Diário de Bordo: o fascínio que o litoral português despertou em mim

Cá estou em casa, atrás de uma tela de computador, conciliando o caos de tantas tarefas que esse dia-a-dia de jornalista me exige quando, de súbito, me veio a lembrança forte (e cruel) das praias de Portugal. Escrever sobre isso em dia de semana, no meio da rotina enlouquecida que abracei há anos, é tanto uma tortura quanto um acalento. Tortura por me escancarar a realidade de correria urbana enquanto o mar azul segue pleno e levemente revoltado no outro canto do mundo. Acalento por contar com uma lembrança tão plena e vívida em tempos de caos político e econômico das minhas terras tupiniquins.

Pisar em Portugal me remeteu um pouco às minhas viagens ao Nordeste brasileiro, sobretudo com a combinação de construções históricas junto ao litoral. Que os defensores do nacionalismo europeu me perdoem (ou não), mas são muitos os cenários daqui que não devem em nada pra terra dos colonizadores – é só pisar em lugares como o Farol da Barra, em Salvador (BA) pra constatar essa verdade. O pecado fica por conta dos estados de conservação das estruturas, do lixo jogado e da falta de respeito que tantas pessoas têm pelos lugares que marcam sua cidade. E, pra quem é tão apaixonada pela água, me deparar com a extensão do azul daquela terra e da tranquilidade que emana dela me fez respirar fundo e entender que o clima de paz seria o grande regente da minha viagem.

Cascais, Portugal | Crédito: Camila Honorato
As praias de Cascais estão entre as mais elogiadas de Portugal | Crédito: Camila Honorato

Quando desembarquei em Lisboa em direção a Estoril, onde eu ficaria hospedada na casa de um amigo meu, fiquei bestificada com a visão que os portugueses têm o privilégio de contemplar em uma viagem pelo comboio. Sainda da faixa demarcada pelo Rio Tejo, o mar dá o tom certo às estradas. É um casamento atrativo dos elementos arquitetônicos típicos do continente à beira da faixa de areia e às margens das águas revoltas, que tantas vezes aumentam consideravelmente de volume e ficam mais próximas às calçadas.

Como diria uma amiga querida que fiz na terrinha: é impressionante a vivacidade dos tons de azul por aqui. O reflexo da imensidão do céu junto à imensidão marinha formam paisagens que mais parecem a imagem de um verão sem fim, mesmo no inverno de ventos congelantes e com temperaturas próximas aos 10ºC. Quem é de uma cidade grande e tão cercada de arranha-céus (como é o caso de São Paulo), sabe o quanto o tom invernal que mais combina com esse cenário não é o azul, mas o cinza. Menos Beach Boys e mais The Smiths nos fones de ouvido, supostamente.

Estoril, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Sim, tem clichês que cabem na terrinha. Tipo o visual dessa placa | Crédito: Camila Honorato

Minha impressão, afinal, é de que tudo que o litoral português proporciona é, em tese, mais próximo do acalento. Do abraço que dei no meu amigo na chegada depois de dez anos sem vê-lo e com conversas tão escassas (nunca façam uma sacanagem dessas na vida se você tem pessoas que significam tanto pra você na sua vida) ao sentimento de plenitude que me acometia a partir da visão do quarto e da sacada do apartamento: tudo casa com a vontade de erguer os braços e deixar o vento vir, como um companheiro sem rosto que envolve tua pele com um único toque. Será que é isso que os pescadores sentem? Talvez. Ou talvez a plenitude vire mais respeito e medo com a imprevisibilidade das ondas, onde não há barco que sobreviva a um naufrágio.

O fato é que eu não consegui ser engolida por esse temor, exceto quando coloquei meus pés na água congelante desse inverno. O respeito dos portugueses por suas terras talvez seja o maior aprendizado que possamos carregar. Se tivessemos isso correndo em nossas veias, talvez não veríamos tanto lixo sendo indevidamente ofertado à Iemanja nas águas marinhas, tanta poluição em rios extensos como o Pinheiros e o Tietê (que, se bem conservados, facilmente teriam salvado tantos paulistanos da sincope mental junto ao caos da cidade) e tantos pesos e proibições. Aqui, as famílias passeiam tranquilas com seus cachorros tendo a certeza de que não haverá um contratempo animalesco (muitos deles vindos das mãos de desafortunados que recorrem ao crime).

Estoril, Portugal | Crédito: Camila Honorato
O mar português, as rochas e a tranquilidade de Estoril | Crédito: Camila Honorato

Entre Estoril e Parede, praias menos elogiadas do que os bombásticos trechos litorâneos do Algarve, Setúbal e Alentejo (mas que quebram o galho tal qual uma Praia Grande sem bitucas de cigarro), não é raro, como no resto do país e do continente, encontrar moças com os seios livres. Me arrisquei a deixar os mamilos respirarem, mas achei melhor deitar de bruços pra protegê-los da ventania. Ganhei um bronzeado desavisado e irregular de um sol de geladeira. E respirei aliviada por constatar que o busto não era um tipo de nudez violentada ou castigada por aqui. Simplesmente: ninguém se importa, graças a Deus.

Afora isso, o azulão intensificado da margem de Cascais, ali na costa oeste da vila portuguesa, escancarou a revolta das águas da Boca do Inferno. O nome é tanto uma analogia ao barulho do impacto do quebra-mar nas rochas como às lendas urbanas envolvendo a morte de mergulhadores e suicídios junto às falésias. Deveria ter me sentido intimidada, mas tudo que me restou foi o sentimento contemplativo diante da grandiosidade da natureza – e da raiva de Poseidon, talvez? Talvez o fascínio case bastante com o perigo, afinal.

Cascais, Portugal | Crédito: Camila Honorato
A beleza intimidadora da Boca do Inferno, na costa oeste da vila de Cascais | Crédito: Camila Honorato

Da lembrança vívida que agora me acomete no meu escritório particular, me sobrou a saudade do sentimento de simplesmente não temer. De relaxar com as conversas acolhedoras que tive na beira do litoral, de sorrir com a memória da comparação que uma amiga fez enquanto a água barulhenta fazia a maré subir e quebrava na beira da calçada (“Hoje você está que nem esse mar”), e de saber que, no final do dia, haveria um certo barulho, mesmo que distante, daquela água. O litoral português me escancarou a realidade do que nós, aqui dessa tão amada terra brasileira, poderíamos ter sido: um povo que vive às margens de sua natureza abençoada sem o agravante de desrespeitá-la e, principalmente, de poder viver bem nela sem temer a maldade das mãos humanas.

Talvez seja criminoso para muitos ouvidos atentos constatar que uma colonizada se apaixonou tanto pela terra de seu colonizador. Que a filha dos nativos brasileiros aplaudiu o pôr-do-sol da nacionalidade de um povo que invadiu suas terras. Existe culpa na Iracema de Alencar por ter permitido que a pele branca de Martim levasse a doçura dos seus lábios de mel e o segredo da Jurema? O fato é que é impossível resistir às rochas que demarcam a paisagem litorânea do país, às muitas ruínas históricas que denunciam antigas construções à beira-mar e aos azuis. Sempre esses danados desses azuis. Não se pode maltratar e condenar um coração que se apaixona pelo perigo.

Estoril, Portugal | Crédito: Camila Honorato
O fim de tarde contemplativo que o vislumbre da água do mar me proporcionou todos os dias | Crédito: Camila Honorato

O concreto cinza perde o sentido diante das lembranças vívidas dessa espuma transparente na faixa cortiça. O litoral português é uma das memórias que guardo com mais carinho dessa temporada. E que escancara que, talvez, seja a hora de tantas pessoas guerreiras de pele bronzeada se aventurarem nas praias esvaziadas que antes pertenceram a navegantes ousados como Cabral. Os cabelos brancos dos senhores portugueses e esse crescente êxodo brasileiro diante de um futuro incerto escancaram essa suposta nova realidade.

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