Resenha Literária: “Prisioneiras” escancara patriarcado e falha do estado

Escrever sobre falhas promovidas pelo estado é sempre algo muito complexo: exige coragem do pesquisador/escritor para peitar os poderosos e escancarar as mazelas causadas pela falta de investimento e de um olhar atento para situações urgentes. Drauzio Varella é assim: vai fundo em suas vivências, pesquisa até os últimos detalhes, tece críticas construtivas e, acima de tudo, tem uma narrativa deliciosa que tornam seus livros essenciais.

Em Estação Carandiru, onde trabalhou como voluntário no maior presídio da América Latina, destrinchou sem censura as condições chocantes nas quais os presidiários, muitos deles no aguardo do julgamento, viviam – além de, é claro, rasgar o verbo sobre o episódio do massacre que chocou o país. Em Carcereiros, foi a vez da vida dos agentes penitenciários ganhar o protagonismo, com histórias que inspiraram a super série da Rede Globo (protagonizada por Rodrigo Lombardi e absolutamente incrível) e que já leva o título de série mais vista da história do Globo Play, plataforma de streaming da emissora. Por fim, a trilogia sobre o cárcere no Brasil foi completada com Prisioneiras, que escancara como é a vida de mulheres atrás das grades.

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Diferentemente do que acontece nos presídios masculinos (aqui, por exemplo, familiares haviam se mobilizado para exigir informações sobre presos da Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa de Manaus, desativada por falta de estrutura), as mulheres presas são relegadas ao esquecimento | Crédito: Marcelo Camargo/ Agência Brasil/Fotos Públicas

Minha primeira reação ao me deparar com o livro foi compará-lo com as histórias relatadas por Orange Is The New Black, uma de minhas séries favoritas da Netflix e que relata de forma ficcional a vida na penitenciária feminina dos Estados Unidos. Ainda que a comicidade do roteiro da série camufle os problemas da rotina carcerária, há um quê de semelhança no que concerne à rotina de atividades nas quais as presas são submetidas, à superlotação das celas, ao mau relacionamento com muitos dos agentes penitenciários e ao excesso de trabalho. E pára por aí.

Ainda que a vida na prisão americana não seja fácil, os julgamentos são mais eficientes, as presas têm mais acesso a consultas médicas e têm a oportunidade de realizar cursos educacionais, realidade não contemplada pela grande maioria das prisões femininas no Brasil. Ver o sol nascer quadrado nunca é fácil (ainda que a gente entre sempre na polêmica do que é merecimento) e é algo a ser discutido, já que a quantidade enorme de detenções no país reflete falhas grotescas no nosso sistema educacional e na desigualdade social que tanto tira o nosso sono. Mas para além disso, existe um problema que assombra a realidade das mulheres prisioneiras. E esse assombro atende pelo nome de patriarcado.

Nos relatos apontados pelo livro, e confirmados por uma reportagem publicada na Carta Capital, o Brasil enfrenta o problema na superlotação do sistema carcerário também nos presídios femininos: somos o quarto país no mundo que mais aprisiona as mulheres, atrás de Estados Unidos (olha eles aqui de novo), China e Rússia. Ao todo, há cerca de 42 mil mulheres atrás das grades no nosso país, das quais 15 mil concentram-se em São Paulo. A principal causa dos delitos é o tráfico de drogas – e é aqui que o problema se escancara.

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A questão complexa da saúde pública se intensifica no sistema carcerário. Profissionais sentem dificuldades de solicitar exames e medicamentos e de auxiliar mulheres grávidas | Crédito: Foto: Erica Melo/SEAP/Fotos Públicas

Desses delitos, parte das mulheres é ré primária. Nas histórias contadas pelo médico, uma das situações comuns para a prisão em flagrante são as de mulheres usadas como cobaias no transporte de drogas e até levando substâncias a parceiros e familiares em prisões masculinas. Agentes penitenciários relatam que, na maior parte dos casos, há uma facilidade enorme em identificar as visitantes que carregam drogas para que traficantes no cárcere continuem seus negócios: o olhar amedrontado e as mãos trêmulas. Diferentemente do que ocorre em prisões masculinas, aliás, onde a família faz filas quilométricas para visitar o preso e leva um batalhão de comida, as mulheres presas são relegadas ao esquecimento: não é raro os horários de visita não serem preenchidos com a presença dos pais e dos parceiros.

Esposas de prisioneiros capturadas em flagrantes são comumente substituídas quando encarceradas. Muitas delas, que criam os filhos sozinha e enfrentam dilemas desumanos de entrega compulsória da cria para a adoção, além do medo frequente de os verem relegados ao abandono, lutam pelo direito à prisão domiciliar com seus delitos absurdamente menores do que aqueles sob os quais os poderosos políticos respondem na justiça. Em reportagem magistral publicada pela Agência Pública, histórias de prisioneiras que lutam pelo direito competem inumanamente com o direito de prisão domiciliar dado a torto e a direito para os condenados na Operação Lava Jato. Existe desigualdade no Brasil também na punição. Quem é homem, branco e endinheirado passa incólume aos olhos da justiça.

Veja entrevista de Drauzio Varella sobre Prisioneiras ao Nexo Jornal

Os crimes narrados no livro reportagem inclui, muitas vezes, justiça com as próprias mãos. É comum, na leitura das páginas, ver mulheres que sujaram os dedos com sangue para eliminar estupradores, por exemplo – e os casos de violência sofridos por elas e pelas conhecidas que elas tentaram proteger chocam ao extremo. Ainda, existe também a questão sexual: em entrevista concedida ao El País, Drauzio Varella afirma: “O único lugar em que a mulher tem liberdade sexual é na cadeia”. Os relatos confirmam que muitas das mulheres encarceradas experimentaram relações saudáveis e prazer sexual pela primeira vez na prisão, sem a carga de julgamento social e sem o agravante de relacionamentos abusivos e violência doméstica com homens.

O livro reportagem do médico relata muitos problemas sobre o nosso sistema carcerário, nossa desigualdade social e o machismo velado que insistimos em colocar para debaixo do tapete. É, portanto, sal na ferida. E essencial.

VAI LÁ
Prisioneiras
Autor: Drauzio Varella
Editora: Companhia das Letras
Preços: Entre R$ 21,50 e R$ 27
Avaliação Final: ♥♥♥♥♥ (Excelente)

 

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One Comment Add yours

  1. Tati says:

    Esse é um tema muito complexo, e mostra muito da nossa realidade, como você destaca no título, do machismo e de como o machismo afeta as mulheres de tantas formas. Muito triste.
    Seu texto ficou muito bom, trata muito bem do assunto e do tema. Não conhecia o livro, muito boa a iniciativa.

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