Crítica de Cinema: por quê todo mundo deveria assistir “Pantera Negra”

Por quê eu demorei tanto tempo pra ver esse filme? Não tem outra forma de começar esse texto em plena terça-feira, depois de dois meses da estreia de Pantera Negra nos cinemas brasileiros. Minha rotina anda atribulada em excesso, é fato. Mas cinema é coisa sagrada na rotina de quem é aficionado por cultura. E eu não vou perdoar esse erro crasso tão cedo.

Chadwick Boseman como "Pantera Negra" | Crédito: Divulgação
Chadwick Boseman como “Pantera Negra” | Crédito: Divulgação

Tenho visto alguns poucos embustes reclamando do alarde em torno do filme e do sucesso estrondoso que ele têm feito nas bilheterias do mundo inteiro. A única coisa que eu verdareiramente penso é: vão ter que engolir. Um filme de super heróis ser, pela primeira vez, sobre negros, com elenco negro e para negros é um feito tão importante quanto ter, finalmente, um filme sobre uma das maiores heroínas (sim, estou falando de Mulher-Maravilha) ganhando as bilheterias e o coração do público. Ambos são feitos extraordinários por dois motivos: o mundo dos quadrinhos é, sim, muito racista e machista. A maior parte dos heróis retratados são homens brancos. Não há diversidade no que diz respeito à história de gigantes como a Marvel e a DC Comics, mas isso estar no passo de uma mudança significativa sentida pelo público é algo que, definitivamente, entrou pra história.

O roteiro fala sobre o universo do país fictício de Wakanda, localizado no continente africano e composto pela mistura deliciosa de tradições tribais com tecnologia futurista. Após a morte do rei T’Challa, seu filho, que atende pelo mesmo nome, toma o poder – não sem antes ser desafiado pelo líder da tribo Jabari, que não aprova o governo conduzido pelo antigo rei. Ao tomar o posto que lhe é concedido por direito monárquico, T’Challa precisa lidar com o roubo em larga escala do vibranium, substância típica de sua terra e que é considerado o principal recurso do país, e combater a ameaça decorrente do crime, liderado por Ulysses Klaue (Andy Serkis, em ótimo papel). A partir daqui, os personagens deixam o país para tentar conter o estrago conduzido pelo bando de Klaue.

"Pantera Negra" | Crédito: Divulgação
Filme também acerta ao distribuir igualitariamente os papeis feminino e masculino | Crédito: Divulgação

Eu não preciso entrar no mérito da qualidade de efeitos especiais, figurino, elenco e trilha-sonora, já que as superproduções da Marvel têm sido unânimes nesses quesitos técnicos nos últimos lançamentos (eu nunca vou deixar de ter pena da DC Comics por isso). Aqui, há grandes feitos que tornam esse um filme obrigatório pra vida, a começar pelo fato de ser uma superprodução que quebra com os padrões caucasianos e imprimem a cultura negra em seu protagonismo. A reação desses fãs ao ver o pôster do filme (“É assim que os brancos se sentem o tempo inteiro?”), que claramente me fez chorar como um bebê, sintetiza a importância estratosférica que isso tem na nossa cultura e sociedade. Vamos fazer essa pausa pra rever isso, por favor:

Além disso, o roteiro é estratégico ao abordar questões delicadas referentes ao racismo: há episódios que falam sobre escravidão e diálogos que trazem reflexões prudentes sobre como combater esse crime ainda tão presente em nossa sociedade. Seria a violência o melhor caminho, já que uma revolução não se faz de forma amigável, ou seria a imposição de diálogos o caminho mais palpável? Discutir essa questão é também ter várias noções importantes: não existe racismo reverso, o protagonismo negro deve ser sentido e imposto de todas as formas possíveis, é preciso atentar-se aos problemas provocadas pela ainda constante imposição de padrões eurocêntricos de beleza e cultura, entender e dialogar sobre apropriações culturais indevidas e colocar-se na posição de ouvinte e apoiador. O branco precisa entender de uma vez por todas o local de escuta diante do protagonismo negro. Não é coincidência que os brancos sejam retratados no filme como os vilões, e há um por quê do silenciamento caucasiano ocorrer em determinadas cenas.

"Pantera Negra" | Crédito: Divulgação
O embate de respeito entre Erik Killmonger (Michael B. Jordan) e T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman) | Crédito: Matt Kennedy/Marvel Studios

Ter um herói negro mexendo com o imaginário coletivo e entrando na roda de personagens adotados em brincadeiras infantis não é pouca coisa (vale dar uma lida no excelente artigo publicado pelo Huff Post sobre o impacto de Pantera Negra). A valorização da cultura negra escancara outra coisa: o respeito à ancestralidade e o escancaramento cru do quão linda ela é. Imagina ver tantas pessoas negras, antes pouco ou nada representadas pela cultura de massa, serem valorizadas pelas cores das vestes, pela qualidade das músicas e pela beleza nada menos que estratosférica de figuras como Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Angela Bassett (pisem em mim, suas maravilhosas!), Winston Duke e Chadwick Boseman. E calma aí, que aquela pessoa que vocês estão pensando merece um capítulo à parte. A gente já chega nele.

O mérito de Pantera Negra não fica só na valorização da cultura negra. Há um quê gigantesco sobre o movimento feminista nesse filme que eu vou colocar em letras garrafais: ELE PASSA COM LOUVOR NO FUCKING BECHDEL TEST. A proporção de personagens masculinos e femininos chega num pé maravilhoso de igualdade pouquíssimas vezes vista no cinema e nunca visto antes em filmes de super-heróis (sim, até Mulher-Maravilha perde nesse quesito).

"Pantera Negra" | Crédito: Divulgação
Personagens como a Shuri (Letitia Wright) mostram para as meninas negras que elas podem ocupar papeis de liderança | Crédito: Divulgação

Mais do que retratar guerreiras em cenas de batalha e mostrar pesonagens femininas dialogando entre si sobre algo que não seja homens, o filme acerta em cheio ao mostrar perfis de liderança. A tecnologia monumental de Wakanda é conduzida pelas mãos de uma mulher: a cientista Shuri (Letitia Wright, bem rainha mores), a irmã gênia e divertida do protagonista T’Challa. Sim, temos uma persoagem forte que grita para espectadores negras e mulheres que elas também podem ser cientistas, pesquisadoras e empreededoras.

Por fim, vamos falar dele? Um deus que desbancou os loirinhos Thor e Capitão América e conseguiu ser o personagem que mais mexeu com o imaginário feminino na história dos filmes baseados em HQs? Michael B. Jordan não choca só pela beleza. Seu personagem mostra que vilões também têm um lado humano e fins que justificam os meios. Mais do que isso, ele é a perfeita reflexão dos problemas provocados pelo abandono, pela rejeião e pela criminalidade, tão presentes no cotidiano de jovens negros da periferia. Afinal: o que fazer quando um país cresce e prospera isoladamente enquanto seus irmãos enfrentam a guerra e a fome? Bora dar um close nele, por favor:

"Pantera Negra" | Crédito: Divulgação
Michael B. Jordan, por quê faz isso? ♥ | Crédito: Divulgação

Basquiat acumulando visitantes com sua arte expressionista no grafite em um centro cultural paulistano conhecido por contemplar artes europeias não é pouca coisa. Nos Estados Unidos, um filme de um herói negro desbancar uma das maiores bilheterias de todos os tempos (Titanic foi pro vinagre depois de 21 anos no posto e cedeu o terceiro lugar do recorde de bilheteria para Pantera Negra, que já soma a arredação de U$ 665,3 milhões no país e U$ 1,2 bilhão mundialmente) anuncia que vem mais por aí. E a gente espera com otimismo por isso.

VAI LÁ
Pantera Negra
Direção: Ryan Coogler.
Roteiro: Ryan Coogler e Joe Robert Cole.
Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Letitia Wright, Martin Freeman, Daniel Kaluuya, Winston Duke, Angela Basset, Forest Whitaker, Andy Serkis, John Kani, Florence Kasumba e mais.
Trilha Sonora: Ludwig Göransson.
Produção: Kevin Feige, Louis D’Esposito, Victoria Alonso e Stan Lee.
Fotografia: Rachel Morrison
Distribuição: Disney
Avaliação Final: ♥♥♥♥♥ (Excelente)

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