de Nova York, não são fáceis de encontrar | Crédito: Camila Honorato

Viver em um país estrangeiro não é um mar de rosas, e a escolha deve ser feita com sabedoria e sem impulsividades cegas. Se a escolha de morar fora prevalecer, o melhor a fazer é: pesquise, pondere e planeje. Não se permita sofrer por tão pouco lá fora quando aqui dentro existem, sim, coisas maravilhosas a serem contempladas. Escolha com consciência e maturidade, e jamais permita-se falar horrores de seu próprio berço por ilusão ou soberba.

LEIA MAIS: Especial Portugal – Sintra; Estoril, Cascais e arredores; Cultura em Lisboa; e Gastronomia e Vida Noturna na capital portuguesa

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6 Comments Add yours

  1. Tati says:

    Eu tenho vontade de mudar de país. Já tinha essa vontade, mas em 2015 meu irmão mudou pra Toronto e então viajei pela primeira vez pro exterior. Aí que minha vontade floresceu de verdade.
    Claro que tem muita coisa que me incomoda aqui, mas eu sempre tive essa consciência que lá fora nunca seria perfeito. E eu sei que é difícil mesmo até pelo meu irmão.
    E o Brasil tem coisas boas sim. Mas admito que uma das coisas que mais me ‘pegam’ é a qualidade de vida, é poder sair de casa sem tanto medo… :/
    (Obs: sou de SP capital, então aqui isso influencia bastante)

    1. Camila Honorato says:

      Eu te entendo bem, Tati. Por muito tempo, esse pensamento me invadiu. Mas agora eu me planejo pra estudar temporariamente e viajar bastante, porque voltar pra casa depois é uma das melhores sensações do mundo. Eu desejo, de coração, que você realize esse sonho e que seja muito feliz. ♥

  2. dantasmc says:

    Parabéns pelo post! Em especial pelo depoimento do seu amigo em relação a Grécia. Respeito os brasileiros que desejam arriscar uma melhor qualidade de vida no exterior – afinal, a crise aqui não está só na economia, mas no sistema como um todo. No entanto, admiro os que agarram essa responsabilidade para si e procuram fazer o que podem para sobreviver com suas famílias. Na situação em que estamos não dá pra culpar ninguém por não se sentir bem por aqui, mas como o seu amigo disse, a superação deve começar pelo patriotismo.

    Importa salientar que o patriotismo nada tem a ver com torcer pela seleção nos telões, mas “colocar a cara a tapa” e enfrentar os desafios que a condição de ser brasileiro nos proporciona.

    1. Camila Honorato says:

      Que feedback maravilhoso! Eu super concordo: a gente não pode culpar ninguém. Mas lutar pela melhora é um grande gesto. É admirável. A gente tem muitas coisas boas por aqui e não pode desistir da nossa pátria. Um beijo!

  3. Adorei ! 😉 Eu também escrevo sobre NYC, intercâmbio e viagens (planejo visitar os 50 estados americanos) no meu blog. Se sentir vontade da um pulo lá pra ver! 😊😘

    1. Camila Honorato says:

      Valeu o elogio. Claro, vou lá contemplar seu trabalho. Um beijo!

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