Conto: A Casa Verde (ou a brutalidade de um sonho indesejado e interrompido)

Eu despertava com seus olhos felinos, verdes e brilhantes quando essa mesma cor invadiu meus sonhos pela primeira vez. Era só um dos muitos sonhos repetitivos que me acometiam no sono profundo e que incluíam tua presença. Não uma presença agressiva e permeada por brincadeiras repetitivas que já não surtiam mais risos. Mas uma presença sólida e carinhosa, que me sustentava com afagos e promessas deliciosas de se ouvir.

Sabe, existem sonhos repetidos que incomodam. Quando você dormia do meu lado na cama, era frequente sobressaltar com imagens de atitudes frígidas, beijos em terceiras, traições incontestáveis. Perdi as contas de quantas vezes mandei mensagens apavoradas de madrugada te contando do medo que eu sentia de você me deixar. Acordava com frio depois de presenciar um avião te levando para terras longínquas. Lembro-me de desembarcar em Amsterdã apavorada com as mensagens não respondidas no visor do celular. Eu te procurava e não te encontrava. Acordava me perguntando onde você tinha ido parar.

Nesses sonhos caóticos, ganhei uma folga para visitar a casa verde pela primeira vez. Eu atravessava São Paulo e seguia em direção ao ABC para uma festa, da qual você não participava. Chegando ao final da música, eu te via se aproximar na surdina para me convidar para conhecer o seu espaço recém-adquirido.

Photo by Joshua Newton on Unsplash
De longe, a casa me pareceu uma profusão de promessas vívidas, as quais você nunca foi capaz de cumprir | Crédito: Joshua Newton/Unsplash

Eu me lembro que, na vida real, você me contava que sonhava com uma casa de madeira que um dia chamaria de sua. Eu ficava surpresa ao constatar que a única madeira presente na casa do sonho talvez fosse a do portão, ou o tronco original das árvores que cercavam aquele pequeno sopro de vida natural que brotava no cinza do dia nublado. As árvores eram de um verde musgo. Mas o verde da casa tinha a mesma vivacidade daquele seu par de olhos que tanto me fascinou.

Você me conduziu para o interior da casa, ainda muito vazia e cuja decoração escassa era rústica. Eu me sentia triste por você ter comprado uma casa sem mim, mas era recompensada por uma figura a quem tanto ausentava a infantilidade que me cansou. Eu podia beijar as sardas dos teus ombros sem ter medo de ouvir um comentário maldoso. Ao invés disso, você me pegava no colo, uma coisa que nunca fazia no mundo real, e me levava pelos cômodos do seu cantinho aconchegante e de iluminação escura.

Foi quando você me convidou para me mudar para lá.

– Venha comigo quando estiver preparada. Eu estarei esperando por você – escutei você dizer, esquecendo da mágoa que fiquei por você ter comprado uma casa sozinho.

– Eu chegarei logo – respondi.

E você me beijou, entregando um anel de beleza rara na minha mão.

Eu despertei e te contei do sonho, que você achou curioso. Dias depois dele, eu me pegava sozinha na minha cama, chorando depois da centésima briga. “Onde estaria aquele homem amável da casa?”, eu me perguntei, lançando mão de uma poderosa oração budista na qual eu implorava para que você se tornasse um homem melhor. Na semana seguinte, como um presente não solicitado atendido pelo universo, você simplesmente foi embora.

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O verde poderia ter uma vivacidade felina, mas era de um musgo sem vida e indiferente, tal qual o que seus olhos se tornaram pra mim | Crédito: Martin Widenka/Unsplash

O que se sucedeu naquele término brusco foi uma profusão de sonhos repetitivos e intensos. Foram incontáveis as vezes em que eu sonhei que percorria becos escuros e bares desconhecidos, recheados de esquisitices e desentendimentos com os donos, à sua procura. Sonhei incontáveis vezes com você fora do meu alcance, não respondendo às minhas mensagens e telefonemas. Sonhei que percorria as ruas próximas da sua casa para me deparar com um ambiente novo e pouco convidativo. Sua cachorra insuportável havia sido doada, sua mãe me tratava com certa indiferença e mágoa, você se reconciliava com o seu irmão, a quem tanto dedica desentendimentos, e, às vezes, em algumas manifestações desses mesmos sonhos, eu era tratada como o objeto perfeito dos seus encontros de sexo casual. Eu gozava, você gozava, para então voltar à mesma figura inerte, impenetrável e inacessível – muito semelhante ao homem covarde do mundo aqui fora, que bloqueou meus acessos e sequer foi capaz de me olhar nos olhos desde então.

Percebo que a inacessibilidade, os telefonemas ignorados e as mensagens não lidas que eu tanto temia nos sonhos tornaram-se realidade. Talvez meu inconsciente tivesse uma espécie de dom premonitório e que, por meses a fio, tentou me avisar que meu coração estava prestes a ser apedrejado de uma maneira vil. Que a incompletude seria preenchida com uma flechada brutal no sentimento que tantas vezes te dediquei com carinho. Mas quer saber de uma coisa? Agora que essa realidade de separação bateu na minha porta, a minha sensação é a de que ela é bem menos pior do que eu pensava. Me convenço, inclusive, de que hoje, no brilho do sol que anuncia a permanência constante do verão na minha janela, ela sequer chega a doer. Me parece uma lembrança distante, de uma outra vida, outra encarnação.

É claro que alguns sonhos bons também se repetem. Como aquele no qual caminhamos por um shopping lotado e onde você ousa me abraçar e me beijar incontáveis vezes, me erguendo no colo pra cair comigo no chão e gargalhar das trapalhadas que nós costumávamos assinar a duas mãos. Éramos dois corpos desastrados rompendo entre gargalhadas soltas, deitados no piso daquela construção moderna enquanto as pessoas iam e vinham de eventos insistentes e demarcados por escândalos. Nós levantávamos sorridentes, entrelaçando nossas mãos – a minha pequena e de unhas desiguais, a sua grande de pele roída e calos protuberantes – à procura da minha fondue de chocolate preferida.

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O musgo não cresce, não floresce e não encanta – ele apenas existe e deixa as mãos úmidas | Crédito: Matthew Smith/Unsplash

Hoje a madrugada vem chegando, e eu constatei que já fazia muitas semanas que eu não sonhava com você. Aquela distância e a insistência dos dias nublados e melancólicos dos sonhos, que quase se aproximavam de um cenário em preto e branco, deram lugar à aparição de um artista de olhos verdes e felinos como os seus, porém menos fechados e mais sexuais. Isso sem falar na aparição insistente de um certo jovem, cujo sorriso fácil se converteu em um ciúmes brando e disfarçado por trás de um olhar acalentador e deliciosamente gentil. Ele apareceu por entre os vagões dos trens que, da viagem ao cemitério de comboios que fizemos, converteu-se em construções vazias e abandonadas e de onde ele me relembrava das noites que passei dividindo a cama casualmente com você. E ainda assim, mesmo com essa flor do ciúmes brotando da doçura das íris castanhas daqueles olhos, ele transcende uma candura que eu nunca fui capaz de notar nesse verde irritadiço que tantas vezes você dirigiu a mim.

Apesar de tudo, passado um bom tempo dessa sua ausência carnal auto imposta e covarde, a noite passada me visitou com a visão insistente do teu corpo solitário, envolto pelos galhos das árvores que envolviam aquela casa. Foi a mesma forma e o mesmo contexto do nosso primeiro encontro nesse lugar. A mesma natureza discreta, o mesmo dia nublado e o mesmo sopro do vento no seu entorno. Seus olhos estavam mais próximos do verde musgo das folhas daqueles troncos do que da pintura viva das paredes daquela construção. Ou mesmo do brilho escuro que atravessa o olhar penetrante dos gatos que se embrenham na escuridão.

Aquela doçura no abraço, no carinho das sardas em seus ombros e no anel delicadamente colocado na minha mão foram só uma miragem. Uma atitude que eu sei que não mora no teu peito vazio. E assim, constatei uma coisa curiosa: nos nossos longos diálogos, você sempre me dizia que o sonho da sua vida era construir paredes de madeira bucólica e de atmosfera interiorana. Nunca passou pela sua cabeça que eu moro na casa de madeira dos seus sonhos e que você tanto desejava antes de me conhecer? Ela existe – e eu vivo nela. E hoje me pergunto o que aquele jovem sonhador de tantos anos atrás me diria se descobrisse que você virou as costas tanto para a casa quanto para a guria que vive dentro dela, e que tantas vezes você anunciou aos quatro ventos que desejava levar para viver contigo.

Photo by Trần Anh Tuấn on Unsplash
Tua ausência é como a neblina na floresta: parece triste, mas me encanta e me traz esperança de dias melhores, como em contos de fadas | Crédito: Trần Anh Tuấn/Unsplash

Constatei que a casa verde, tal qual a doçura do homem que nela habita, só existe mesmo no meu sonho e na minha imaginação. Uma imaginação convertida em uma desesperança e incredulidade por saber que seu retrocesso só aumenta. Que o vazio lhe parece permanente, bem como a rotina rasa e estapafúrdia da qual indiretamente você me ajudou a fugir. O verde dos seus olhos perdeu a vivacidade felina na sua insistente ausência, já que quem muito se ausenta deixa de fazer falta.

O verde dos seus olhos está mais para o musgo do que para a tinta que pintou a fachada da casa. Afinal de contas, a pintura era mais brilhante. O musgo, tal como a sua falta, tem cor de melancolia envolta na neblina de um bosque escuro e abandonado – o qual me acolheu e me fascinou tal qual uma criança apaixonada por contos de fadas, pois ele me traduz a esperança de uma vida melhor e mais próspera sem a sua companhia agressiva. O musgo que te adorna mostra que existe muita vida ausente no seu olhar perdido. E que a casa é verde porque sua covardia nunca permitiu que ela pudesse, enfim, amadurecer. Assim como você.

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