Diário de Bordo: os encantos de Sintra, em Portugal, e o valor de viajar sozinha

Pisar em Portugal foi, definitivamente, uma das experiências mais construtivas da minha vida. Sob diversos aspectos, foi uma lição de renovação mental e espiritual, um exercício de me bastar sozinha, um desafio no que concerne a conviver em um mesmo espaço com um amigo de longa data fazendo o papel de host e, principalmente, uma absorção inenarrável de história e cultura.

Dentre as minhas experiências ricas na terra dos nossos colonizadores, nos vinte dias que passei entre pequenas cidades do litoral, a vida agitada da capital e um bate-volta construtivo até um vilarejo essencialmente turístico, digamos que vale a pena escrever, primeiramente, sobre essa última. Dizem que o melhor a gente guarda pro final. Mas é justamente desse final que vai nascer o primeiro dos muitos textos que eu separei sobre as minhas andanças na terrinha, ó pá. Mas que contraponto, não é mesmo?

O encanto do vilarejo de Sintra, em Portugal | Crédito: Camila Honorato
O encanto do vilarejo de Sintra, em Portugal | Crédito: Camila Honorato

Histórica, compacta e charmosa, Sintra é uma pequena vila cravada na área metropolitana de Lisboa e que, graças aos seus muitos passeios, construções históricas, restaurantes e lojinhas para fazer compras, atrai uma horda de turistas interessados em explorar seus encantos. Com pouco mais de 380 mil habitantes, o vilarejo foi a parada (ou seria ‘paragem’?) final das minhas férias portuguesas. Sua paisagem cultural, demarcada por construções de respeito como o Palácio Nacional de Sintra, a Quinta da Regaleira, o Palácio de Monserrate, o Palácio Nacional da Pena e o Castelo dos Mouros (isso pra não citar mais nomes e excluindo o charme indiscutível de seu centro histórico, onde dá pra perder umas boas horas passeando) lhe conferiram o título de Patrimônio Mundial da UNESCO.

Chegar até Sintra é fácil tanto se você partir de Lisboa, já que o trem que sai da estação do Rossio leva até o vilarejo em pouco tempo, quanto se você partir de Cascais, que oferece um ônibus. A paisagem do caminho até lá já arranca bons suspiros, mas avistar todo o conjunto arquitetônico local é uma experiência, no mínimo, fascinante. Eu poderia destrinchar uma quantidade louca de argumentos sobre o por quê de Sintra ser uma parada interessante em uma viagem para Portugal. Mas, em termos de experiência própria, o que mais me trouxe boas lembranças do lugar foi o silêncio, a solidão e o prazer inenarrável de vencer um obstáculo sozinha e, com ele, conseguir superar uma lembrança que me levava ao passado de uma forma bem dolorosa.

Castelo dos Mouros em Sintra, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Mal sabia eu, mas minha intuição ia me levar até essa visão aqui | Crédito: Camila Honorato

Explico: quando saí de Estoril (onde estava hospedada) em direção a Sintra, eu não tinha roteiro pronto. Segui minha intuição (um sentimento que me acompanhou durante toda a viagem) de ir na cara e na coragem e ver onde minhas andanças me levariam. Isso foi uma coisa completamente nova pra mim: em todas as minhas viagens pelo Brasil, eu sempre fiz questão de pesquisar a fundo tudo sobre a história e os pontos turísicos do meu lugar de destino, além de separar roteiros para percorrer tudo o que mais me encantava. Minha vida tem um lado que gosta de planejamento e organização (meu trabalho que o diga, tenho tudo impecavelmente anotado). Mas na terra de Cabral, especificamente, quebrei com uma das muitas regras que regem minha vida e me deixei levar pela intuição e pelo humor do momento. Isso me libertou de muitas coisas, dentre elas a noção de obrigatoriedade com planejamento e da sensação doentia de ansiedade patológica que ela sempre me proporcionou.

Uma das muitas visões proporcionadas pela minha trilha em Sintra, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Uma das muitas visões proporcionadas pela minha trilha em Sintra, Portugal | Crédito: Camila Honorato

Regida por esse sentimento, saí da estação do trem de Estoril rumo a Lisboa e percorri as “baldeações” do metrô da capital até chegar ao Rossio (podia ter cortado essa jornada e ido direto para Cascais para pegar o ônibus, mas como se tratava do meu último dia de viagem, quis dar uma caminhada naquele que se tornou o meu bairro lisboeta favorito). Na viagem até Sintra, eu me voltei pra mim mesma e refleti sobre todas as minhas agruras até finalmente consolidar o sonho de fazer a minha primeira viagem internacional. Da depressão que quase me matou a uma decepção amorosa que, por muitas semanas, me levou à descrença nas relações, me sentia tão madura e plena comigo mesma que, olhando pra trás, certamente diria que não acreditava que algum dia teria me sujeitado a anular meus sonhos e vontades próprias em detrimento de outra pessoa. E é engraçado quando você para pra pensar porque alguns pensamentos cismam em te invadir em certos momentos. Se você parar para analisá-los e interpretá-los, verá que a “cisma” sempre tem uma razão de ser.

Desembarcando na estação de Sintra, coloquei os fones de ouvido e caminhei, sem rumo certo. Seguia as placas turísticas pra não perder totalmente o senso de direção, mas era só. Ignorei as plaquinhas oferecendo tours guiadas pela região e até as propostas de passeio pelos tuk-tuks, que somam-se aos montes na terrinha. Com alguns poucos euros no bolso, não sabia que tipo de experiência valeria o gasto. Simplesmente escutaria o que meu coração proporia na hora. Na minha cabeça, o único ponto que talvez funcionasse como parada obrigatória seria a Quinta da Regaleira, mas por indicação de amigos. Respirei fundo e segui.

A beleza do Palácio Nacional de Sintra, um dos muitos pontos turísticos do vilarejo português | Crédito: Camila Honorato
A beleza do Palácio Nacional de Sintra, um dos muitos pontos turísticos do vilarejo português | Crédito: Camila Honorato

Minha primeira parada me levou ao topo, onde pude observar os cenários da pequena vila, que certamente é uma das coisas mais lindas que já contemplei na vida. Ter todo aquele conjunto arquitetônico tipicamente europeu casando com tantos cenários altos, muitos deles montanhosos, me fizeram suspirar profundamente. Ergui a câmera, cliquei os contrastes da construção do homem junto à natureza até parar na fachada do Palácio Nacional de Sintra. Admirei a construção e fechei os olhos. Meu coração me disse que ali não era o lugar. Sorri, dei as costas e segui viagem, não sem antes registrar a imponência daquele muro branquinho na memória da câmera fotográfica.

Liguei o Google Maps do celular pra me localizar até a Quinta da Regaleira. Entrei pelo centro histórico de Sintra para contemplar a fachada das lojas e os salões dos restaurantes. Subi pelas ruas estreitas e de pedras, tão comuns no país e com as quais já estava habituada, mesmo com o cansaço insistente, e segui. Atravessei a rua até constatar que tinha chego não ao destino que tinha cadastrado no aplicativo, mas a uma trilha que conduzia ao Castelo dos Mouros. Desliguei o percurso e entrei no caminho. Sem os fones de ouvido, preferi escutar o barulho proporcionado pela natureza e pelos poucos viajantes com os quais cruzei no caminho.

Castelo dos Mouros em Sintra, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Plaquinha anunciando muito esforço físico pela frente | Crédito: Camila Honorato

Se você não é uma pessoa afeita a caminhadas longas e cansativas e não suporta surpresas, não recomendo que chegue até o castelo, um dos pontos turísticos mais visitados e respeitados de Sintra, por esse caminho. A subida é extremamente íngreme, você se encontra só por longos minutos até avistar uma alma viva caminhando por você, as pedras são escorradias (principalmente em um dia pós-chuva, cheio de neblina e com o vento cortante do inverno português) e, dependendo do dia, o sopro gelado que vem daquela altitude pode te incomodar. Aqui vale o recado: não ignore o conselho dos amigos e leve blusas quentinhas pra visitar Sintra. A ventania realmente não é brincadeira.

Minha caminhada solitária com destino ao Castelo dos Mouros durou uma hora. Minhas botas de couro se enchiam de pedrinhas e lama, a sensação interminável de estar sempre subindo me exigiu um abastecimento de água e fôlego constante. Mas, muito mais do que isso: era impossível não parar para contemplar os cenários altos e vastos proporcionados pela visão daquele ponto particular, bem como da natureza insistente ao meu redor. O verde acolhedor, o aroma da terra e das árvores, o barulho que só a Mãe Terra traz… Mas mais do que isso: a imposição do silêncio humano me foi essencial, pois era desse conforto, de ausência de voz, que eu precisava. O silêncio que pautou minha viagem e pelo qual eu busquei e ansiei. E consegui encontrar.

Castelo dos Mouros em Sintra, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Verdinho pra recuperar o fôlego | Crédito: Camila Honorato

Não me importei com o frio insistente do local, porque eu suei bicas com a subida íngreme e sequer consegui me importar com ele. No ponto final, completamente esgotada, comprei minha entrada pro castelo, por € 7,50, e segui. Conversei com o guia, observei os turistas pelo local, atravessei cada caminho e subida para chegar à construção e, finalmente, parei.

Do alto daquele ponto, vi a cidade acenar pra mim. Observei cada pequena colina se materializar na frente dos meus olhos e contemplei todas aquelas pedras espetaculares na minha frente, tentando imaginar como viviam as pessoas dos tempos nos quais as mesmas foram erguidas para formar a construção que, hoje, acena para o visitante e o intimida com sua imponência. As ruínas do Castelo dos Mouros são, afinal de contas, o prenúncio da atuação dos mouros muçulmanos na região durante o século IX, antes de o mesmo ser abandonado depois do avanço do cristianismo no país e a fortaleza, que tanto serviu de proteção à região durante as Cruzadas, ser temporariamente relegado ao esquecimento até, por fim, ser restaurado pelo Rei Fernando II no século XIX como forma de valorizar as riquezas culturais proporcionadas pela Idade Média.

Castelo dos Mouros em Sintra, Portugal | Crédito: Camila Honorato
O castelo é isso mesmo: nada menos do que deslumbrante | Crédito: Camila Honorato

Mais do que os floreios propostos por essas reflexões históricas, o castelo me levou de volta a alguns episódios da minha própria história. Aquela altura indescritível me trouxe uma lembrança absolutamente contrastante. De repente, me vi em um certo descampado de Minas Gerais, terra brasileira tão fortemente explorada pelos nossos colonizadores portugueses, tendo o sol escaldante pinicando a minha pele em uma trilha quilométrica que eu percorria segurando na mão de outra pessoa. Até então, eu considerava aquela a trilha mais intensa da minha vida – um resquício de vida selvagem em meio a uma cidade romântica.

Sintra, aliás, pode ser muito romântica, e eu constatei isso pela presença de inúmeros casais percorrendo aquele cenário medieval e tirando selfies aos beijos. Mas ali, eu ironicamente me libertei de uma das poucas lembranças românticas que ainda me aprisionavam ao passado de um relacionamento que não floresceu. E dali, naquele ponto em particular, substituí a trilha intensa debaixo do sol e do calor brasileiro por uma jornada solitária, construtiva e cansativo em meio ao vento cortante que paira sobre Europa em fevereiro.

Castelo dos Mouros em Sintra, Portugal | Crédito: Camila Honorato
Cenário de silêncio, reflexão… E perdão | Crédito: Camila Honorato

Do alto daquele castelo, me lembrei de um diálogo que tive poucos dias antes com o amigo que me hospedou, e que vive sozinho, sem qualquer relacionamento à vista, há alguns anos: “Eu sou uma pessoa completa. Aprendi que qualquer pessoa que venha se relacionar comigo precisa me complementar, e não completar”.

Ali, no alto, constatei o quanto ele estava certo. O quanto subverti o valor de uma trilha, que era uma lembrança dolorosa, em algo sublime e que tanto serviu para me mostrar que posso percorrer caminhos por mim mesma, sem a idealização de momentos vividos na companhia de outra pessoa. Converti um cenário teoricamente romântico na paisagem ideal do último sopro que ainda me aprisionava ao passado: a mágoa.

Castelo dos Mouros em Sintra, Portugal | Crédito: Camila Honorato
A vista a partir do castelo é deslumbrante. E foi a subida até aqui um dos pontos fortes da minha viagem | Crédito: Camila Honorato

Chorei no alto da construção, sentindo o vento levar o último peso que aprisionava meu coração. O frio dali me trouxe o perdão genuíno. Perdoei os males que enfrentei, e libertei esse órgão esquisito pra amar de novo. Mas, principalmente, me amar por completo, sem buscar defeitos em mim mesma e nem impedimentos pra realizar meus sonhos. Eu cheguei sozinha até um dos lugares mais bonitos que pude contemplar na vida, com meu esforço. Só precisei de mim. E de mais ninguém.

Orgulhosa do meu feito, retomei o caminho. Desci, valorizando cada esforço percorrido pelas minhas pernas, e tomei nota sobre um dos muitos objetivos inconscientes que essa viagem me proporcionou. E finalmente sorri.

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2 Comments Add yours

  1. P. R. Cunha says:

    Sintra sempre me pareceu gira!

    Obrigado pelas dicas, Honorato.

    1. camilahonorato says:

      Disponha, moço! Obrigada pelo feedback. 🙂

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