Diário de Bordo: a vida cultural e os pontos turísticos de Lisboa

Lisboa é efervescente, divertida, radiante… A combinação de uma atmosfera urbana discreta com as construções históricas e imponentes de seus cantos formam um cenário atrativo aos olhos. Mas mais do que isso: a vida cultural da capital portuguesa é recheada de atrações diversificadas e pra todos os gostos. E claro, pois: caí de amores.

Paulistana da gema, minha vida aqui em São Paulo é muito marcada pela quantidade de filmes, shows e exposições contemplados pela pluralidade imensa da minha cidade. Qualquer forte candidata a ocupar o posto de minha morada precisa me oferecer esse tipo de refúgio, já que eu realmente necessito da arte em todas as suas formas para sobreviver. Nesses vinte dias de estada no país de nossos colonizadores, devo dizer que Lisboa me pegou não só pelo estômago, mas pelos olhos. Meu Deus, que cidade linda!

Arco da Rua Augusta, Lisboa, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Detalhe do teto do Arco da Rua Augusta, parada obrigatória para fotos de turistas | Crédito: Camila Honorato

Existe um bom motivo para muitas de suas atrações históricas serem tombadas como Patrimônios da Unesco: os portugueses realmente levam a sério esse papo de conservar seu passado em cada pequeno pedaço de muro erguido, o que confere a seus pontos turísticos um misto de beleza indescritível com preservação. Não resta dúvidas de que, nesse sentido, temos muito o que aprender. A começar pelo Arco da Rua Augusta, minha primeira parada na noite lisboeta. Localizada na parte norte da Praça do Comércio, ela é demarcada por esculturas de respeito em seu topo e é parada obrigatória para uma das muitas fotos de turista que a gente ousa clicar ao explorar as terras portuguesas.

Dos monumentos, castelos e construções históricas que me deixaram embasbacada, destaco primordialmente, com toques de obviedade, a Torre de Belém, considerada como uma das principais atrações da cidade. A horda de turistas por aqui é gigantesca, mas tem uma razão de ser: a construção, erguida em 1520 pelo arquiteto Francisco de Arruda, é um dos expoentes do estilo arquitetônico manuelino, desenvolvido a partir do reinado de D. Manuel I e marcado por elementos góticos e iconografias próprias da arte portuguesa. Ela já serviu como farol, alfândega e até prisão (as celas de seu subsolo retratam essa parte sinistra do seu passado). Cravada nas margens do Tejo, ela oferece uma visão absolutamente privilegiada da cidade. O barulho das águas batendo na construção, oferecendo aquele silêncio indescritível, mesmo com tantos viajantes circulando por ali, me rendeu um choro emocionado e um agradecimento por ter me rendido à coragem de viajar sozinha.

Torre de Belém, Lisboa, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Na Torre de Belém, o misto das águas do Tejo com o azul do céu e os elementos arquitetônicos de sua construção formam a síntese da viagem perfeita | Crédito: Camila Honorato

Nos arredores, com o mesmo sintoma de patriotismo (nesse caso, um pouco mais exagerado), está o Padrão dos Descobrimentos. Como o nome sugere, o monumento erguido em 1960 faz uma ressalva aos navegantes portugueses que descobriram (na verdade, invadiram não é mesmo?) terras estrangeiras que viriam a se tornar colônias do país. A arquitetura é imponente e os elementos são cheios de firulagem para exaltar esses ordinários. No entanto, o resultado é realmente bonito que dói.

Padrão dos Descobrimentos, Lisboa, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Apesar de representar um nacionalismo exacerbado, o Padrão dos Descobrimentos é um monumento verdadeiramente impressionante | Crédito: Camila Honorato

Essas imediações de Belém, aliás, concentram uma quantidade absurda de museus interessantes. Visitei o Museu do Combatente, também cercado por muito nacionalismo, mas que inclui artigos e objetos interessantes que contam as histórias de diversos soldados portugueses, das Forças Aéreas ao Exército, nas grandes guerras. A visão externa proporcionada pelo lugar é um contraponto interessante, já que ela transcende calmaria, mesmo com a exposição de artigos como tanques e canhões.

Museu do Combatente, Lisboa, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Artigos de guerra misturam-se à calmaria no Museu do Combatente | Crédito: Camila Honorato

Talvez não tanta quanto aquela proporcionada pelo entorno do Museu de Arte e Tecnologia (Maat), que se tornou um dos meus museus favoritos de Lisboa com seu acervo de arte contemporânea e suas exposições tão interessantes quanto incômodas. Quando visitei a cidade, estava em cartaz uma exposição cheia de intervenções artísticas que propunham uma reflexão sobre a relação da sociedade com a tecnologia, incluída aí as consequências de seu uso exacerbado. Uma das instalações mostrava a réplica de um apartamento onde uma mulher, diagnosticada com agorafobia e fobia social, se isolava do mundo tendo a companhia de um telefone e uma televisão. Saí correndo da sala em dois tempos, de tanto desespero que me bateu.

Maat, Lisboa, Portugal | Crédito: Camila Honorato
As exposições contemporâneas do MAAT são tão interessantes quanto incômodas. Portanto: é arte na melhor acepção da palavra | Crédito: Camila Honorato

O bacana do Maat, aliás, é reservar um tempo considerável para contemplá-lo, já que a complexidade de seu acervo e de suas exposições exigem calma. O Circuito Central Elétrica, por exemplo, reúne um patrimônio industrial da primeira metade do século 20 em perfeito estado de conservação e que conta muito sobre a história da eletricidade. Se o desejo for um passeio mais tranquilo e que exale paz, vale a pena ir na outra extremidade de Belém para contemplar outro patrimônio histórico tombado pela Unesco e que impressiona por sua grandiosidade e riqueza de detalhes: o Mosteiros dos Jerónimos, que guarda os túmulos do jornalista Alexandre Herculano e do poeta  (mestre, é claro) Fernando Pessoa. A igreja acoplada, que tanto encanta quanto intimida com sua grandiosidade, guarda as ossadas de Vasco da Gama e do poeta Luís de Camões. Apesar de parecer sinistro, tanto o mosteiro quandto a igreja mais transmitem paz do que qualquer outra coisa.

Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Lindo e calmo: o Mosteiro dos Jerónimos é perfeito pra quem quer aflorar a espiritualidade | Crédito: Camila Honorato

Indo para as zonas do Centro Histórico de Lisboa, em um ponto altíssimo que só vendo, o Castelo de São Jorge entrou, sem sombra de dúvidas, para a lista de lugares mais incríveis que já tive o prazer de visitar na minha vida. Marcado entre as grandes construções medievais do país, o castelo foi erguido por muçulmanos em meados do século 11 para proteger a elite que morava nas imediações. Hoje, suas ruínas bem conservadas estão cercadas por bons bares e restaurantes, que servem para valorizar ainda mais o turismo local. Do alto da edificação, demarcada por escadas extremamente altas, curtas e escorregadias, é possível observar uma das vistas mais privilegiadas da cidade. E na deliciosa área verde local, a pausa para fotografar os inúmeros pavões que circulam por ali é certeira.

Castelo de São Jorge, Lisboa, Portugal | Crédito: Camila Honorato
As ruínas do Castelo de São Jorge conduzem a uma das vistas mais lindas de Lisboa | Crédito: Camila Honorato

Por fim, vale a pena circular por outros bairros da capital e experimentar mais um pouco de arte contemporânea e, porque não, audiovisual. A Cinemateca Portuguesa, que fica perto do metrô Avenida, tem ótimas exposições, exibições de filmes e um acervo que conta com antiguidades impressionantes da sétima arte, entre câmeras e outros artigos que contam a história do cinema. A livraria local é bem equipada e o café, além de charmoso, tem comidinhas gostosas a preços justos.

Cinemateca Portuguesa, Lisboa, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Acervo rico, livraria boa e café charmoso: assim é a Cinemateca Portuguesa | Crédito: Camila Honorato

Por outro lado, o Museu Calouste Gulbenkian vale a visita só pelo Coleção Moderna, com instalações, pinturas e esculturas que fogem da obviedade. Se você estender a visita até a Coleção do Fundador, vai conseguir contemplar obras de arte em meio a uma das instalações mais deliciosas do lugar: o seu jardim. Além disso, as atividades culturais do museu prevê muitos cursos de atualização profissional, workshops e oficinas diversas e opções bacanas para pesquisadores do campo das artes.

Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal | Crédito: Camila Honorato
O acervo do Museu Calouste Gulbenkian está entre os melhores da capital portuguesa | Crédito: Camila Honorato

Isso porque nem consegui ver todos os bons museus e monumentos que a cidade reserva. Aliás, longe disso: a impressão que eu tenho é que, mesmo sendo mais compacta, Lisboa tem uma fonte tão inesgotável de cultura e lazer quanto a minha Sampa. Mais uma bela desculpa pra retornar com mais sede de conhecimento e, claro, de experiências. ♥

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