Crônica: Você deveria fazer terapia

“Eu não preciso de terapia”. “Eu não acredito em terapia”. “Quem precisa de psicólogo é louco e eu sou normal”.

Ah, as agruras da vida terapêutica… Justamente os detentores das famosas (e preguiçosas) frases de efeito, são justamente os que mais carecem da intervenção de um profissional em suas vidas pra entrarem em contato com seus erros, acertos, medos e anseios mais profundos.

Eu me recordo da primeira vez que pisei na sala de um psicólogo na vida adulta. Aliás, a psicologia me era conhecida desde a infância, quando precisei conversar com uma profissional para me certificar de que, com um ano de adiantamento em relação aos outros alunos de minha escola, estava apta para entrar no Ensino Fundamental. De lá até aqui, um grande buraco marcado pela ausência de um divã certamente atrasou o entendimento que eu tinha de mim mesma. E foi pelas crises insistentes de pânico que ousei sentar nele outra vez.

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Desesperança e apatia X agressividade e ego inflado: se um desses combos anda falando mais alto, chegou a hora de buscar ajuda | Crédito: Asdrubal luna/Unsplash

A primeira figura que se colocou à minha frente era muito jovem. Naquela época, três anos atrás, eu ficava apreensiva antes de começar a botar em palavras as razões que me levaram a ter a sensação iminente de morte e loucura. Acreditava que seria a coisa mais difícil do mundo me abrir sobre problemas tão obscuros, sobre os quais nunca ousei falar para ninguém. Ledo engano: colocar meus medos na minha própria fala me deu uma sensação grandiosa de alívio. A ponto de, apenas dois meses depois do grande feito de ir parar na terapia, me dei alta e me julguei forte o bastante para resolver os meus problemas sozinha. Eu não podia estar mais imatura, convencida e absolutamente enganada.

Quatro meses depois, o pânico me visitou de novo. Resolvi tentar uma nova abordagem, um novo profissional. Saí da fala direta de um discípulo de Freud para tentar a terapia de Donald Winnicott na figura de uma mulher mais velha. Uma pessoa que, até hoje, é meu exemplo de vida de segurança e beleza. Passei a estudar melhor minha relação com a família, com o ambiente, a mergulhar fundo no autoconhecimento. Foi dessa transferência convertida em admiração e confiança que me senti completamente tranquila para me abrir de todas as formas possíveis. E foi nessa abordagem que mergulhei para tratar minha depressão.

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“Eu não estou falando de você e da sua merda social” | Crédito: Ryan Rush/Unsplash

Hoje, eu sigo na batalha para me entender. Para compreender os meus limites. Minha ansiedade patológica e minhas crises se aplacam com a repetição de um mantra que minha psicóloga converteu sabiamente durante uma de minhas sessões, que me aliviou o peso do mundo nas minhas costas: “Por quê você precisa dar conta de tudo?”. E é verdade: por quê? Por quê me convencer de que preciso atingir um modelo estratosférico de perfeição e heroísmo quando, na verdade, sou um ser humano limitado que precisa, sim, de ajuda em muitos momentos na vida para seguir em frente? O medo existe pra todo mundo. E essa cautela que ele me proporciona já me salvou da insanidade tantas vezes que resolvi, por fim, abraçar minhas limitações. 

Outro dia, em uma de minhas crises existenciais com relacionamentos casuais, tive outra frase de impacto que, diferentemente da auto-ajuda e dos conselhos prontos de amigos, tocou lá no fundo da alma com o mesmo efeito que atinge uma criança que descobre a leitura ou os números pela primeira vez: “É importante, inclusive para a nossa existência, que algumas coisas permaneçam no campo da fantasia”. É nesses lapsos de “faz todo o sentido do mundo” que reside a importância de buscar esse profissional, pois qualquer outra pessoa do nosso convívio é incapaz, justamente pela falta desse conhecimento, de nos trazer à tona essas questões. Um divã, uma poltrona ou uma simples cadeira, onde nos prostramos diante dos olhos atentos de um terapeuta, formam um cenário propício à junção do saber científico e filosófico que atuam na concepção do nosso profundo conhecimento de nós mesmos e no combate aos nossos transtornos psicológicos.

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Apenas: senta no divã, aciona o sintoma verborrágico e vai! Falar sobre os próprios medos e anseios é a chave pra cura da mente inquieta | Crédito: Ryan Rush/Unsplash

Enquanto seres limitados, precisamos compreender que nosso cérebro é o órgão mais vital do nosso corpo. Uma vez que ele está prejudicado, todo o corpo entra em combustão. Você consegue passar um tempo longe do próprio coração em uma cirurgia, mas uma morte cerebral representa seu fim. Se sua mente está adoentada, todo o seu ser, dos pés à cabeça, se prejudica. E ah! Quantas vezes fui acometida pela somatização (sofrimento psicológico que se manifesta na forma de sintoma físico) e parei no pronto-socorro reclamando de uma diarreia insistente, uma dor de estômago insuportável e uma ânsia de vômito que eu atribuía a uma virose e que, na verdade, tinham origem nas minhas crises de ansiedade… Neurodivergência, a gente vê por aqui.

Em tempos de intolerância, discussões acaloradas e atitudes torpes, virou rotina olhar pra certos indivíduos e pensar: “Uma terapia te faria bem”. Nossas concepções egoicas de mundo carecem de uma bela porrada lacaniana na cara. Saca só o argumento desse ordinário: “Toda produção excessiva de conhecimento é o produto de alguém que está na posição de sustentar nenhum saber”. E a gente se sente sempre tão cheio de si e tão donos de nossas próprias verdades que desvia das filosofias insanas de Sócrates, onde conhecer os limites da própria ignorância é o caminho certo para a sabedoria, para destrinchar nossa verborragia e fechar o caminho do debate. O ser humano realmente tem um lado demoníaco, e a gente não assume que precisa assumir e trabalhar nossos males. 

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Não importe os males que você enfrente, um bom profissional sabe lançar mão de ferramentas que vão te auxiliar a se descobrir e a sair do limbo | Crédito: Aarón Blanco Tejedor/Unsplash

É claro que a análise não é a única forma de lidar com nós mesmos dentro desse campo. Vertendo para o outro lado, uma boa psicoterapia ressalta as nossas qualidades e forças em meio à desesperança, ao sentimento imobilizante de menos valia, às crises existenciais e aos efeitos dantescos provocados por rupturas e abusos diversos. O abraço provocado por sessões desse tipo são capazes de acender a importância da auto estima, de abrir um caminho importante onde se aprende a falar não, a valorizar nossos conhecimentos benéficos e nossas ações mais produtivas. A terapia é fundamental para atuar na desesperança, e ter acesso a um profissional de qualidade nesses momentos pode salvar a sua vida. Há um quê de sublime em enveredar para o lado do “tudo vai dar certo”. Sem clichês, também precisamos de colo.

Mas o que eu realmente acho curioso é a forma como tantas pessoas cheias de dores e feridas estão mais propensas a aceitar a mão que se estende do que aquelas que tantas vezes provocam as cicatrizes na pele e no coração dos outros. Me deixa irritada o tanto que essas pessoas, que se julgam acima da razão e do bem e do mal, que são justamente aquelas que mais precisam olhar para os próprios defeitos e trabalhá-los, sejam as que mais crescem o nariz para falar que não precisam de ajuda. E o ciclo vicioso segue inalterado, os erros persistentes e a máscara do convencimento impenetrada.

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Uma boa terapia te ajuda a ter um maior entendimento sobre o que verdadeiramente te faz bem | Crédito: rawpixel.com/Unsplash

Retomando as frases de impacto que iniciaram esse textão, gostaria de fazer um contraponto aos defensores do “não preciso de ninguém e sei me virar sozinho”: você precisa de terapia pra trabalhar sua inteligência e maturidade emocional; você precisa de terapia para parar de jogar nos outros as responsabilidades pelos seus erros; você precisa de terapia para parar de usar as pessoas; você precisa de terapia para entender que você não está no centro das atenções; você precisa de terapia para saber concilar sua rotina atribulada com suas relações; você precisa de terapia para entender que, uma vez que você está em um relacionamento, você tem, sim, suas responsabilidades diante das emoções do outro (e que não está nada bem fazer proibições, gaslightning e culpabilização); você precisa de terapia pra se mover antes que sua vida inteira passe diante dos seus olhos; e, principalmente, você precisa de terapia pra aliviar o peso de quem faz terapia pra lidar com você. 

Na arte de viver, faz parte recorrer às ações rotineiras de quebrar com o mármore insistente que camufla a osburidade do ego. Minha próxima sessão já tem data e hora marcada, graças a Deus.

Sempre bom relembrar com a Jout Jout: 

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